O soldado “Milhões” e a batalha de La Lys

 

Portugal participou na I Guerra Mundial (não contando com as lutas travadas em África para defesa das províncias ultramarinas de Angola e Moçambique), enviando para a frente de batalha o Corpo Expedicionário Português.

“O CEP (Corpo Expedicionário Português) é concentrado em Tancos, onde nasce um mar de tendas de pau e lona, por isso conhecido como «Cidade de Paulona». A sua formação demora 10 meses, embarcando os primeiros contingentes em Janeiro de 1917, para ocupar posições numa faixa de 12 quilómetros de frente no sector inglês da Flandres, numa imensa planície agrícola no Norte de França, esquartejada por rios e canais, onde o clima é rígido e húmido, a estação fria longa e as estradas se cobrem de neve no Inverno, lama na Primavera e no Outono e pó no Verão. Portugal enviará para aqui duas divisões, 57 mil soldados em remessas mensais de quatro mil, sem que o CEP fique completo por falta de artilharia e de aviação.” 1

 

Colapso em La Lys

«Na Primavera de 1918, o exército dos Estados Unidos avança para a Europa, ameaçando desequilibrar de vez o rumo da guerra a favor dos Aliados. Libertados dos Russos a Leste, em virtude da paz assinada pelo novo poder soviético, os Alemães resolvem antecipar-se ao desembarque americano, numa ofensiva desesperada que isole as forças inglesas das francesas.

Entretanto, em 2 de Abril, o comandante do CEP, general Tamagnini de Abreu e Silva, alerta o Ministério da Guerra para uma «situação difícil e perigosa»: os oficiais vão a Portugal de licença e não voltam, deixando as tropas abandonadas nas trincheiras. Dois dias depois, comunica os primeiros motins de soldados: uma brigada «insubordinou-se, declarando que não quer ir para a frente». O contágio ao resto do corpo expedicionário é iminente. Sidónio [Pais] ignora os avisos. No front os soldados só aguardam que o novo poder os evacue, entoando-lhe uma quadra:

«Ó grande Sidónio Pais

Director da Revolução

Nâo nos deixes sofrer mais,

Rende a nossa divisão

Em pânico, Tamagnini pede aos Britânicos que revezem todo o sector português. A retirada da 2ª divisão do CEP, que ocupa a linha da frente, começa na noite de 8 para 9, mas de madrugada as suas trincheiras sofrem um violento bombardeamento. Logo depois, a infantaria alemã desaba como uma avalancha sobre os Portugueses.

A espionagem germânica escolhera o momento vital para romper as linhas inimigas no elo mais frágil. A derrocada de La Lys é clamorosa. Ao fim do dia, as perdas portuguesas em mortos, feridos e prisioneiros totalizam 327 oficiais e 7089 praças, mais de um terço da divisão. O CEP nunca se recomporá.»1

No próximo dia 9 de Abril de 2018 celebra-se o centenário da Batalha de La Lys. Outras batalhas na I Grande Guerra Mundial.

 

O Soldado “Milhões”

O mais improvável dos heróis portugueses do front, o soldado Aníbal Milhais, vai de Murça [distrito de Vila Real] para se deitar atrás de uma metralhadora em Huite Maison, protegendo o seu pelotão em retirada do inferno de La Lys. Aninhado em local estratégico, junto a um canal e uma ponte, aí permanece a cobrir a fuga de Portugueses e Escoceses, sustendo os alemães durante quatro dias, sozinho e, ao que se conta, sem comer.

O transmontano empreende depois uma caminhada de 35 quilómetros sempre agarrado à sua arma, que trata por «menina». Pelo caminho, ainda recolhe uma criança de uma casa em ruínas, deixando-a na primeira aldeia habitada que encontra. Ao chegar ao acampamento português, o comandante profere a frase que lhe dará o cognome: «Tu és Milhais mas vales milhões.» É dos poucos portugueses que ainda voltarão ao combate. Aníbal «Milhões» será o único praça do Exército Português na Grande Guerra a receber a mais alta condecoração: a Torre e Espada de Valor e Mérito.»1

 

1 in Vieira, Joaquim, “Portugal – Século XX – Crónica em Imagens – 1910-1920”

Imagem de destaque