Produtos regionais bem gostosos. Prove-os!

 

O microclima local, devido à proximidade da Serra Morena, do rio Ardila e da ribeira de Murtega, é complementado pela sabedoria dos barranquenhos. Ao longo dos tempos os porcos da raça Sus mediterraneus, que cresceram nos montados, deram origem á subespécie Sus ibericus, conhecida como raça alentejana. No período da montanheira, entre Outubro e Fevereiro, os porcos já desmamados começam a alimentar-se nas planícies de sobro e azinho. Comem diariamente mais de sete quilos de bolota, que enriquece a carne com o tal ácido oleico e lhe dá um paladar único.

Não se sabe quando se iniciou a criação de porcos na região, mas desde o século XVI que a qualidade do montado barranquenho está registada. Em 1513, D. Manuel I deu o Foram à vila de Noudar, que na época regia a então aldeia de Barrancos. O rei estabeleceu multas entre os 100 e os 1000 reais para quem cortasse ou queimasse qualquer árvore do montado rico em ervagem, bolota e lande. A preocupação régia só foi reconhecida 450 anos depois, quando as pastagens começaram a ser exploradas em meados do século XX. Mas mais vale tarde que nunca…

Passaporte gastronómico

Nome: Presunto de Barrancos DOP

País: Portugal

Morada: Distritos de Beja, Castelo Branco, Évora, Portalegre e Setúbal para a criação dos porcos. Concelho de Barrancos (Beja) para a secagem dos presuntos.

Data de nascimento: Século XVI

Particularidades: O presunto é seco em ambiente natural e não fumado. O período mínimo de maturação é de seis meses. A partir de 20 meses de cura é considerado ‘reserva’.

 

Azeitonas de Elvas

Há azeitonas e há as de Elvas. Essas pedem-se pelo nome. Ainda assim, o pedido é injustamente redutor, pois Campo Maior também faz parte desta Denominação de Origem Protegida.

Terra de bom azeite pode não ser forçosamente terra de boas azeitonas. Muitas vezes a azeitona tem óptimas qualidades para produzir azeite mas pouca propensão para ser consumida ao natural. O Alentejo tem o condão de ser abençoado por esses dois aspectos. Há azeite de qualidade em várias partes da região, enquanto a zona do Alto Alentejo se destaca pela excelência das azeitonas de mesa. As variedades carrasquenha, redondil e conserva, não têm grande rendimento azeiteiro, mas compensam esta característica no sabor e calibre que apresentam enquanto fruto.

São colhidas no momento em que surgem os primeiros vestígios de maturação. O fruto ainda se apresenta verde e com a consistência firme para resistir à colheita e aguentar o processo de salmoura que lhe vai arredondar as adstringências que o caracterizam. As azeitonas do chão são liminarmente rejeitadas no processo de conserva. Só os frutos da árvore são sujeitos à salmoura. As formas mais populares de conservar são a verde ‘britada’, em que se pisa a azeitona verde, e a retalhada, onde se mistura diversos tipos de azeitona que são cortados com uma faca, e temperados com condimentos típicos da região, como alho, orégãos, tomilho e outros.

O prestígio das azeitonas de Elvas é mais evidenciado a partir do século XVIII através de referências constantes em vários escritos. No 2º volume do romance Eccos, que o clarim da fama dá (…), escrito sob pseudónimo por José Ângelo de Morais, um trecho refere: «À vendeira perguntey. Se tinha azeitonas d’Elvas?». Em 1841 o jornal O Panorama (vol. V) descreve os arredores de Elvas e destaca as azeitonas de conserva, «grandes e semelhantes às famosas de Sevilha». Mais tarde, a Revista Universal Lisbonense refere a presença de azeitonas de Elvas no expositor de Saraiva D’Albuquerque, durante a Exposição Universal de 1851, em Londres.

