Santo António na Religiosidade Popular

 

Estudo biográfico sobre Santo António e sobre a devoção que, nomeadamente em Portugal, rapidamente se desenvolveu.

Índice: Introdução | De cónego Agostiniano a frade Franciscano | Origem da devoção antoniana | A paixão popular por Santo António | O nascimento de um santo | A devoção espalha-se por todo o mundo | Iconografia antoniana | Devoção antoniana em Portugal | Lisboa | Coimbra | Barcelos | Outras peculiaridades da devoção antoniana | Notas

Introdução

Santo António é um santo de projecção universal, sendo, muito provavelmente, o mais popular de todos os santos. Igrejas e capelas dedicadas a Santo António, imagens em grande parte das igrejas e nas casas particulares, azulejos e pinturas, cânticos, festas e peregrinações dão ideia da grande devoção popular a Santo António, que hoje atravessa todas as idades e todas as classes sociais, em todo o mundo.

Contudo, o culto de Santo António, ainda que se tenha mantido sem interrupções desde o século XIII em Portugal, na Diocese de Pádua e dentro das Ordens Franciscanas, só começou a estender-se a todo o mundo a partir do século XV, com o florescer da Observância entre os Frades Menores.

De cónego Agostiniano a frade Franciscano

A vida de Santo António é muito conhecida, uma vez que vários estudos de relevo lhe têm sido dedicados[1], pelo que nos limitaremos a alguns traços ligeiros, que nos parecem mais significativos para compreendermos a afeição popular por este Santo.

António é um intelectual do seu tempo e o Primeiro Doutor da Ordem Franciscana. Mas esta qualidade é pouco conhecida pelo povo, apesar de ter sido declarado Doutor da Igreja, em 1946, mediante a bula Exulta, Lusitania Félix, de Pio XII.

Filho de ricos comerciantes portugueses, recebeu no Baptismo o nome de Fernando Martins de Bulhões. Nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195[2], cerca de 50 anos depois do nascimento da nação portuguesa e no decurso da reconquista cristã do território ao domínio muçulmano. A sua história deve ser vista nesse ambiente de expulsão dos muçulmanos e, ao mesmo tempo, de emergência de uma nova nação. Vive os primeiros anos da sua vida a dois passos da Catedral de Lisboa, onde frequentou os primeiros estudos, nas aulas de Gramática. Próximo dali, a cerca de um quilómetro, fica o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Com cerca de 15 anos de idade, Fernando pediu aos pais que o deixem entrar no Mosteiro e aí fez o noviciado. Depois, cerca dos 19 ou 20 anos, foi terminar a sua formação intelectual em Santa Cruz de Coimbra, onde foi Ordenado Sacerdote. Em Coimbra teve a oportunidade de conhecer os Frades Menores de São Francisco, que viviam no eremitério de Santo Antão, nos Olivais, sobre uma colina, a Nordeste da cidade. Por essa altura, passaram por Portugal a cominho de Marrocos, cinco Frades Franciscanos, para aí pregarem a fé cristã. Mal recebidos em Marrocos, acabaram por ser barbaramente martirizados.

Este facto foi crucial no despertar da vocação franciscana em Fernando de Bulhões. A passagem solene, pelas ruas da cidade de Coimbra, dos corpos dos cinco Frades martirizados em Marrocos, fez nascer nele o mesmo ideal[3]. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência. Tinha cerca de 30 anos. Pediu para entrar na Ordem dos Frades Menores e aí recebeu o nome de António, sendo-lhe concedida imediata permissão para partir para o norte de África[4].

Aí desembarcou, no Inverno de 1220. Mas, uma persistente doença obrigou-o a voltar para Portugal. No regresso, o navio que do Norte de África vinha para Lisboa, foi desviado por uma violenta tempestade e foi parar às costas da Sicília, na Itália. Estávamos no começo da Primavera de 1221. O religioso português foi recolhido pelos seus irmãos Franciscanos italianos, que o levaram para a cidade de Messina, devolvendo-lhe, com os seus cuidados, a saúde corporal.

