Os sacramentos dos namorados – tradições

 

A propósito do Dia dos Namorados, que se celebra a 14 de Fevereiro, transcrevemos um texto que fala sobre “Os Sacramentos dos Namorados”, por analogia com os 7 Sacramentos da Igreja Católica.

«Hoje registamos um texto de ameno sabor colhido da boca da velha Tia Bárbara, que todos conhecem na Lageosa do Dão, ali perto de Tondela, mais de setenta anos, só algumas letras mal aprendidas na sua infância, uns chás de mil ervas guardados em caixas de lata nos armários de pinho, o médico só uma vez chamado para curar uma dor mais atrevida com venenos por ele inventados.

Os Sacramentos dos Namorados situam-se no bucolismo do viver aldeão, estreme, claro como água de virgens regatos, o cenário de uma manhã de domingo em Primavera já perfumada pelo odor das mimosas, o cortejo que sai da missa, os homens de fato novo que conversam no adro, as mulheres que se apressam para fazer o jantar, miúdos saltando muros, rapariguitas loiras mortas por correr e elas, as namoradas, e eles os namorados, ouvindo-se sinos de baptizados, marcam encontro na dobra do caminho.

Namorada: Vou-te fazer uma procura.

Namorado: Se souber, te respondo a ela.

Em tempo certo, só, será a entrega. O selo do amor, mais tarde, o amor já provado. Ela é a mais bela, é cândida, ele a guardou. Ele é forte, sadio, manso, e não se cansa de trabalho.

Namorada

Quando venho da igreja
C’um raminho de loureiro
Se sabes o Sacramentos
Diz-me lá tu o primeiro.

São tímidos os dois.

Que mundos de coisas lhes diz o olhar que eles de outro modo não saber dizer!

Namorado

O primeiro que é Baptismo,
Creio que fui baptizado.
Creio em tudo o que Deus disse.
Só tu és do meu agrado.

No coração dos dois as palavras correm como torrentes de Primavera num açude perto. Só no coração. Os lábios falam muito pouco.

Namorado
Segundo Confirmação
Confirmo-te na verdade.
Se t’eu quero bem ou não,
Deus do céu é que o sabe.

O terceiro Comunhão.
Quem comunga confessou.
Para uns de encerram amores,
Para outros se acabou.

O quarto Penitência.
Penitente tenho sido
Peço-te que não me deixes,
Linda flor do meu agrado.

 

Tocaram-se as mãos. Tremeu-lhes o ser até às entranhas. E logo as apertaram de novo. Para sempre.

Forte era o amor!…

O quinto é Extrema-Unção.
Eu de ti bem estremeço.
Desengane-me, ó menina.
Se vir qu’eu a não mereço.

Inquieto sempre o amor!…

Mas o sexto é Ordem,
Bem tenho que aprender,
No meio desses teus braços,
Muito mais, se puder ser.

Tão doce sempre, o amor!…

O sétimo, Matrimónio,
Significa o dar a mão.
Já não se aparta a rosa
Do verde manjericão.

Os dois verão, em breve, envolto em sedas um infante tenro. Replicam os sinos da igreja onde há mais um baptizado.»

Alberto Correia, in Almanaque 1995 – ME – DEB | Imagem de destaque