Dia das mentiras ou dia dos enganos

 

O Dia das Mentiras (também conhecido como Dia dos Bobos) terá tido origem, em França, por ocasião da mudança do início do ano, que até então se verificava no dia 25 de Março (considerado como o início da Primavera), para o dia 1 de Janeiro.

De acordo com a história do calendário (ou, melhor, dos calendários), o papa Gregório XIII, em 1562, instituiu um novo calendário para todo o mundo cristão (que se passou a designar como calendário gregoriano) em que o início de cada novo ano era celebrado no dia 1 de Janeiro, deixando, assim, de ser celebrado no início da Primavera (celebração pagã), que acontecia no dia 25 de Março. Até aí, a celebração da entrada no novo ano era feita através de animadas festas que incluíam bailes e troca de presentes, o que acontecia até ao dia 1 de Abril.

O rei francês, Carlos IX, só seguiu o decreto papal dois anos depois, em 1564, tendo decretado que a partir daí o ano começaria no dia 1 de Janeiro. No entanto, uma tradição várias vezes milenar não se apaga por decreto, quer fosse assinado pelo papa ou pelo rei, e os franceses, embora mudando para 1 de Janeiro a habitual troca de presentes, para celebrar a passagem do ano oficial, mantiveram em paralelo o costume das ofertas de 1 de Abril, as quais, pouco a pouco, se revestiram de um ar de brincadeira.

Mas há quem defenda que alguns franceses não aceitaram de bom grado a mudança, e mantiveram a comemoração da passagem de ano na data antiga. Alguns brincalhões começaram a ridicularizar essa atitude conservadora, enviando aos adeptos do calendário anterior (apelidados de “bobos de abril”) presentes estranhos e convites para acontecimentos inexistentes.

Com o passar do tempo, estas brincadeiras foram-se espalhando por todo o país. Depois de ter passado para a Inglaterra, facilmente se espalhou pela maior parte dos países do mundo.

Em França o Dia das Mentiras é conhecido como “poisson d’avril”, e em Itália como “pesce d’aprile”, ambos significando “peixe de abril”. Em países de língua inglesa o Dia das Mentiras costuma ser conhecido como April Fools’ Day, “Dia dos Tolos (de Abril)“. Na Galiza (Espanha) o dia é conhecido Dia dos Enganos. No Brasil, o primeiro a adoptar este tipo de brincadeira foi o periódico “A Mentira”: no dia 1 de Abril de 1848 publicou a notícia do falecimento de D. Pedro II (o que não era verdade!), só a desmentindo no dia seguinte.

Em Portugal, no Dia das Mentiras, também conhecido com Dia dos Enganos (particularmente no Norte, talvez por influência da Galiza, ou vice-versa), os diversos meios de comunicação social disputam sempre a “peta” (mentira) mais conseguida.

Carta do Outro Mundo

Carta que se costumava mandar no dia 1 de Abril (conhecido também como 1º de Abril) às raparigas, na freguesia de Veiros:

“Salvé o dia em que te escrevo
Valha-me Nosso Senhor
Nesta data tão lembrada
Escrevo-te meu amor
Eu escrevo-te esta carta
Com sentimento profundo
Venho dar-te a notícia
Que cheguei ao outro Mundo.
Quando eu aqui cheguei
Muita gente cá estava
Só para ver como eu era
Até S. Pedro me esperava
………………………………………………….
É uma vida regalada
Esta vida de ser morto
Não preciso de trabalhar
Nem sequer matar o corpo

………………………………………………..” 1

A propósito do 1º de Abril

Presentemente, tornam-se cada vez mais raras as mentiras do 1º de Abril que tanto divertiam os nossos antepassados. Na verdade, passaram de moda, antes que fosse possível estabelecer, com exactidão, a sua origem. A hipótese mais plausível é que seja a evocação deformada das prendas distribuídas nesse dia, quando o ano começava a 1 de Abril. Remontariam, assim, ao ano 1564, já que – pensa-se – foi nesse ano que o início do mesmo foi adiantado três meses!

Nesses tempos longínquos, as mais elevadas personalidades não desdenhavam mistificar os mais íntimos. A Pequena História conserva, particularmente, a recordação de Pedro, o Cruel, rei de Aragão, que mandava instalar nos seus jardins um sistema de canalização clandestina e inúmeros crivos de regador para regar os visitantes de ambos os sexos.

Clássica, também, a farsa de que foi vítima no início do século XVII, o cândido conde de Grammont. Num dia de Março, os amigos subornaram-lhe o criado de quarto e descoseram, apertaram e tornaram a coser os seus fatos e roupa interior. No dia seguinte, todos rodearam Grammont, sufocando, quase estrangulado e compadeceram-se dele:

 – Que te aconteceu? – perguntaram pressurosos. Como estás inchado! Foi certamente alguma mosca que te picou ou, então, alguma aranha venenosa!…

Desvairado, o ingénuo chama o médico – também cúmplice – que submete Grammont a toda a espécie de terríveis tratamentos, até que, no fim do dia, chega um mensageiro que traz ao doente este bilhete: «Pega na tesoura e descose o gibão”»2

1 João Carlos Gonçalves de S. Couto, In «Recolha de Literatura Oral Popular da freguesia de Veiros» | 2 Almanaque Popular 2006