A regra de Niceia e os critérios pascais

A regra de Niceia

No início do século IV, um perigo ameaçou a unidade do Cristianismo. A heresia ariana tinha chegado a uma amarga disputa com a posição ortodoxa, que nem com a intervenção direta do imperador romano Constantino, o Grande, poderia ser resolvida, pelo que apenas se viu como solução a convocação de um Concílio Ecuménico, patrocinado pelo Estado romano, e que reuniu 318 bispos na cidade turca de Niceia, no ano de 325.

Constantino enviou uma carta aos líderes cristãos que não puderam participar no concílio, no qual foi colocada, de maneira precisa, o que tem sido chamado de segunda controvérsia Pascal. Na carta, ele expôs como algumas igrejas continuavam a guiar-se pelo calendário judaico para obter informações sobre o dia em que se deveria celebrar a Páscoa cristã, o que considerava inaceitável. Constantino terminou sua carta transmitindo “a opinião de todos para celebrar a santíssima Páscoa num único e mesmo dia“.

Nos documentos que se conservaram daquele primeiro Concílio Ecuménico não aparece qualquer resolução sobre as regras para determinar o dia da Páscoa. Tudo indica que os participantes no concílio reafirmaram implicitamente a validade do cômputo que já utilizava Alexandria, cidade onde estavam os computistas mais hábeis do mundo cristão. No texto grego dos documentos aprovados em Niceia há uma carta dirigida à Igreja Alexandria, onde podemos ler: “Também enviamos as boas notícias da solução relativa à santa Páscoa, em resposta às vossas orações, esta questão também ficou resolvida“, afirmando mais tarde que se tinha chegado ao acordo de todas as Igrejas celebrarem a Páscoa no mesmo dia, segundo as regras que já eram seguidas em Alexandria e na maior parte da cristandade.

A regra que o Concílio de Niceia acordou em estender a todo o mundo cristão fixou a Páscoa cristã no Domingo depois da primeira Lua Cheia da Primavera, de acordo com as regras que a seguir se expõem.

Os critérios pascais

O problema com que se enfrentavam os computistas cristãos do século III era encontrar a data do calendário juliano em que calha a primeira Lua Cheia da Primavera. Depois de conhecermos este dado, é fácil determinar o Domingo posterior no qual se deveria celebrar a Páscoa cristã. Para resolver este problema era necessário elaborar um calendário lunisolar, que exigia estabelecer os seguintes quatro critérios:

1.- Como se deve determinar o «primeiro mês», isto é, o mês da Primavera? Os cristãos aceitaram o equinócio da Primavera como ajuda para essa definição, a partir do qual se deu ao calendário cristão um conteúdo astronómico de que carecia o calendário judaico.

2.- Em que data do calendário juliano se fixa o equinócio da Primavera? Este dia varia de um ano para outro, inclusivamente a sua localização no calendário juliano vai variando. A decisão foi definir o dia 21 de Março como o dia do começo da Primavera.

3.- Quais os dias do mês lunar em que se pode celebrar a Páscoa? Esta celebração deve cair no Domingo à seguir à primeira Lua Cheia da Primavera, que tem a idade de XIV dias. Portanto, não pode celebrar-se todos os anos no mesmo dia do mês lunar, pelo que é necessário estabelecer os limites lunares da Páscoa cristã. Ficou acordado que o Domingo da Páscoa cristã na idade da Lua deveria estar entre o XV o XXI dia, ambos valores inclusivos.

4.- Em que datas do calendário juliano cai a Páscoa? Para responder a esta pergunta é necessário fazer a correspondência das datas lunares no calendário juliano. Para isso deve respeitar-se a seguinte sequência: primeiro, fixar um ciclo lunar e, segundo, determinar as datas julianas das Luas novas ou cheias deste ciclo.

Os critérios acima referidos podem ser reunidos para estabelecer a regra nicena: A Páscoa é o Domingo seguinte ao XIV dia da Lua que coincide com o dia 21 de Março ou é imediatamente posterior a essa data.

Em resumo, a dificuldade do calendário lunisolar cristão reside em que se deve conjugar três períodos de tempo não relacionados entre si: o ano, a que se ajusta o calendário juliano; a lunação, que seguem os meses lunares; e a semana, porque só ao Domingo se pode celebrar a Páscoa.

O cômputo (ou técnicas para determinar o Domingo de Páscoa) que tinha nascido em Alexandria foi-se impondo pouco a pouco no Ocidente. Neste processo temos que destacar Dionísio o Exíguo, que no ano de 525 adaptou a regra nicena ao calendário juliano e ao calendário alexandrino, como se fazia no Oriente.

Uma importante contribuição para o cômputo é a obra do beneditino inglês Beda o Venerável, que no ano de 725 escreveu De Temporum Ratione, que estava destinada a ser a obra de referência de todos os trabalhos computistas posteriores. Foi escrita com uma finalidade académica e com o propósito de esclarecer a confusão existente em Inglaterra e na Irlanda sobre a celebração pascal.

A obra de Beda foi amplamente usada durante a Idade Média, particularmente a sua terminologia, que, apesar de não a ter descoberto, conseguiu uniformizá-la.

O desenvolvimento definitivo chegou nos principio do século XIII com Alexandre Villadieu, que quis começar o ano em Janeiro e não em Setembro, como Dionísio e seus seguidores. A obra de Villadieu representou o fim e o apogeu do cômputo medieval ao levá-lo ao seu maior desenvolvimento.

Durante a Idade Média, o cômputo não só passou a fazer parte do curriculum dos estudos dos noviços nos mosteiros, mas também foi um elemento indispensável no ensino cristão. Chegou ainda mais longe, dado que os textos dos cômputos foram verdadeiros manuais astronómicos, a partir dos quais se podia aprender o conhecimento limitado que dessa ciência se tinha na Europa Medieval.

Obs: Texto retirado e traduzido (livremente), com a devida autorização do autor, de “Nuestro calendario – Una explicación científica, simple e complete del calendario lunisolar cristiano”, da autoria de Wenceslao Segura González.