O Calendário na Península Ibérica

Na Península Ibérica vigorou, desde o século V, a chamada “era de Espanha” ou Hispânica, Gótica, de Augusto ou de César, usada nos mais antigos documentos dos arquivos portugueses, sob as formas sub era ou in era. Começava no dia 1 de Janeiro do ano 38 A.C., ano 716 da fundação de Roma, e comemorava a conquista definitiva da península pelos romanos e a introdução nela do calendário Juliano.

Procede 38 anos ao ano de nascimento de Cristo. O primeiro da era cristã coincide com o ano 39 da era de Espanha. Para converter, pois, a era de Espanha ou de César à era Cristã é preciso tirar daquela 38 anos.

Em Portugal, o decreto Régio de D. João I, em 22 de Agosto do ano da Era Juliana de 1460, ordenou que daí em diante se passasse a usar o ano do nascimento de Cristo como ano do começo ou referência, substituindo assim a era de César. Assim, o dia a seguir ao decreto régio, deixaria de ser o 16 de Agosto de 1460 da Era Juliana para ser o 16 de Agosto de 1422 da Era de Cristo.

Esta mudança já tinha sido efectuada em Aragão em 1350, Leão e Castela em 1383.

O início da Era Cristã, usada pela maioria dos povos europeus ou que foram por estes colonizados, foi fixada em 25 de Dezembro do ano do Nascimento de Cristo, ou seja o ano 753 da fundação de Roma. Em alguns documentos portugueses encontra-se também a era – anno a Passione – cujo ponto de partida é posterior 33 anos à era cristã

Até ao século XIV, o ano novo começava em 25 de Março, dia em que se celebra a Anunciação à Virgem Maria e a Incarnação. Era ou estilo da Incarnação ou Anunciação. Foi também adoptada na Idade Média, algumas vezes, a era ou estilo da Páscoa, variável pela mobilidade desta festa. A Era ou estilo da circuncisão começava no dia 1 de Janeiro.

No entanto, nos séculos XIV, XV e XVI usaram-se, indiferentemente, as datas de 25 de Dezembro ou de 1 de Janeiro para começo do ano, embora esta última tivesse predominado.

Contudo, o hábito de utilizar a era Juliana ou Hispânica persistiu durante décadas e ainda Zurara a menciona na Crónica da Tomada de Ceuta, dando-lhe a data de 1453 (1415 DC).

Deve-se, portanto, ter cuidado na atribuição do ano aos documentos ou datas gravadas dos séculos XV e XVI, datados entre 25 e 31 de Janeiro, que o indicam muitas vezes acrescido de uma unidade em relação ao estilo actual .

Só com a Reforma Gregoriana (15 de Outubro de 1582) se estabeleceu o 1 de Janeiro para começo do ano.

Em alguns documentos dos arquivos portugueses foi também usada a Hégira ou ano arábico, que começa no ano 622 do ano de Cristo, data da fuga de Maomé de Meca para Medina.