Gentes da nossa terra: gentílicos e alcunhas coletivas

 

Os nomes gentílicos indicam «procedência» ou «naturalidade». Há variadíssimas maneiras de os constituir, ou seja, não se pode estabelecer uma regra única e rígida, porque o uso e a tradição impõem os seus direitos, forçando até o emprego de vocábulos sem nenhuma analogia mórfica com a denominação das terras ou lugares.

Recorre-se à utilização de uma grande diversidade de sufixos e terminações e, muitas vezes, aos nomes latinos ou latinizados das respectivas localidades.

Uma alcunha é uma designação ou “nome” não-oficial, criado através de um relacionamento interpessoal, quase sempre informal, para identificar uma determinada pessoa, de acordo com uma característica que se destaca positiva ou negativamente. As alcunhas coletivas já dizem respeito a naturais ou residentes de uma localidade ou região.

 

Gentílicos – saiba porque…

… os naturais/habitantes de Chaves são Flavienses

No cruzamento do rio Tâmega com a via XVII, que ligava Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga), desenvolveu-se um núcleo urbano que no reinado de Vespasiano foi elevado à categoria de município.

A sua localização estratégica, a fertilidade da sua veiga, a riqueza aurífera e outros recursos, em especial, as águas termais, propiciaram esta promoção. Da fama das suas águas e da iniciativa de Vespassiano, primeiro imperador da dinastia flávia, houve nome Aquae Flaviae.

Na intersecção do cardo com o decumanus, na zona actualmente ocupada pela igreja Matriz, localizava-se o forum, a praça pública da cidade. Daqui procedem os principais vestígios arquitectónicos, epigráficos e arqueológicos que denunciam a monumentalidade do centro cívico. Fonte

 

… os naturais/habitantes de Braga são Bracarenses

Bracara Augusta, o nome romano da actual cidade de Braga, no norte de Portugal, foi construída no lugar de um povoado indígena anterior. A cidade romana foi fundada pelo imperador César Augusto cerca de 16 aC, após a pacificação definitiva da região.

Durante o período dos Flávios, Bracara Augusta recebeu o estatuto municipal e foi elevada a sede do conventus, tendo tido funções administrativas sobre uma extensa região. A partir da reforma de Diocleciano passou a ser a capital da recente província da Galécia. No século V a cidade foi tomada pelos invasores suevos, que a escolheram como capital do seu reino. São conhecidos da cidade romana restos de alguns edifícios.

Nas escavações efectuadas no claustro do Seminário de Santiago encontrou-se uma grande sala com resto de colunas, tendo ao centro uma piscina decorada com mosaicos, que foi provavelmente parte de um balneário. Em escavações realizadas pela Universidade do Minho foram descobertas umas quantas termas.

Na área da Fonte do Ídolo, situada na actual Rua do Raio e fora do antigo perímetro da cidade romana, terá existido um edifício religioso consagrado ao deus Tongoenabiagus. Fonte

… os naturais/habitantes de Lisboa são Olisiponenses

Segundo o “Tratado de Ortografia” de Rebelo Gonçalves; os dicionários Morais, Aurélio, Etimológico (de José Pedro Machado) e “Lello Universal”; e, entre vários prontuários, o de D’Silvas Filho, assim como o de Magnus Bergstrom e Neves Reis, em assuntos respeitantes à capital portuguesa, quando se não quiser utilizar lisbonense, pode-se empregar olisiponense (latim “olisiponense-“), de Olísipo, Olisipo ou Olisippo – cidade da Lusitânia –, hoje Lisboa.

Alexandre Herculano usa olisiponense na “História de Portugal”.

No prontuário de Magnus Bergstrom e Neves Reis (Editorial Notícias), além de se rejeitar o emprego dos dois ss neste vocábulo, considera-se errada a forma “ulissiponense”, admitida pelo dicionário da Porto Editora (7.ª ed.) com o étimo latino “Ulyssipona-“. Esta obra também inclui o termo que se considera mais aconselhável (olisiponense), não preferindo, contudo, um ao outro.

O problema não parece residir na boa formação da palavra a partir do étimo “Ulyssipona-“, mas na credibilidade deste.

Recordo que, segundo a lenda, Ulisses, ao passar pelo litoral atlântico da Península Ibérica, teria fundado a cidade depois chamada “Olisipo”. Mas os latinos, antes desta forma, podê-la-iam ter designado por “Ulyssipona”. Quando se trata de lendas, todavia…

Lembro também que Ulisses, em grego, era “Odysseus”: daí, a belíssima “Odisseia” do poeta antigo Homero. E, em latim, “Ulysses”: daí, os poemas “Ulisseia ou Lisboa Edificada”, de Gabriel Pereira de Castro (1636), e “Ulissipo”, de António de Sousa de Macedo (1640).

