A fada afilhada | Histórias e contos

 

Beatriz era uma fada madrinha que trabalhava demais. Ela passava o dia inteiro cuidando de todo mundo, e todo mundo gritava para ser cuidado pela Beatriz. Tinha princesa que se achava feia, tinha príncipe que não sabia Matemática, tinha rei nervoso de tanto ouvir reclamação da rainha, tinha caçador de dragões com medo de escuro. Tinha de tudo.

E a Beatriz dizia de mil modos diferentes que a princesa era linda, até a beleza raiar. Ensinava Matemática para o príncipe, até ele entender. Levava o rei para passear longe do castelo, até ele se acalmar. Contava histórias para o caçador de dragões, até ele adormecer.

E o telefone celular da Beatriz não parava de tocar. Todo mundo queria falar com ela ao mesmo tempo, e a fada botava todo mundo no colo. Um de cada vez, claro. Ah, mas ela tinha um colo mais largo que o mar. O seu abraço era mais apertado que de urso-polar. A sua voz era mais suave que música de concha. Os seus olhos eram doces que nem chuvisco. O seu riso era mais delicioso que recreio demorado. Todos adoravam a Beatriz, porque ela deixava todo mundo feliz.

Mas quem será que cuidava da fada, quando ela tinha medo de ficar sozinha? Quem dizia que ela era linda, quando achava que estava engordando ou acordava toda descabelada, com olheiras e cara amassada? Quem conversava com Beatriz, quando ela estava infeliz? Afinal, quem botava a fada madrinha no colo?

Ninguém, ninguém, ninguém.

E ela sonhava com esse colo. Sonhava com alguém que também se preocupasse com ela, que a protegesse de tudo, que a ninasse com histórias, que a abraçasse mais apertado do que todos os ursos da Terra. Mas ninguém aparecia.

Quer dizer, até apareciam alguns bonitões.

É verdade.

Beatriz gostava muito de namorar. Mas, mesmo apaixonados, todos os namorados acabavam no seu colo. Ela cuidava deles, como cuidava de todo mundo, mas nenhum deles cuidava dela. Bem, pelo menos nenhum cuidava do jeito que ela sonhava. E isso a deixava com uma tristeza que não passava, mesmo quando ria de alguma coisa.

E, de tanto botar todo mundo no colo, a Beatriz foi ficando com uma dor nas costas tão forte, uma dor tão pesada, que ela passava o dia toda doída, toda curvada, toda quebrada, toda corcunda que nem um ponto de interrogação.

Um dia de tão corcunda que estava, ela não consegue sair da cama. E ficou deitada. Deitada e empenada.

E a dor nas costas não passava. Aliás, essa dor só aumentava a cada visita que a fada recebia, porque em vez de se preocuparem com ela, as pessoas só a visitavam para pedir ainda mais colo.

Elas chegavam e entravam, chegavam e entravam.

É que casa de fada madrinha não tem porta nem campainha.

Todo mundo entra e pronto: começa a ladainha.

Só que mesmo empenada, mesmo quebrada, mesmo curvada, a Beatriz acabava dando colo para todo mundo. E de tanto dar colo, além de continuar com muita dor nas costas, a fada também ficou com um torcicolo esquisito. Não aquele torcicolo que dá dor no pescoço e não deixa a gente se virar. Na realidade, o torcicolo da Beatriz era mesmo um colo torcido. Um verdadeiro TORCECOLO.

Assim, a fada ficou realmente corcunda de dar dó, ou melhor, ela ficou corcunda de dar nó: ficou com os braços enrolados nas pernas, com as pernas enroladas nos cabelos, com os cabelos enrolados nas ideias.

Mas, em vez de ajudarem a Beatriz a se desenrolar, as pessoas continuavam matraqueando ao lado dela, como se nada estivesse acontecendo. Como se não vissem que a fada estava daquele jeito, toda destrambelhada. Então, tentando se desenrolar, a Beatriz foi ficando cada vez mais vermelha, cada vez mais sem telha, cada vez mais sem orelha, de tanto ouvir as pessoas falando, falando, falando sem parar. E assim, toda zonza, ela não entendia mais nada do que cada um falava. Só ouvia zumbidos. Na realidade, chegou uma hora que a fada ficou com o ouvido tão entupido, tão entupido, que não conseguia ouvir nem o que ela mesma dizia. Ah, mas aquilo deixou a Beatriz muito agitada, muito nervosa, muito irritada, como nunca.

