Dia Mundial das Bibliotecas – 1 de Julho

A bibliotecária de Bassorá

Uma história verdadeira do Iraque

 

No Corão, a primeira coisa que Deus diz a Maomé é “lê”.

Alia Muhammad Baker

Alia Muhammad Baker é a bibliotecária de Bassorá, uma cidade portuária desse país arenoso que é o Iraque.

A sua biblioteca é um lugar de encontro para todos aqueles que amam os livros. Lá, discutem-se assuntos relacionados com o mundo e assuntos relacionados com o espírito.

Até agora. Agora, discutem apenas sobre a guerra.

– Os aviões armados irão ocupar o céu?

– Cairão bombas aqui?

– Os soldados armados encheram as ruas?

– As nossas famílias sobreviverão?

– O que podemos fazer?

Alia receia que os fogos da guerra possam destruir os livros, que são para ela mais preciosos do que montanhas de ouro. Há livros em todas as línguas – livros novos, livros antigos. Há até uma biografia de Maomé que tem setecentos anos. Alia pediu permissão ao governador para transferir os livros para um lugar seguro.

Mas o governador recusou.

Alia decidiu assim tratar ela própria do assunto.

Secretamente, todas as noites, leva para casa alguns livros, carregando-os no seu carro.

Os murmúrios da guerra fazem-se ouvir cada vez mais.

Alguns funcionários do governo passam a vigiar a biblioteca. Há soldados armados no terraço.

Alia aguarda – e receia o pior.

Depois… os rumores tornam-se verdade.

A Guerra chega a Bassorá.

A cidade é iluminada por bombardeios e tiroteios.

Alia observa os funcionários da biblioteca, os funcionários estatais e os soldados a abandonarem a biblioteca.

Apenas fica Alia para proteger os livros.

Através da parede da biblioteca, Alia chama o seu amigo Anis Muhammad, que tem um restaurante do outro lado.

– Podes ajudar-me a salvar os livros?

– Posso usar estas cortinas para os embrulhar.

– Aqui tens alguns caixotes da minha loja.

– Podes usar estes sacos?

– Os livros têm de ser salvos.

Durante toda a noite, Alia, Anis, os seus irmãos, e os funcionários da loja e os vizinhos retiraram os livros das prateleiras, passaram-nos através da parede de 7m e esconderam-nos no restaurante de Anis.

Enquanto a guerra continua, os livros estão bem escondidos.

Mais tarde, nove dias depois, um incêndio destrói a biblioteca.

No dia seguinte, alguns soldados visitam o restaurante de Anis.

– Porque tem uma arma? – perguntam eles.

– Para proteger o meu negócio – respondeu Anis.

Os soldados partiram sem revistar o interior.

“Não sabem que a biblioteca está no meu restaurante”, pensou Anis.

Por fim, o monstro da guerra segue o seu caminho.

Alia sabe que, para que os livros fiquem a salvo, terão de ser transferidos para outro sítio, outra vez, enquanto a cidade está calma. Por isso aluga um camião para transportar os trinta mil livros para sua casa e para as casas de amigos.