Em Novembro: dos Santos aos Fiéis Defuntos

Os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos nas tradições do Alto Douro*

 

Todos os Santos (1 de Novembro)

“(…) A Igreja Católica festejava no dia 1 de Novembro todos aqueles que, sendo judeus ou não, haviam sido, na imagem do Apocalipse, assinalados na fronte pelo anjo do Senhor. Esta festa coincidia com os sacrifícios romanos aos manes e almas dos mortos (6 de Outubro), a morte de Ísis (17-20 de Novembro) e os sufrágios pelos gauleses e gregos enterrados vivos em Roma, no mercado dos touros (27 de Novembro). Essa tradição romana ainda perdurava no Alto Douro no primeiro terço do século XX. Efectivamente, era nesse dia que as pessoas, sobretudo as crianças e jovens, se juntavam e iam de casa em casa pedir castanhas e água-pé ou vinho para fazer um grande magusto colectivo.

Nos concelhos de Murça e de Alijó podia apanhar-se livremente castanhas nos soutos, sem que ninguém dissesse nada. No fim do magusto, cantava-se e dançava-se. Era a festa da partilha dos frutos da terra e, com ela, «dia de alegria, pândega e estroinice».

Da parte de tarde, as mulheres iam ao cemitério preparar os túmulos para a visita que se realizaria no dia seguinte, dia dos Finados.(…)”

 

Dia de Finados ou Fiéis Defuntos (2 de Novembro)

“(…) O dia 2 de Novembro era o dia de Finados. De véspera ainda, as mulheres dirigiam-se ao cemitério para enfeitarem as suas campas, mausoléus ou jazigos com ramos, flores, panos e velas, em tigelas, círios ou castiçais. Em Carlão (Alijó) colocavam lá também um vaso com água-benta, para que os amigos do falecido que a+i quisessem rezar pudessem aspergir o seu túmulo com uma ramo de oliveira. Já no dia, de manhã cedinho, havia na igreja um terno de missas pelas almas que ainda sofressem no Purgatório. Quase ninguém faltava. Em Larinho (Torre de Moncorvo) cantava-se, durante a derradeira missa, este cântico:

 

Triste dia em que o mundo

Deverá ser abrasado,

Por David profetizado,

Naquele abismo profundo.

 

Nem sois terra nem sois pó,

Nem sois cinza nem sois nada,

Sois uma triste caveira

Que o mundo traz enganada

 

Lá vai o juiz p’ró trono,

Lá vai dar sua sentença,

Ditosa daquela alma

Que tem feito penitência.

 

Abre-te, ó livro selado,

Onde tudo está escrito,

Lá não há-de escapar nada,

Nem o mais leve delito.

 

Pecador, que vais passando,

Reflecte bem como estou,

Eu já fui como tu és,

Tu serás como eu sou.

Concluído o terno, os participantes encaminhavam-se, em cortejo, para o cemitério paroquial. Era a procissão das Almas. Em Vila Real, a procissão, que antes se fazia dentro do recinto do cemitério de São Dinis, começou em 1926 a fazer-se a partir da Sé e presidida pelo Bispo. Chegados ao campo-santo, o sacerdote lia solenemente os responsos pelos falecidos. Para tal fim se colocava, em algumas terras, durante as missas, um pequeno cesto para recolher dinheiro para eles. No fim da cerimónia, o povo rezava pelos seus defuntos.

Dizia-se em Coura (Armamar) que, no dia 2 de Novembro, as almas vinham pernoitar ao cemitério onde estavam sepultados os corpos que foram seus. (…)”

*In Alto Douro – Terra de vinho e de gente, A.L. Pinto da Costa, Edições Cosmos, 1997