O Homem Bonsai | Texto de opinião

 

Decididamente, a arte japonesa que consiste em cultivar toda a espécie de árvores em miniatura e que é vulgarmente conhecida por bonsai conquistou a sociedade ocidental. Muitas pessoas que actualmente vivem nas grandes cidades, limitadas no espaço cada vez mais exíguo dos seus apartamentos e por conseguinte impedidos de possuírem um palmo de terra para além daquela que lhe é permitida guardar num pequeno vaso ou floreira, têm agora a possibilidade de também elas cuidarem de uma árvore e contemplarem o seu crescimento, desde que optem por um desses pequeninos exemplares que a habilidade dos orientais maravilhosamente concebeu. É claro que esta pequena felicidade do habitante da cidade nada representa para quem vive no campo em comunhão com a natureza, plantando árvores e podando os seus ramos, estrumando as terras à sua volta e protegendo-as das geadas.

Preocupados com o bem-estar de milhões de pessoas que em todo o mundo se acotovelam nas grandes metrópoles e ainda nos fabulosos lucros das suas empresas, os japoneses vão ainda mais longe e, recorrendo às novas tecnologias têm vindo a reproduzir em formato de robot tudo aquilo que Deus criou no início do mundo, prometendo a tão bem sucedida experiência com o tamagoshi vir a alargar-se às demais espécies do reino animal, incluindo o próprio ser humano nas duas versões conhecidas: a masculina e a feminina.

Mas, a fantástica obra que os japoneses estão a realizar e que nos deixam com os olhos em bico, qual génesis nipónica a anunciar a criação de um “mundo novo”, não possui na realidade nada de tão extraordinário a não ser o modo como realizam o ser humano no contacto com a própria natureza sem ter de recorrer a esta como antigamente se fazia. Na realidade, o habitante da cidade sempre procurou ter em casa pequenos vasos de plantas e os seus tamagoshis de estimação, com a única diferença de que estes não dispensam a satisfação das suas necessidades básicas, algumas das quais de desagradáveis consequências para a higiene pública.

À medida que o Homem deixou o campo para passar a viver nas gaiolas de cimento que preenchem as cidades levou consigo toda a espécie de exemplares da natureza transformando frequentemente os apartamentos em verdadeiras Arcas de Noé. É a felicidade possível do homo urbanus que de vez em quando se desloca à província para lembrar as suas origens. Por haver provado do fruto da árvore do conhecimento e do “progresso” foi o homem expulso do paraíso onde vivia a alegria dos dias felizes do trabalho ao ar livre, ritmado com a suave melodia do vento e a nostálgica sinfonia das águas correndo nos ribeiros por entre juncos e seixos e condenado a trabalhar na fábrica onde o ruído ensurdecedor das máquinas lhe suprimiu a própria voz que também servia para cantar e, aos poucos, foi perdendo o talento com que o Criador o dotou. Na cidade não se canta, no local de trabalho e na via pública, sob pena de ser julgado por insanidade.

Apenas é permitido ouvir ou assistir, através dos meios de comunicação ou em locais apropriados, depois de concedidas a devida autorização para a realização do espectáculo ou transmissão da frequência.

Impossibilitados de festejar, como outrora o fazíamos, as diferentes estações com que a Natureza nos brinda, celebrando desse modo a acção criadora dos deuses, passámos a proceder a singelas reconstituições que em grande medida nos lembram os pequenos e graciosos bonsai que decoram os nossos humildes apartamentos. Afinal de contas, sem aquilo que lhe confere a sua verdadeira dimensão enquanto ser humano, incluindo a sabedoria que lhe é imanente a que se convencionou designar por folclore, bem assim a sua relação íntima com a Natureza, também o ser humano fica reduzido a um insignificante bonsai, apenas útil como elemento decorativo ou simplesmente para recordar aquilo que ele foi em toda a sua plenitude.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

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