As Páscoas Judaica e Cristã

A Páscoa Judaica

A celebração da Páscoa Judaica nos tempos de Jesus Cristo tinha início na noite do dia 13 para o dia 14 de Nisan, o primeiro mês da Primavera; nesse dia, o pai de família procurava com a ajuda de uma lanterna ou de uma vela restos de pão e outros alimentos que tinham fermentado com levedura. O cordeiro era sacrificado na tarde do dia 14 de Nisan, coincidindo com a Lua Cheia. Cada israelita levava o cordeiro que ele mesmo sacrificava, enquanto o sacerdote recolhia o sangue da vítima e o vertia sobre o altar. Depois, o sacerdote queimava as partes gordurosas do cordeiro; terminado este ritual, cada israelita levava o seu cordeiro para casa onde o assava ao fogo.

De acordo com a informação dada pelos quatro evangelistas, não há dúvida de que Jesus Cristo sofreu a Sua Paixão e Morte na Sexta-feira. Se o dia da semana em que Jesus morreu é conhecido, o mesmo não acontece com o dia do mês, dado que, segundo as interpretações cronológicas dos Evangelhos, haveria que situá-lo nos dias 14 ou 15 de Nisan. Segundo os evangelistas sinópticos (São Mateus, São Marcos e São Lucas), a última Ceia foi um verdadeiro banquete pascal, pelo que deveria ter sido preparado durante Quinta-feira, dia 14 de Nisan, e consumida ao anoitecer desse dia, ou seja, tendo já começado a Sexta-feira, dia 15 de Nisan, dado que os judeus faziam começar o dia ao anoitecer. Jesus Cristo morreu na tarde dessa mesma Sexta-feira.

O problema surge porque, conforme o Evangelho segundo S. João, há outra cronologia para a Paixão e Morte de Cristo. Segundo o quarto evangelista, a Última Ceia não foi verdadeiramente um banquete pascal, já que se celebrou um dia antes da Páscoa [judaica]. Isto diz-nos que, segundo São João, a Última Ceia deve ter sido no dia 13 de Nisan à noite, pois a Páscoa comia-se no dia seguinte, ou seja, no final do dia 14. O que nos leva à conclusão de que a morte de Cristo foi na Sexta-feira, dia 14 de Nisan.

Têm-se feito inúmeras especulações para conciliar estas duas versões aparentemente contraditórias. Uma delas seria supor que a Páscoa daquele ano, ao ser Sexta-feira (14 de Nisan) e véspera de outra festividade como era o Sábado, passou-se para este dia. Assim, os judeus comeram [celebraram] a Páscoa na noite de Sexta-feira, 15 de Nisan, mas Cristo antecipou a ceia pascal e celebrou-a no seu dia tradicional, na noite do dia 14; desta forma se compatibilizam as opiniões dos evangelistas. Também poderia ter ocorrido que nesse ano a Páscoa tivesse acontecido no sábado, pelo que a Última Ceia de Cristo foi na noite do dia 13 de Nisan, e portanto a Sua morte aconteceu no dia 14.

O calendário que os Judeus seguiam no tempo de Jesus Cristo era lunisolar e baseado inteiramente na observação.

O cativeiro na Babilónia, que começou com a tomada de Jerusalém por Nabucodonosor II, no ano 597 a.C., permitiu aos hebreus adoptar o calendário babilónico, em particular copiaram os nomes dos seus meses que são os mesmos na actualidade.

O Sinédrio era o órgão encarregado de proclamar o começo do novo mês, que ocorria quando comprovavam que pelo menos duas testemunhas tinham observado a Lua pouco depois de ter sido Nova, isto é, tinham o primeiro crescente lunar. A razão religiosa que os judeus tinham para manter um calendário lunisolar era que a festa da Páscoa tinha que celebrar-se no começo da Primavera, na sua primeira Lua Cheia, pelo que a determinação da festividade pascal exigia que o calendário pudesse traçar o trajecto da Lua e também do Sol.