Calendários, uma breve introdução ao conceito

Um calendário é uma teoria astronómica simplificada que nos permite fazer uma medição cronológica do tempo, isto é, colocar numa escala temporal os acontecimentos passados e futuros. Uma escala de tempo precisa de uma unidade e de uma origem. A unidade básica dos calendários é o dia solar médio, expressa por múltiplos e submúltiplos. A origem é um acontecimento escolhido arbitrariamente, normalmente proléptico, o que significa que é anterior à data definida como a origem. Este é o caso da era Cristã – também chamada vulgar ou da encarnação – que foi introduzido cinco séculos após o seu início.

Podemos distinguir três tipos de calendários. Eles são o computacional, que são os que se baseiam em regras e que nos traçam, em média, os movimentos do sol, da lua, ou de ambos os astros, à vez; um exemplo de calendário computacional é o calendário gregoriano. Outro tipo de calendários são os astronómicos, que exigem a teoria astronómica para fixar qualquer acontecimento, a partir do qual se constrói o calendário; a esta categoria pertence o calendário chinês. Finalmente, existem calendários observacionais, que precisam de observação física de algum fenómeno astronómico, facto que serve de partida para preparar o calendário; o exemplo mais típico é representado pelo calendário muçulmano.

Pode-se admitir outra classificação dos calendários, dependendo dos astros que utilizam como referência. Assim, temos os calendários solares, caracterizados pelo facto das estações ocorrerem aproximadamente nas mesmas datas do calendário. Temos, também, os calendários lunares, que exigem que o início do mês corresponda à Lua nova.

O terceiro grupo são os calendários lunisolares, uma mistura dos dois anteriores, no sentido em que os seus meses são lunares, mas limitam a mobilidade das estações, evitando que vagueiem pelo calendário, como acontece num calendário exclusivamente lunar. Finalmente, devemos registar os calendários que estão desligados dos movimentos do Sol e da Lua, embora ligados, como todos os outros, ao movimento de rotação da Terra, ou seja, ao dia. Exemplos destes últimos são os calendários do cálculo do dia Juliano e o calendário egípcio.

Três são os principais múltiplos calendaristas do dia: a semana, o mês e o ano. Hoje pensa-se que a semana teve uma origem lunar. Na verdade, a quarta parte de uma lunação ultrapassa em apenas algumas horas os sete dias. Esta semana lunar ou quasi-semana estava ligada às fases lunares. Judeus devem ter herdado este ciclo quasi-semanal durante o seu exílio na Babilônia, no século VII. C. Daqui deve ter surgido a semana hebdomadária, com uma duração fixa de sete dias e desligada de qualquer fenómeno natural. Desde então, a semana segue um curso independente de qualquer calendário, convertida num cálculo cronológico complementar. A semana tornou-se num dos pilares da religião judaica e, séculos mais tarde, passaria para o Cristianismo, o Islamismo e o Hinduísmo, até ficar transformada num ciclo de uso universal.

Na Alexandria helenizada do século II a.C. teve origem outro tipo de semana, chamada planetária ou astrológica. Na astronomia grega, a ordem dos planetas de acordo com sua distância dà Terra, era da maior para a menor: Saturno, Júpiter, Marte, o Sol, Vénus, Mercúrio e a Lua. A aparição da semana planetária foi o resultado da junção da divisão do dia em 24 horas e da teoria da cronocratoria. De acordo com esta teoria, a cada hora se atribuía um planeta, na ordem da sua suposta distância à Terra. O planeta regente do dia era o que correspondia à primeira hora desse dia. Começava-se com Saturno, talvez por ser o planeta mais distante, de modo que o regente do primeiro dia era Saturno. A seguinte hora do dia é a de Júpiter, seguia-se-lhe a de Marte e assim por diante. Percorridas as primeiras 24 horas, encontra-se o regente do dia seguinte, que, como facilmente se pode comprovar, é o Sol. Se continuamos o processo de dar o nome de um planeta a cada uma das 24 horas deste novo dia, chegaremos à primeira hora do terceiro dia e veremos que o regente é a Lua. O dia seguinte terá por regente Marte, depois Mercúrio, ao que se segue Júpiter, para terminar com Vénus. A partir daqui, volta-se a repetir o mesmo ciclo.

Pois bem, a semana planetária é composta pelos consecutivos regentes dos sete dias, começando com o dia de Saturno.

A semana – do latim septimania – chegou por um duplo caminho a Roma. A semana planetária chegou ao coração do império no primeiro século a.C. e séculos depois os cristãos introduziram a semana judaica. A semana que herdamos é a fusão de ambas: conservou-se a relação astrológica com os planetas, mas foi destacado o Domingo, assumido como uma festividade cristã. Na língua espanhola ainda se continuam a usar os antigos nomes planetárias dos dias da semana, tal como em muitos outros idiomas. Então, lunes é o dia da Lua, martes o de Marte, miércoles o de Mercúrio, jueves o de Júpiter e viernes o de Vénus. O dia seguinte tem a sua origem no nome hebreu de sabat, e domingo vem do latim dominica ou o Dia do Senhor. Tal como na semana judaica, na semana cristianizada foi escolhido um dia especial: o Domingo, que substitui o sábado judaico.

O mês é um conjunto de dias que está relacionado com o ciclo lunar ou período sinódico Lua sinódico. Mas é preciso distinguir outro tipo de meses; são os solares, que se definem como o tempo que o sol leva o sol a percorrer 30 graus da eclíptica; este é o tipo de mês utilizado no calendário persa, cujas durações podem ser de 30 ou 31 dias, em comparação com os 29 ou 30 dias que tem um mês lunar. Finalmente, há os meses que não estão relacionados com qualquer fenómeno astronómico, como é o caso do calendário gregoriano, cujos meses originalmente eram lunares, mas que se tornaram em simples grupos de dias livres de qualquer relação com os movimentos do Sol e da Lua.