Bóia de salvação (Bolo-rei) | Gastronomia

«A revolução que em 5 de Outubro proclamou a República abriu uma crise profunda
na existência do já tradicional bolo-rei»
«Diário de Notícias» de 7/01/1911

Nas festas consagradas a Saturno era de uso tirar-se à sorte – por meio de favas – o «rei» dos folguedos. O verdadeiro rei era destronado à sobremesa.

A filiação é suspeita e silenciosa, pois que remota às saturnais romanas. O historiador latino Tácito, no livro XIII dos Anais, revela que nas festas consagradas o Saturno era de uso tirar-se à sorte – por meio de favas – o rei «rei» dos folgueados, realeza essa tão poderosa quanto efémera: enquanto durasse o festim o rei tinha todos os poderes, mas era destronado à sobremesa. O que acontecia durante o «reinado» fica com a imaginação de cada qual. Na época cristã, atenuada (convenhamos) a feição orgiástica, foi este jogo transferido para o dia de Natal, e mais tarde para a Epifania. É assim que nos aparece na idade média uma «Festa dos Reis» que se celebrava em certas igrejas, com representação de um «mistério» característico: um cónego era designado «rei», subia a um trono, com a palma por ceptro, e era ele quem oficiava nas cerimónias epifanias. O povo da idade Média era dado a copiar o que via nas igrejas e a adaptá-lo a seu gosto. E, como tal, a celebração vai readquirir o cunho popular: surge o costume de a designação do «rei», em refeições familiares da festividade, ser conferida pela fava introduzida na massa do bolo àquele que a encontrasse na sua fatia. Feito o que, se davam largas à bebida e à bailação.

Sobre a composição do bolo é que o caso fia mais fino. Quer o «gâteau dês róis» dos franceses, quer o «panettone» dos italianos, quer o «roscón de reyes» dos espanhóis, não têm nada a ver com o que conhecemos por bolo-rei. Se a origem foi comum, as adaptações locais diversificarem completamente o produto. Mas no nosso caso nem deve ter havido nenhuma adaptação. Da velha doçaria portuguesa conventual não consta qualquer parente do bolo-rei. Depois de 1834 arribaram a Lisboa conserveiros franceses e italianos, e também não é por sua mão que o bolo se realiza. Como foi então? O informe salvador vem do olisipógrafo Luiz Pastor de Macedo (1901-1971). Segundo ele, a primeira casa onde o bolo-rei se vendeu em Lisboa foi a «Confeitaria Nacional», que ainda hoje existe e prospera na esquina da Praça da Figueira com a Rua dos Correeiros. Fundada em 1829 por Baltasar Rodrigues Castanheiro, assumiu desusado esplendor na época quando, quarenta anos depois, dela toma conta seu filho, homem viajado e de apurado gosto. Ora, foi precisamente este, Baltasar Castanheiro Júnior, que, juntamente com o mestre-confeiteiro Gregório, trouxe de Paris a receita do bolo-rei.

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A crise profunda provocada pela República na existência do bolo-rei, noticiada pelo jornal citado, não se verificou. Para alguma coisa havia de servir a sua forma de bóia de salvação. Todavia, a qualidade deixa muitas vezes a desejar. Não tanto pelas nozes, pinhões, sultanas e frutas cristalizadas que, com maior ou menor abundância, lá vão aparecendo, mas sobretudo pela massa, a macia massa levedada de farinha, manteiga e ovos, que parece agora as mais das vezes reduzida a argamassa enfartante e infausta. A fava, que já não coroa realezas, determina quem fica obrigado a pagar o próximo bolo-rei, e assim fica assegurada a cadeia do consumo.

Guia da Semana – EXPRESSO – Edição Norte | Imagem de destaque