O termo olisiponense emprega-se geralmente na escrita, tal como lisbonense. Para designar os habitantes de Lisboa, o mais comum é lisboeta, também estando dicionarizados lisboês e lisbonês (ambos em desuso). A alcunha alfacinha é menos empregada hoje do que no passado. Fonte

… os naturais/habitantes da Guarda são Egitanienses

Os naturais da Guarda são egitanienses, egitanenses ou egitanos, porque todas estas palavras derivam do antigo topónimo “Egitânia”. Fonte

… os naturais/habitantes de Castelo Branco são os Albicastrenses

O gentílico que designa os naturais ou os habitantes de Castelo Branco é albicastrense, formado pelos elementos latinos ‘albi-‘, «branco», e ‘castrense’, de ‘castrum’, «castelo». (cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa). Fonte

 

Alcunhas coletivas – saiba porque…

 … aos naturais/habitantes de Lisboa chamam “alfacinhas”

«Alfacinhas – A origem da designação perde-se: há quem explique que nas colinas de Lisboa primitiva verdejavam já as “plantas hortenses utilizadas na culinária, na perfumaria e na medicina” que dão pelo nome de alfaces. ‘Alface’ vem do árabe, o que poderá indicar que o cultivo da planta começou aquando da ocupação da Península pelos fiéis de Alá. Há também quem sustente que, num dos cercos de que a cidade foi alvo, os habitantes da capital portuguesa tinham como alimento quase exclusivo as alfaces das suas hortas.

O certo é que a palavra ficou consagrada e, de Almeida Garrett a Aquilino Ribeiro, de Alberto Pimentel a Miguel Torga, os grandes da literatura portuguesa habituaram-se a tomar ‘alfacinha’ por lisboeta.» Fonte

Sugerimos leitura de “Os Alfacinhas e os Retiros das Hortas“.

… aos naturais/habitantes do Porto chamam “tripeiros”

No ano de 1415, construíam-se nas margens do Douro as naus e os barcos destinados à conquista de Ceuta. A razão deste empreendimento era secreta e nos estaleiros os boatos eram variados.

Um dia, o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais.

Então, o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras razões do empreendimento. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios. Mestre Vaz assegurou ao Infante que iriam fazer o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela. Dariam toda a carne da cidade para abastecer os barcos e comeriam apenas as tripas.

Comovido, o infante D. Henrique disse-lhe que esse nome de “tripeiros” – alcunha que lhes tinha sido dada há trinta anos – era uma verdadeira honra para o povo do Porto. Fonte: Lenda dos Tripeiros. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008 

O prato tradicional da cidade ainda é, hoje em dia, as “tripas à moda do Porto“.

… os habitantes de Vila Flor são “Merendeiros”, os de Carrazeda de Ansiães são “Zíngaros” e os de Torre de Moncorvo são “Paliteiros”

Da alcunha de “Merendeiros de Vila Flor” diz-se que, noutros tempos, os habitantes de Vila Flor teriam o hábito de ir às feiras sem merenda, o que os levava depois a “fazerem-se” à merenda dos outros. Daí terem ficado os “merendeiros” por saltarem de merenda em merenda.

Da alcunha de “Zíngaros da Carrazeda” diz-se ter origem nos gigantones (ou Zés Pereiras) abundante em Carrazeda de Ansiães e que mais tarde formaram uma associação, a que também chamavam Zíngaros. Essa associação tem precisamente este nome. Zíngaro também significa cigano, nome pelo qual também eram tratados pelos habitantes de Vila Flor. É de realçar a grande rivalidade entre Vila Flor e Carrazeda de Ansiães.

Da alcunha de “Paliteiros de Moncorvo” diz-se que era o nome que lhes chamavam os Fozcoênses por, justificavam, andarem sempre de palito na boca1. Esta alcunha terá, talvez, surgido em resposta ao Moncorvenses por estes lhes chamarem “Judeus”, alcunha pela qual os fozcoênses são conhecidos mas cuja origem desconheço.

Deve também aqui salientar-se a grande rivalidade entre as populações de Torre de Moncorvo e Vila Nova de Foz Côa.

Fonte: As informações aqui disponíveis sobre as alcunhas “Merendeiros” – Vila Flor, “Zíngaros” – Carrazeda de Ansiães e “Paliteiros” de Torre de Moncorvo foram-nos enviadas pelo Sr. Ricardo Periquito, a quem muito agradecemos, e que nos escreveu o seguinte: “A informação de que disponho sobre a origem das alcunhas é apenas informação adquirida pela via oral. Desconheço qualquer fonte que fale sobre o assunto.”

1 Talvez para transmitirem a ideia de que tinham comido carne, logo que eram “ricos” (?!)