O que é a Semana Santa para os Cristãos!

 

Inicialmente, quem presidia à “assembleia” litúrgica, também chamada synaxis, tinha uma ampla margem de iniciativa. Mas isto durou pouco tempo. Quase logo, foi preciso codificar a maneira de actuar. Por um lado, realizar celebrações sempre novas só está ao alcance de muito poucos; a maioria necessita de um suporte para “improvisar”. Então, difundiram‑se alguns formulários de grande qualidade que serviam de ponto de referência. Por outro lado, sobretudo em períodos de controvérsia, era preciso velar pela ortodoxia dos textos litúrgicos. É essa a origem das “Orações Eucarísticas”, também chamadas anáforas, ou seja, “oblações”.

Na Igreja latina, a partir do século IV, impôs‑se um modelo exclusivo, o Cânone Romano, até que o missal posterior ao Concílio Vaticano II reconheceu várias “Orações Eucarísticas”. Deste modo, recuperou‑se alguma flexibilidade que permite adaptar‑se às diversas assembleias. Mas, hoje como ontem, no Oriente e no Ocidente, é sempre a mesma Eucaristia que se celebra «em memória do Senhor», repetindo, como Ele pediu, o mesmo que Ele fez «na véspera da sua Paixão».

A celebração da «Ceia», na Quinta‑Feira Santa, não difere da Eucaristia dos outros dias do ano. Mas tem um valor exemplar. Ao recordar o que o Senhor fez na Última Ceia com os Seus discípulos, acrescenta‑se «hoje». De facto, amanhã será o dia dedicado à Paixão. Mas esta maneira de falar tem um sentido absolutamente geral. Cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia e os outros sacramentos, de que ela é fonte, renova‑se para nós, hoje, por obra do Espírito Santo, a obra de Deus, que Cristo realizou de uma vez para sempre. O que Jesus fez, num dia, é sempre actual e novo, embora se repita indefinidamente. Efectivamente, em cada celebração litúrgica e, especialmente, em cada Eucaristia, acontece para nós, aqui e agora, a Salvação que Deus realiza desde o princípio. Cristo está presente. Actua por meio de sinais eficazes e pelo poder do Espírito.

A leitura do Livro do Êxodo recorda que a Eucaristia mergulha as suas raízes na liturgia ancestral da Páscoa judaica, o que manifesta claramente o seu carácter tradicional, ao mesmo tempo que a sua absoluta novidade. O Evangelho de São João conta que Jesus, durante a Sua Última Ceia com os discípulos, «antes da festa da Páscoa», tirou o manto e lavou‑lhes os pés. Para que Pedro aceitasse que o Senhor Se rebaixasse deste modo, foi necessário que Ele lhe dissesse: «Senão te lavar, não terás parte comigo»; acrescentando: «Eu dei‑‑vos o exemplo para que assim como Eu fiz, vós façais também.»

Este «mandato», semelhante ao que o Senhor deu a propósito do pão e do cálice, refere‑se à missão e ao comportamento recíproco dos discípulos. Mas o evangelista introduz o relato dizendo: «Jesus,[…] que amara os seus, que estavam no mundo, amou‑os até ao fim.» Como não ver neste gesto insólito do Mestre uma pregação prática do amor, lei fundamental da comunidade cristã, de que a Ceia do Senhor é fonte e exigência? Deste modo, a liturgia de Quinta‑Feira Santa celebra a Eucaristia, memorial da Páscoa de Cristo, sacramento do Seu amor infinito por nós e do amor que devemos ter uns aos outros, e a instituição do ministério sacerdotal, que se deve entender e exercer, seguindo o exemplo do Senhor, como serviço aos irmãos da comunidade.

 

Sexta‑feira Santa da Paixão do Senhor

A liturgia da Sexta‑Feira Santa tem a sua origem em Jerusalém. No Diário de Viagem de uma cristã chamada Egéria, conta‑se como decorria lá este dia em finais do século V.

Depois de uma noite de vigília no monte das Oliveiras, de manhã muito cedo, descia‑se para o Getsémani para ler o relato da prisão de Jesus. Dali ia‑se até ao Gólgota. Depois da leitura dos textos sobre a comparência de Jesus diante de Pilatos, cada um ia para sua casa para descansar um pouco, passando antes pelo monte Sião para venerar a colunada flagelação. Pelo meio‑dia, havia novo encontro no Gólgota para venerar o madeiro da Cruz: leitura durante três horas dos textos do Antigo e do Novo Testamento, alternando com salmos e orações. O dia acabava finalmente na Igreja da Ressurreição, Anastasis, onde se lia o Evangelho da deposição de Jesus no sepulcro.

