Em Novembro: dos Santos aos Fiéis Defuntos

 

No dia de Todos os Santos, a Igreja Católica celebra a santidade dos cristãos que se encontram no Céu, para mostrar a todos os fiéis a vocação universal de todos para a felicidade eterna, pois “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Todos são chamados à santidade: ‘Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito’ “(Mt 5,48) (CIC 2013).

Já a comemoração dos Fiéis Defuntos (ou Dia de Finados) não deve ser um dia de tristezas e lamúrias, mas sim uma ocasião para transformar as nossas saudades em forças de intercessão pelos fiéis defuntos, particularmente pelos que foram da nossa família ou nossos amigos.

Neste dia, a Igreja lembra o conselho de São Paulo para as primeiras comunidades cristãs: “Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais como os outros que não tem esperança” ( 1 Tes 4, 13).

«A proximidade destes dois dias do princípio de Novembro, respectivamente o dia 1 e 2 deste mês, levou a que frequentemente se imagine que se trata de uma única celebração em dois dias consecutivos. No entanto, não é assim, embora cada um destes dois dias tenha muito de comum, que é a celebração do mistério da vida para além da morte e a esperança de nela tomarmos parte, como membros do mesmo e único Corpo de Cristo que por nós morreu e para nós ressuscitou. Os Santos sempre foram celebrados desde o princípio do Cristianismo, particularmente os Mártires.

As Igrejas do Oriente foram as primeiras (século IV) a promover uma celebração conjunta de todos os Santos quer no contexto feliz do tempo pascal quer na semana imediatamente a seguir. Os santos – com destaque para os mártires – são, de facto, modelo sublime de participação no mistério pascal. No Ocidente, foi o Papa Bonifácio IV a introduzir uma celebração semelhante em 13 de Maio de 610, quando dedicou à santíssima Virgem e a todos os mártires o Panteão de Roma, dedicação essa que passou a ser comemorada todos os anos. A partir destes antecedentes, as diversas Igrejas começaram a celebrar em datas diferentes celebrações com idêntico conteúdo. Os irlandeses, por exemplo, celebravam em 20 de Abril uma festa em honra de todos os Santos da Europa. A data de 1 de Novembro foi adoptada primeiro na Inglaterra do século VIII acabando por se generalizar progressivamente no império de Carlos Magno (influência de Alcuíno, que era inglês), tornando-se obrigatória no reino dos Francos no tempo de Luís, o Pio (835), talvez a pedido do Papa Gregório IV.

Na solenidade de todos os Santos, a Igreja propõe-se esta visão da glória, às portas do inverno, para que, com o cair das folhas das árvores e o apagar-se gradual da luz do dia, não esmoreça nos seus filhos a esperança da vida e da vida plena em Deus, onde os Santos são para nós ainda peregrinos na Terra, um estímulo e um contínuo convite a que desejemos, para além da morte, a vida eterna em Deus.

O dia de Todos os Santos é, por isso, um dia de festa que não deve ser ofuscada pela celebração do dia que se lhe segue.

A comemoração de todos os Fiéis Defuntos nasceu, no entanto, em ligação com a celebração do dia anterior, e muito naturalmente, pois que também nela se celebra a vida para além da morte, na esperança da ressurreição do último dia. O dia chama-se Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, depois de Todos os Santos, todos os que partiram deste mundo, marcados com o sinal da fé e esperam ainda a purificação total para poderem chegar à visão de Deus.

O nome tradicional para falar dos que partiram é Defuntos – palavra que significa os que deixaram a sua “função”, a sua actividade terrena e que não devem ser chamados “Finados”, palavra de sabor pagão, que significaria os que chegaram ao fim de tudo quanto é vida, onde não haveria lugar para “a vida do mundo que há-de vir”, como professamos no Credo.

Foi o Abade de Cluny, S. Odilão, quem no ano 998 determinou que em todos os mosteiros da sua Ordem – e eram muitos e influentes – se fizesse a comemoração de todos os defuntos «desde o princípio até ao fim do mundo» no dia a seguir ao da solenidade de todos os Santos. Este costume depressa se generalizou. Roma oficializou-o no século XIV e no século XV foi concedido aos dominicanos de Valência (Espanha) o privilégio de celebrar 3 missas em 2 de Novembro, prática que se difundiu nos domínios espanhóis e portugueses e ainda na Polónia. Durante a primeira Grande Guerra, o Papa Bento XV generalizou esse uso a toda a Igreja (1915). O Calendário de 1969 equipara a Comemoração às Solenidades, dando-lhe precedência sobre os domingos.

