O que o meu primeiro beijo me ensinou

 

Não há problema algum em deixar-se ir, desde que consigamos regressar.
Mick Jagger

 

A noite do meu primeiro beijo foi também a noite da pior discussão que alguma vez tive com a minha mãe.

Há já algum tempo que gostava do meu colega Jon quando o vi numa festa a que a minha amiga Lara e eu decidimos ir. De repente, dei por mim a falar horas a fio com ele. Fomos os últimos a sair da festa. Caminhámos de mãos dadas pela rua acima e, quando nos beijámos, senti que estava a viver um sonho.

Como o local da festa distava apenas alguns quarteirões da minha escola, eu conhecia aquelas ruas tão bem quanto as da minha vizinhança. Contudo, enquanto caminhávamos de mãos dadas e íamos trocando alguns beijos, sentia que era como se visse tudo pela primeira vez.

Como se visse o Jon pela primeira vez.

Perdi a noção do tempo e, quando o Jon me deixou à porta de casa, já a noite dera lugar à madrugada.

Mal enfiei a chave na fechadura, a minha mãe abriu a porta de rompante e perguntou de forma agreste:

Onde está ele?

Tal e qual. Fiquei parada no degrau da entrada, a sentir o frio da manhã de primavera e desejando correr a pequena distância entre nós as duas e a segurança do meu quarto.

Fiz-me de desentendida:

Ele quem, mãe?

Mas a minha mãe não se deixou demover e continuou a bloquear a passagem. Com as mãos na anca e a face contraída de raiva, explodiu:

Não posso confiar em ti! És uma irresponsável!

Ao fim do dia, a Lara contou-me que a minha mãe tinha telefonado a meio da noite para casa dela. A minha amiga não tinha ideia alguma sobre o meu paradeiro depois da festa, mas tentou acalmar a minha mãe dizendo que eu tinha apenas ido dar um passeio com um colega.

É óbvio que esta informação ainda enfureceu mais a minha mãe e que, quando cheguei a casa, a mistura de cenários indesejáveis, fadiga e alívio por me ver sã e salva provocou uma explosão de cólera.

Fiquei tão chocada com a reação dela que me pus aos gritos também. Depois de bater com a porta do meu quarto, atirei-me para cima da cama e chorei desalmadamente por causa da enorme injustiça que era a minha vida.

Mal comi ao pequeno-almoço na manhã seguinte.

A minha mãe não gritou quando me disse que estava proibida de ir a um baile com que há meses sonhava. Levantei-me da mesa e fui telefonar à Lara para me vir buscar às sete da tarde na sexta-feira seguinte. Pouco me importava o que a minha mãe dissera.

Iria ao baile, quer ela me proibisse ou não.

O Jon não foi ao baile, mas havia lá rapazes bem giros, que falaram comigo e elogiaram a minha indumentária. Contudo, não senti o prazer que ambicionara. Sentia-me culpada pela forma como falara com a minha mãe.

Depois da grande discussão, a minha mãe quase não falava comigo. Penso que não sabia bem o que fazer, pois um dia pôs-me ao telefone com o meu pai, que vivia em Los Angeles na altura. O meu pai perguntou-me:

Por que motivo não falaste com a tua mãe sobre o assunto? Porque não lhe perguntaste de novo se podias ir ao baile? Porque não lhe pediste desculpa por chegar tarde? Porque não a avisaste que chegarias mais tarde e que estavas com o Jon?

Ou seja, por que razão não pensara eu que as minhas ações poderiam afetar outras pessoas? Gostaria de poder dizer que tive uma longa conversa com a minha mãe depois deste telefonema, mas não tive.

Na próxima vez que vi o Jon fora da escola foi numa festa e ele estava a entrar num quarto com uma rapariga. Desatei a chorar no meio da sala de uma casa cujos donos eu desconhecia.

Quando, algum tempo depois, emergiu do quarto trancado, confrontei-o com a sua atitude. Disse-me que lamentava, que tinha problemas em comprometer-se, e tive de ouvir a litania dos crimes contra a sua pessoa: o divórcio dos pais, a morte do cão, as dificuldades em Química, a vida à sombra do irmão mais velho. Desculpas que usava para justificar o facto de me ter magoado.

Na realidade, não se desculpou. A relação com ele não acabou, obviamente, de forma perfeita, mas, pelo menos, tentei dialogar com ele. O que me incomodava era o facto de não ter dado a mesma oportunidade à minha mãe. Devia-lhe, devia-nos, isso.

Contudo, os diálogos são sempre um risco. Os diálogos a sério mudam as pessoas que os têm. E mudam-nas porque implicam trocar ideias, ouvir as opiniões do outro, alterar posições.

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A minha mãe e eu tínhamos medo de ter uma conversa honesta porque ela teria de admitir que a filha já não era uma criança e que já tinha idade para beijar um rapaz. E eu teria de admitir que errara ao não lhe telefonar, que chegara muito mais tarde do que alguma vez o fizera, e que, embora gostasse de poder beijar um rapaz, continuava a precisar da minha mãe.

Por vezes, o filme destes acontecimentos passados volta a passar na minha cabeça. Nesse filme, as minhas deixas são claras: ao pequeno-almoço, em vez de ficar calada, digo à minha mãe o quanto lamento tê-la preocupado e por que razões gosto do Jon; na festa, digo calmamente ao Jon que os seus problemas, embora lamentáveis, não justificam a forma como me tratou.

Neste novo filme, ouço a versão da minha mãe e tento ver a situação do ponto de vista dela. Não que concorde com tudo o que ela diz. Quando diz que não posso ir ao baile, insisto.

Reavalio a situação à luz do meu entendimento sobre os condicionantes familiares dela e volto a pedir. Quando me diz que quase não ajudo em casa, empenho-me nas tarefas caseiras e, depois, volto a pedir. Tiro boas notas em testes difíceis e tento mostrar-lhe que me estou a esforçar por ser mais responsável.

O que eu queria, em última análise, não era o Jon, que se revelou um bom palerma, mas uma vida onde a presença dele fosse possível, onde a minha mãe não ficasse descontrolada por eu não chegar à hora exata do recolher obrigatório.

E o que a minha mãe queria, em última análise, era uma filha em quem pudesse confiar e não uma filha que lhe obedecesse cegamente e que lhe causasse noites mal dormidas.

Se a minha mãe e eu tivéssemos dialogado e acordado um determinado número de regras, teríamos conseguido obter algo que, no fundo, ambas desejávamos.

Jennifer Braunschweiger

Fonte | Imagem de aliceabc0 por Pixabay