A Serração da Velha anuncia a Primavera

 

A tradição guarda ritos ancestrais que o folclore procura reconstituir. Muitos desses costumes têm a sua origem na religião primitiva dos povos que nos antecederam e da mistura dos quais descendemos. Com a introdução do Cristianismo na Península Ibérica ao tempo da ocupação romana, muitos desses rituais adquiriram novas formas, mais de acordo com a religião emergente. Os sítios sagrados e os templos pagãos foram arrasados para dar lugar a igrejas cristãs, as festividades adquiriram novos significados e designações e até as divindades passaram com os seus atributos a servir as novas crenças.

Sob os alicerces de uma catedral românica ou gótica encontramos invariavelmente vestígios de antigos locais de culto a deuses pagãos. As celebrações do Natal cristão e as fogueiras de S. João vieram substituir as saturnais romanas e os ritos solsticiais da entrada do Verão. Os deuses outrora idolatrados no cimo dos montes, promontórios e nascentes de água surgem agora revestidos de uma nova santidade. A própria toponímia revela-nos antigas práticas religiosas como sucede com a serra do Larouco a invocar o culto ao deus Laraucus e a frequente designação de “Águas Santas” a registar a existência de nascentes de água, não raras as vezes associadas à ocorrência de milagres cristãos.

Por altura da Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, era costume antigo o rapazio vir para a rua com sarroncas e zaquelitraques, divertir-se ruidosamente, um tanto ao jeito do Entrudo que, à semelhança do que sucede com outras manifestações que têm o seu começo em Novembro, parecem ter o propósito declarado de expulsar os demónios do inverno e saudar o nascimento da Primavera. A “velha” era então serrada, sugerindo este ritual o renascimento da natureza e o reinício de um novo ciclo da vida e dos vegetais. Destituída da significação religiosa que lhe estava na origem, este costume assumia não raras as vezes uma forma algo cruel e menos respeitosa em relação a pessoas com idade mais avançada.

Com o tempo, estes rituais foram assumindo um carácter de crítica social e assim surge a leitura de um “testamento”. Nalgumas localidades, a Serração da Velha passou a ser celebrada sob uma versão cristianizada, vulgarmente designada por “Queima do Judas”, adaptado à descrição bíblica e contendo alguns elementos característicos do ritual pagão. Em algumas aldeias, adquirem particular expressão as “pulhas” e outras manifestações do género. Em todo o caso, tratam-se de rituais que na sua origem visavam corrigir os comportamentos sociais da mesma forma que o jejum quaresmal pretende purificar o corpo dos excessos da alimentação, mormente da ingestão de carne de porco, e por essa via cuidar da alma uma vez que é da nossa saúde física que depende em grande medida o nosso bem-estar espiritual.

Ao começo dos tempos está associada a acção criadora dos deuses. Como tal, é este considerado o tempo sagrado em relação ao qual o Homem, através do rito, procura celebrar o gesto divino e primordial e participar na sua acção criadora. Consequentemente, ao festejamos a chegada da Primavera, nomeadamente a Serração da Velha, asseguramos através de um ritual mágico a continuidade do seu gesto criador e o perpétuo renascimento da vida e da natureza, quer o mesmo seja simbolizado no ovo pascal ou na Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao observar o ressurgimento constante da natureza, a antiga crença associava a morte à vida num ciclo de perpétuo renascimento. A morte jamais representava um o fim da vida mas antes um processo de regeneração indispensável ao nascimento de uma vida nova. Por conseguinte, a Serração da Velha anuncia a chegada da Primavera e o renascimento da vida vegetal, o desabrochar das flores e o esplendor do Sol cujos raios já nos deslumbram, por entre as derradeiras chuvas do Inverno, com a formação na esfera celeste do colorido “Arco da Velha”. E, se bem que as nossas crenças evoluíram para formas mais avançadas, não deixa de ser do maior interesse preservar tradições que fazem parte integrante do nosso património cultural.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Foto de destaque: Gravura antiga, de origem desconhecida, aludindo à Serração da Velha