De tanto tentar falar, mas sem conseguir se escutar, a fada madrinha, que sempre tinha sido tão calminha, acabou dando um berro.

E foi um berro tão alto que estremeceu todo mundo que estava lá. O que a fada berrou? Ninguém entendeu. Nem ela mesma. Mas todo mundo saiu correndo, sem nem olhar para trás. Uns acharam que ela tinha ficado doida, outros que ela não gostava mais deles, outros acharam que ela tinha ficado mal-educada.

Engraçado é que com aquele berro a Beatriz se desenrolou das pernas, se desenrolou dos braços, se desenrolou dos cabelos, se desenrolou das ideias.

Mas aí aconteceu uma coisa que deixou a fada bem assustada. É que de dentro do berro saiu uma fumaça meio azul, meio verde meio preta… E, de dentro dessa fumaça, saiu uma mulher, nem tão jovem, nem tão velha, com um andar estranho.

Depois que apareceu, a tal mulher foi se chegando até Beatriz, sem dizer nada. E aquele silêncio metia um medo danado na fada. E aquela fumaça metia um medo dobrado na fada. E aquela mulher, que morava dentro do berro, assustava demais a fada. E a Beatriz não conseguia sair dali, calada, paralizada, encolhida de medo.

Então, a mulher chegou ainda mais perto e abriu um sorriso de sol para a Beatriz. E de dentro do sol, quer dizer, de dentro do sorriso, saiu uma voz que dizia assim:

— Eu sou a sua fada madrinha, querida.

Com uma cara abestalhada de surpresa, a Beatriz descobriu que, como todo mundo, também tinha a sua dinda: uma fada que adorava ler. Aliás, aquela dinda gostava tanto de ler que, no lugar da varinha de condão, usava um livro enrolado em forma de canudo para fazer as suas mágicas.

Desse jeito, ela se aninhou ainda mais perto, botou a sua afilhada no colo e começou a ninála com um cafuné daqueles que fazem a gente suspirar pelos cabelos. E, no meio do cafuné, ela folheava a sua varinha, ou melhor, folheava o seu livro, e cochichava coisas no ouvido de Beatriz, meio falando, meio cantando, meio sussurrando:

— Às vezes a gente tem que gritar, que nem você fez hoje, menina. Mas só berrar não basta, não. Quem cuida de todo mundo também precisa se cuidar, viu?

Finalmente, sem corcunda e desempenada, a fada afilhada desligou o telefone celular e resolveu tirar um dia só para ela. Naquele dia, inspirada pelo que disse a sua madrinha, a fada foi ao cabeleireiro e inventou um penteado bem maluco, que sempre teve vontade de inventar, comprou uma roupa ainda mais maluca, que sempre teve vontade de comprar, tomou quatro sorvetes de taperebá, que há muito tempo não tomava, andou demais com a sua bicicleta, de frente para o mar, como não andava há um tempão.

 

E, de tanto andar, Beatriz acabou esbarrando com um mago padrinho que também cuidava de todo mundo, mas não tinha quem cuidasse dele. Bem, pelo menos não cuidavam do jeito que ele sonhava. E o rapaz não era bonitão. Na verdade, era gordinho, não tinha cavalo, não tinha chapéu de mago, não tinha nenhuma pinta de galã. Mas tinha uns olhos… Ai, que olhos…

E, quando a Beatriz e ele se olharam, foi amor ao primeiro colo.

Um colo tão grande, mas tão grande, que dava para os dois.

Foi isso o que aconteceu. E a fada afilhada ficou muito feliz. Mas depois dessa história uma pergunta começou a engatinhar de boca em boca de orelha em orelha, de nariz em nariz: quem é que ia botar no colo a fada madrinha da Beatriz?

Márcio Vassallo, A fada afilhada, São Paulo, Global, 2008

Fonte: newsletter de Clube das Histórias