Também a sucessão dos dois dias litúrgicos insinua esta íntima ligação dos dois cultos: a Igreja pretende abraçar todos os cristãos que já concluíram a sua peregrinação terrena, a começar por aqueles nos quais já se cumpriu integralmente o mistério pascal com o triunfo da ressurreição de Jesus Cristo

 Nacional | Luís Filipe Santos – Fonte 

 

Os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos nas tradições do Alto Douro*

 

Todos os Santos (1 de Novembro)

“(…) A Igreja Católica festejava no dia 1 de Novembro todos aqueles que, sendo judeus ou não, haviam sido, na imagem do Apocalipse, assinalados na fronte pelo anjo do Senhor. Esta festa coincidia com os sacrifícios romanos aos manes e almas dos mortos (6 de Outubro), a morte de Ísis (17-20 de Novembro) e os sufrágios pelos gauleses e gregos enterrados vivos em Roma, no mercado dos touros (27 de Novembro). Essa tradição romana ainda perdurava no Alto Douro no primeiro terço do século XX. Efectivamente, era nesse dia que as pessoas, sobretudo as crianças e jovens, se juntavam e iam de casa em casa pedir castanhas e água-pé ou vinho para fazer um grande magusto colectivo.

Nos concelhos de Murça e de Alijó podia apanhar-se livremente castanhas nos soutos, sem que ninguém dissesse nada. No fim do magusto, cantava-se e dançava-se. Era a festa da partilha dos frutos da terra e, com ela, «dia de alegria, pândega e estroinice».

Da parte de tarde, as mulheres iam ao cemitério preparar os túmulos para a visita que se realizaria no dia seguinte, dia dos Finados.(…)”

 

Dia de Finados ou Fiéis Defuntos (2 de Novembro)

“(…) O dia 2 de Novembro era o dia de Finados. De véspera ainda, as mulheres dirigiam-se ao cemitério para enfeitarem as suas campas, mausoléus ou jazigos com ramos, flores, panos e velas, em tigelas, círios ou castiçais. Em Carlão (Alijó) colocavam lá também um vaso com água-benta, para que os amigos do falecido que a+i quisessem rezar pudessem aspergir o seu túmulo com uma ramo de oliveira. Já no dia, de manhã cedinho, havia na igreja um terno de missas pelas almas que ainda sofressem no Purgatório. Quase ninguém faltava. Em Larinho (Torre de Moncorvo) cantava-se, durante a derradeira missa, este cântico:

Triste dia em que o mundo
Deverá ser abrasado,
Por David profetizado,
Naquele abismo profundo.

Nem sois terra nem sois pó,
Nem sois cinza nem sois nada,
Sois uma triste caveira
Que o mundo traz enganada

Lá vai o juiz p’ró trono,
Lá vai dar sua sentença,
Ditosa daquela alma
Que tem feito penitência.

Abre-te, ó livro selado,
Onde tudo está escrito,
Lá não há-de escapar nada,
Nem o mais leve delito.

Pecador, que vais passando,
Reflecte bem como estou,
Eu já fui como tu és,
Tu serás como eu sou.

Concluído o terno, os participantes encaminhavam-se, em cortejo, para o cemitério paroquial. Era a procissão das Almas. Em Vila Real, a procissão, que antes se fazia dentro do recinto do cemitério de São Dinis, começou em 1926 a fazer-se a partir da Sé e presidida pelo Bispo. Chegados ao campo-santo, o sacerdote lia solenemente os responsos pelos falecidos. Para tal fim se colocava, em algumas terras, durante as missas, um pequeno cesto para recolher dinheiro para eles. No fim da cerimónia, o povo rezava pelos seus defuntos.

Dizia-se em Coura (Armamar) que, no dia 2 de Novembro, as almas vinham pernoitar ao cemitério onde estavam sepultados os corpos que foram seus. (…)”

*In Alto Douro – Terra de vinho e de gente, A.L. Pinto da Costa, Edições Cosmos, 1997