Os primeiros testemunhos da liturgia de Sexta‑Feira Santa em Roma datam do século VII. O Papa dirigia‑se à Basílica da Santa Cruz, onde se lia o Evangelho da Paixão segundo São João, seguido de uma ladainha de intenções universais. Nas igrejas situadas fora da cidade e assistidas por sacerdotes havia uma celebração mais popular: exposição da cruz sobre o altar; liturgia da Palavra como na Basílica da Santa Cruz; depois do Pai Nosso, adoração da cruz e comunhão do pão e do vinho consagrados no dia anterior.

No século VIII, introduziu‑se na liturgia papal a adoração da cruz, mas sem comunhão. No século x, uniram‑se os dois modos de celebrar. No século XIII, decidiu‑se que só comungava o celebrante e, no século XVI, que a celebração se fizesse de manhã. Mas nem por isso se deixou de «santificar» o resto do dia: na maioria das igrejas, o povo reunia‑se, frequentemente em maior número do que de manhã, para a Via‑Sacra e o «sermão da Paixão». Assim, se fez até 1955; a partir desta data, a Igreja romana celebra a liturgia da Paixão na tarde de Sexta‑Feira Santa.

A celebração começa com um momento de oração silenciosa e uma “oração” pronunciada pelo celebrante. Tem três partes: a liturgia da Palavra com a oração universal, a adoração da cruz e a liturgia da comunhão. A liturgia da Palavra forma como que uma espécie de tríptico. A primeira leitura apresenta o rosto de uma personagem misteriosa, um justo submetido aos piores sofrimentos e vítima das mais odiosas perseguições, desprezado pelos homens e, aparentemente, abandonado pelo próprio Deus. Na realidade, oferece‑Se em sacrifício de expiação pelo pecado dos homens e o Senhor torná-lo‑á chefe de um povo incontável de justificados.

Qualquer que seja a identidade do «servo de Deus» no Livro de Isaías (52,13-53,12), faz pensar, sobretudo na Sexta‑Feira Santa, em Cristo, o Justo ultrajado, cuja morte salvou todos os homens do pecado e que Deus exaltou na glória do Céu. Na segunda leitura pode ver-Se Jesus, o Cristo, entronizado junto de Deus como «um grande Sumo sacerdote» que, pela Sua obediência, «Se tornou, para todos aqueles que Lhe obedecem, causa de salvação eterna» (Hb 4,14‑16;5,7‑9).Estas duas leituras, escritas à distância de vários séculos, introduzem‑nos admiravelmente na compreensão da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo que ocupa o centro do tríptico (Jo 18,1‑‑19,42).

O evangelista João quis oferecer o sentido profundo dos acontecimentos de que foi testemunha. Paradoxalmente, é na Cruz que Jesus Se manifesta como o Vivente que dá vida abundante a todos os que «olham para Ele». Então, surge espontaneamente da assembleia a oração universal, para que a Paixão do Senhor produza os seus frutos para todos, até aos confins da terra. Depois, vem a adoração da cruz que tem evidente acentuação pascal, porque nunca se podem dissociar a morte e a ressurreição de Cristo.

A comunhão do pão consagrado no dia anterior encerra esta celebração austera e, ao mesmo tempo, vibrante de esperança. Todos se retiram em silêncio, não para chorar a morte de Cristo, mas para meditar no seu mistério e se preparar, no recolhimento, para a alegria do Aleluia que ecoará na Vigília Pascal.

 

Sábado Santo

O Sábado Santo é um dia absolutamente especial dentro do Ano Litúrgico. As igrejas e os altares despojam‑se dos seus ornamentos habituais, e o sacrário fica vazio. Não há nenhuma celebração, além da Liturgia das Horas. A comunhão só se pode administrar na forma de Viático. É uma jornada de meditação, de deserto e de silêncio.

Depois da morte e da sepultura do Senhor, as mulheres que O tinham acompanhado desde a Galileia voltaram para as suas casas. Nas horas que precederam o sábado, tinham preparado aromas e perfumes com a intenção de ir embalsamar o Seu corpo, logo que terminasse o repouso sabático, que cumpriram rigorosamente (Lc 23,55‑56). Por seu lado, os Apóstolos e um pequeno grupo de discípulos encerraram‑se numa casa «com medo dos judeus» (Jo 20,19). Os evangelistas não dizem nada dos seus pensamentos e sentimentos, mas tudo parece indicar que, sobre uns e outros, se tinha abatido um silêncio de morte. O silêncio que hoje, Sábado Santo, envolve a comunidade dos cristãos é diferente.

