Ano litúrgico e calendário litúrgico

 

Tal como existe o ano civil e o ano económico (com início a 1 de Janeiro e término no dia 31 de Dezembro), o ano escolar (com início no dia 1 de Setembro e conclusão no dia 31 de Agosto), o ano lectivo (com início e conclusão de acordo com despacho ministerial, diferente de ano para ano), o ano académico (ensino superior), etc., também, no caso da Igreja Católica, existe o ano litúrgico, com início no primeiro domingo do Advento (cerca de quatro semanas antes do Natal) e que termina com a solenidade de Cristo Rei do Universo.

Assim, “Ano litúrgico é o nome que se dá à organização da liturgia no decorrer do ano. Rigorosamente falando, não há um ano litúrgico, porque não existe uma continuidade na celebração do Mistério de Cristo do princípio ao fim do ano astronómico ou civil. O que há é a celebração do Mistério de Cristo em diversos tempos, distribuídos, mas sem continuidade entre si, ao longo do ano. Mas chamemos-lhe, à organização desses tempos litúrgicos em cada ano, o ano litúrgico. Durante o ano, o fundo litúrgico é constituído pelo que se chama o ciclo temporal, ritmado pela sucessão dos Domingos, que levam consigo os diversos tempos especiais: Tríduo Pascal, Tempo Pascal, Tempo da Quaresma, Tempo do Natal, Tempo do Advento. Ao longo destes tempos, aparecem, mas sem formarem um ciclo autónomo, as celebrações dos Santos, a que, às vezes, se dá o nome de Santoral. Tudo isto consta do Calendário.

O calendário litúrgico foi, no passado, o ponto de referência fundamental para o nosso povo cristão na contagem do tempo, quer se tratasse dos trabalhos agrícolas, quer dos acontecimentos da vida, particular ou pública. (…)

O calendário litúrgico, sobretudo o dos Santos, foi durante séculos o calendário do povo cristão. O calendário guiava-o, indicando-lhe os dias principais da sua vida religiosa e profana, marcava-lhe a data dos trabalhos agrícolas, do pagamento das rendas, e servia-lhe até de ponto de referência para a sua história. Assim, nos trabalhos agrícolas semeavam-se os nabos pelo S. Mateus (21 de Setembro), pagavam-se as rendas pelo S. Miguel (29 de Setembro), abriam-se os tonéis pelo S. Martinho (11 de Novembro), semeavam-se os alhos pela S. Luzia (13 de Dezembro), matava-se o porco pelo Natal. Outro dos casos mais significativos é o dos nomes dados às terras descobertas pelos nossos navegadores, as quais receberam, na maior parte das vezes, o nome do Mistério do Senhor ou do Santo em cujo dia foram descobertas: o Brasil, que foi chamado «Terra da Vera Cruz» (3 de Maio, festa hoje desaparecida), a ilha de Páscoa, da Ascensão, baía de S. Brás (3 de Fevereiro). Caso particularmente típico é o das ilhas de Cabo Verde, cujos nomes primitivos permitem seguir o calendário da sua descoberta: S. Nicolau (6 de Dezembro), S. Luzia (13 de Dez.), S. Antão (17 de Jan.), S. Vicente (22 de Jan.), S. Filipe (nesse tempo, 1 de Maio), S. Tiago (no mesmo dia, se se trata de S. Tiago Menor, ou 25 de Julho, se se trata de S. Tiago Maior), S. Cristóvão (25 de Julho). Alguns destes nomes foram posteriormente substituídos por outros. S. Tomé, celebrado até à reforma do calendário a 21 de Dezembro, deu igualmente o nome à ilha descoberta nesse dia e ainda hoje como tal é celebrado pelos santomenses.”

Fonte: “Os Mistérios de Cristo na Liturgia”, Pe. José Ferreira | Secretariado Nacional de Liturgia