Ao longo dos tempos a notoriedade e depois a internacionalização das azeitonas foi feita sob a égide da secular cidade de Elvas, mas o facto é que Campo Maior tem igualmente uma zona de olival de grande qualidade para a produção de azeitonas de mesa. Os dois concelhos partilham as mesmas características de clima e ambiente, favoráveis à obtenção dos melhores frutos. A qualidade das azeitonas foi sendo confirmada ao longo do século XX. A certificação DOP obtida em 2007 vem clarificar uma verdade histórica. Se de Elvas se avista Badajoz em Campo Maior, Espanha também está no horizonte, enquanto crescem deliciosas azeitonas em cada monte!

Passaporte gastronómico

Nome: Azeitonas de Conservas de Elvas e Campo Maior DOP

País: Portugal

Morada: Concelhos de Elvas e Campo Maior, no distrito de Portalegre.

Data de nascimento: Século XVIII

Particularidades: A azeitona verde ‘britada’ é da variedade “carrasquenha”. As azeitonas mistas temperadas com folhas de limoeiro, ou laranjeira, e alho, louro, tomilho e orégãos, são das variedades “redondil” e “conserva”.

 

Borrego de Montemor

O Marquês de Pombal incentivou a criação de gado merino. No Alentejo surgiram lãs finas e descobriu-se a delicadeza da carne de borrego em terras de Montemor.

Foi a transumância que trouxe para cá as primeiras ovelhas de raça merina. Esta espécie de rito coreográfico que conduz o gado de uma zona de pasto para outra quando o clima se transmuta gradualmente de Verão para Inverno, começou há largos séculos na Península Ibérica. Desde a Idade Média que os espanhóis conduziam os seus rebanhos para as terras raianas do Alentejo em busca de melhores pastos. O movimento inicial era esporádico e servia apenas para evitar alguns rigores climáticos do outro lado da raia.

A raça merina é tida como originária de Espanha, provavelmente através do cruzamento com ovinos do Norte de África. Foram os movimentos de transumância que introduziram gradualmente as ovelhas na pecuária alentejana. A criação desta raça quase se extinguiu com o início das guerras da Restauração, que puseram fim ao domínio filipino. Mais tarde, quando o Marquês de Pombal oficializou a introdução de ovelhas espanholas de raça merino, de presença pontual nos pastos da planície dourada passou a fonte de rendimento na economia local.

Os rebanhos foram sendo aclimatados às diversas regiões do país para se obter lã, peles e carne. A partir do século XVIII a raça merina expandiu-se também a outros países da Europa e Portugal começou a exportar lãs de qualidade. No século XIX o distrito de Évora já gozava deste prestígio como documenta O Archivo Rural de 1867:«É alli que se produzem as lãs brancas de typo merino, algumas d’ellas bastante finas, como são por exemplo: as de Montemor.» O aperfeiçoamento da criação deu origem à raça ‘merino branco regional’ e demonstrou que a zona de Montemor possuiu um ecossistema peculiar que salienta as qualidades da carne.

Desde meados do século passado que a produção de carne tem sido melhorada pelos criadores locais. Este empenho permitiu certificar o borrego de Montemor-o-Novo em 1996. Os pastos de azinheiras, sobreiros e zambujeiros contribuem para a qualidade de alimentação dos pequenos ruminantes após os 60 dias de aleitamento materno. É nessa fase que a bolota, as forragens e os cereais transmitem à suculenta carne um gosto que distinguem os borregos montemorenses de outros existentes na região e também certificados com as Indicações Geográficas de ‘Nordeste Alentejano‘ e ‘Baixo Alentejo‘.

Passaporte gastronómico

Nome: Borrego de Montemor-o-Novo IGP

País: Portugal

Morada: 14 freguesias distribuídas pelos concelhos de Arraiolos, Évora, Montemor-o-Novo e Mora, numa área de 138.000 hectares.

Data de nascimento: Século XVIII

Particularidades: Borregos da raça ‘merino branco regional’, com 90 a 120 dias de idade, nascidos e criados numa das freguesias da zona delimitada. Deve ser temperada com poucos condimentos para realçar o sabor suave e característico.

Textos de Fortunato da Câmara- Essencial/SOL – nº231