No final de Maio, desse mesmo ano, realizava-se em Assis o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores, para o qual todos os religiosos eram convidados. Foi aí que António conheceu Francisco de Assis. Terminado o Capítulo, seguiu para o pequeno eremitério de Montepaolo, perto de Forli, no Norte de Itália, onde estavam seis Frades. É-lhe dado o encargo de presidir à celebração da Santa Missa para os seus irmãos e ajudar nos trabalhos domésticos. Desejando preservar a humildade, António nunca revelou seus conhecimentos e raramente era visto com livros, além do breviário e do missal.

Origem da devoção antoniana

A paixão popular pela figura de Santo António não é algo que tenha ocorrido somente depois da sua morte, ao contrário, António alcançou verdadeira fama de santidade ainda durante a sua vida terrena.

Na cidade de Forli havia um convento de estudos da Ordem de São Domingos. Em Setembro de 1222, os Dominicanos convidaram os Franciscanos para participarem na cerimónia das Ordenações sacerdotais naquele convento. Na hora própria, o superior dos Dominicanos dirige-se aos Franciscanos, a fim de que um deles fizesse a pregação. O Superior do eremitério de Montepaolo pede ao irmão António que suba ao púlpito e diga «tudo o que lhe seja sugerido pelo Espírito Santo». As primeiras palavras foram simples, mas, em seguida, tornam-se firmes, seguras e convincentes, a ponto de impressionarem todos os presentes. A notícia deste facto percorreu toda a região e, em pouco tempo, António foi nomeado pregador oficial da Ordem.

Na época de António, desenvolveram-se alguns movimentos heréticos, entre os quais estavam os Cátaros, isto é, puros, e os Albigenses, que renovavam as antigas correntes gnósticas e maniqueístas. Com a sua pregação, António irá defrontá-los, procurando contrapor-se às suas doutrinas. O conhecimento profundo das Escrituras dava às suas palavras uma autoridade invulgar, lançando no coração de ouvintes raízes tão fundas, que a todos arrebatava e reconduzia à verdade. Tanto pregou no Norte da Itália, como no sul da França, onde se destacam Montpellier, Le Puy, Arles, Toulouse, Limoges, Bourges, entre outras cidades.

O seu ofício de pregador valeu-lhe o título de «Arca do Testamento», mas António foi também director de estudos e professor de teologia. Segundo algumas fontes, o próprio São Francisco o teria incumbido dessas funções[5]. Em Bolonha fundou e dirigiu a primeira escola da Ordem Franciscana.

As suas biografias mais seguras, ocultam-nos pormenores acerca deste período da vida do pregador António. Só no fim do século XIII, D. Jean Rigaud, bispo da Bretanha, procurou ordenar os factos lendários preenchendo as lacunas da vida do Santo. Desta forma, a fama de Taumaturgo provém sobretudo dos escritos deste bispo, que ficaram conhecidos com o nome de «Rigaldina»[6].

Em 1226, foi nomeado Custódio dos Frades Menores da região de Limoges e, em 1227, é nomeado Superior Maior da província da Romagna, que abrangia todo o norte da Itália. António exerce esse cargo até Maio de 1230 e segue para Pádua, pregando sucessivamente nas 55 igrejas da região. Em fins de 1231, com a saúde muito abalada, António retira-se para o castelo de Camposampiero, próximo de Pádua. Ali, escreve e revê os seus Sermões, dedicando longas horas à meditação espiritual.

Um dia, estando em Camposampiero, sente-se mal à mesa e pede a um dos irmãos que o leve imediatamente para Pádua. No caminho, sentido-se desfalecer, teve de ficar no mosteiro das Clarissas, em Arcella. António só tem tempo para se confessar e receber a unção. Morreu dizendo: «Vejo o meu Senhor». Era o dia 13 de Junho de 1231.