A Liturgia da Sexta‑Feira é já celebração pascal; é evidente na adoração da Cruz. Antes de abandonar a igreja, os fiéis marcam encontro para o dia seguinte à noite, para outra celebração: a da ressurreição de Cristo, que se proclamará, com alegria transbordante, na Vigília Pascal. No silêncio do Sábado Santo, a Igreja medita no mistério da Paixão de Cristo, morto pela salvação de todos os homens, murmurando já no íntimo do coração do Aleluia que logo ecoará. O Sábado Santo continua no mundo e ecoa entre a Sua morte e a Sua ressurreição, mas os que estão encerrados no fundo e não podem dormir ouvem que lá mais abaixo se abrem diante de Cristo as portas do abismo.(J.‑P.Lemaire, L’exode et la nuée, Gallimard, Paris 1982, p. 61)

Vigília Pascal

Na tradição judaica, os dias contam‑se de um pôr‑do‑sol ao outro, e não a partir da meia‑noite. Esta maneira de dividir o tempo manteve‑se na liturgia da Igreja: as solenidades começam ao entardecer, com as primeiras vésperas e acabam com as vésperas do dia seguinte. Dado que, segundo o testemunho dos evangelistas, a ressurreição do Senhor teve lugar ao amanhecer «do primeiro dia da semana» – a que hoje chamamos domingo –, os cristãos, desde os começos, celebraram o memorial semanal desde a noite anterior. Desde o século II, impôs‑se uma celebração anual, preparada por um jejum que durava um ou vários dias. Desde o século IV, a noite Pascal caracterizou‑se pela grande celebração anual dos baptismos, desenvolvendo‑se a sua liturgia, sob a influência de diversas tradições, até ao século XIII.

Em Roma, ainda no século V, não há mais do que uma celebração pascal, a da noite, como testemunham as homilias do Papa São Leão (440‑461). Mas em África, no tempo de Santo Agostinho (354‑430), celebrava‑se já uma segunda Missa no domingo de manhã. O bispo de Hipona não deixava de pregar nela, apesar – dizia ele – do cansaço da longa vigília nocturna. Este costume difundiu‑se posteriormente: conservam‑se livros litúrgicos do século VII que contêm textos da Missa do Domingo de Páscoa.

No entanto, logo a seguir, começou a antecipar‑se a Vigília Pascal. E quando o Concílio de Trento (1545‑1563) proibiu a celebração da Missa depois do meio‑dia, a celebração passou para a manhã de Sábado Santo. Assim foi até 1951, quando voltou ao seu lugar original, primeiro «como experiência» e a juízo dos bispos e, desde 1956, de maneira definitiva.

Na sua forma actual, a Vigília Pascal consta de quatro partes claramente diferenciadas. Começa com o lucernário, o rito da luz: bênção do fogo novo em que se acende o Círio Pascal, cuja chama passa imediatamente às velas que os membros da assembleia levam na mão. Vem depois o anúncio solene da Páscoa, saudada com um canto de aclamação. Depois, celebra‑se uma liturgia excepcionalmente longa.

Trata‑se de uma recapitulação da catequese que se fez aos catecúmenos e recorda as grandes etapas da História da Salvação que precedeu e preparou o advento da «luz verdadeira que ilumina todos os homens» (Jo 1,9). Depois de sete grandes textos do Antigo Testamento, lê‑se uma breve passagem da Carta de São Paulo aos Romanos, a que se segue a proclamação do Evangelho da ressurreição segundo São Mateus (Ano A), São Marcos (Ano B) ou São Lucas (Ano C).

A terceira parte é constituída pela liturgia baptismal: bênção da água, Profissão de Fé, baptismos e confirmações, se for o caso, ou aspersão da assembleia com a água lustral.

Finalmente, vem a quarta parte, a liturgia da Eucaristia que se realiza como de costume. Está prescrito que a Vigília Pascal não se inicie antes de começada a noite. Trata‑se evidentemente de uma exigência de autenticidade dos ritos e símbolos, que caracterizam esta grande liturgia e que lhes confere a sua extraordinária força expressiva e o seu incomparável valor espiritual.

Que todo o homem piedoso e amante de Deus goze desta bela e luminosa solenidade. Que todo o servo fiel participe da alegria do seu Senhor. Que quem se esforçou por jejuar receba agora o salário que lhe corresponde. Quem trabalhou desde a terceira hora que celebre esta festa com gratidão. Se alguém só chegou à sexta hora que não duvide, pois não perderá nada. E, se alguém se atrasou até à nona hora, que não sinta vergonha pela sua tibieza porque o Senhor é generoso e dá ao último o mesmo que ao primeiro…

Saboreai todos o banquete da fé. Saboreai todos as riquezas da misericórdia. Que ninguém se queixe pela sua pobreza, pois apareceu o nosso Reino comum. Que ninguém se lamente pelos seus pecados, pois da tumba brotou o perdão. Que ninguém tema a morte, já que a morte do Salvador nos libertou…

Cristo ressuscitado de entre os mortos tornou‑Se como primícias dos que morreram. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen. (São João Crisóstomo, Sermão para a Vigília de Páscoa). Na liturgia bizantina, lê‑se este texto ao princípio da celebração.

Fonte: Missal Paulus, pp. 477-480.533-534.541-542.558-560. | Imagem de Iwona Olczyk por Pixabay