Tradições das Beiras durante a Quaresma

 

tradições que nunca mudam, ou mudam pouco. Disto é exemplo o que se passa durante a Quaresma e com mais incidência na Semana Santa em algumas das aldeias do distrito de Castelo Branco. As gentes locais vestem-se a rigor e recriam alguns dos momentos que antecederam a Paixão de Cristo. Mulheres e homens encarnam com fé as personagens mais importantes da vida de Cristo e recordam as alegrias e, sobretudo, as dores sentidas nos momentos mais dramáticos que antecederam a morte na cruz. Em quase todas as localidades do concelho de Idanha-a-Nova também em Proença-a-Velha e em algumas freguesias de concelho de Covilhã e de Belmonte – ainda se faz a Encomendação das Almas.

Uma tradição que leva os fiéis a procurar, por volta da meia-noite, o ponto mais alto das suas localidades para aí proferirem algumas ladainhas, seguidas de um Pai-Nosso. O remate é feito com o sino da igreja que repica em sonoridades próprias para a solenidade do momento.

Mas há localidades, como na cidade da Covilhã ou na aldeia de Sobral do Campo, perto de Castelo Branco, onde se realizam durante a Semana Santa tradicionais procissões nocturnas, representando os passos de Cristo até ao sacrifício na cruz. A população local adere às cerimónias: uns vestem-se como os soldados romanos, outros tocam os adufes e há ainda outras figuras que representam as Santas MulheresMaria, Madalena e Maria de Cléofas. Não falta mesmo a personagem que faz de Verónica, a mulher que segundo a tradição cristã limpou a cara Cristo quando subia ao Calvário, ficando a imagem do senhor guardada para sempre no que se passou a chamar Santo Sudário. Em Monsanto, também se realiza a procissão da Paixão e do Enterro de Jesus.

Em Segura, no concelho de Idanha-a-Nova, a Quinta-feira Santa é um dia muito especial. Mal começa a raiar o sol já andam os homens da localidade a cobrir as lajes de granito do adro da igreja com ramos de alecrim. Ao princípio da tarde inicia-se a celebração litúrgica com a cerimónia do lava-pés, com os irmãos da Misericórdia a entrarem de gatas e em silêncio pela porta da sacristia, e a saírem depois, igualmente de joelhos. Com o cair da noite chega o momento da «procissão do encontro», uma cerimónia simbólica e muito dramática onde se faz o encontro de Maria com Jesus na altura da chegada ao Calvário. Ao alvorecer do dia seguinte, e numa evocação dos velhos ritos de purificação, os irmãos da Misericórdia queimam os ramos de alecrim cortados no dia anterior, cerimónia a que se segue a Via-sacra e a procissão do enterro de Cristo.

A partir do Domingo de Páscoa dá-se início às cerimónias de festa e de alegria. A festa dos Bodos, altura em que se confeccionam almoços para a comunidade, espalham-se por várias aldeias e toda a população se reúne não só à volta da do lume para a confecção dos alimentos, como ainda para depois saborearem na rua os petiscos entretanto preparados. O ponto alto destas festas acontece em Idanha-a-Nova com a tradicional romaria da Senhora do Almortão, na segunda-feira a seguir à Páscoa.

Fonte: GUIA ESSENCIAL – Expresso

 

“Amenta das Almas” de São Romão (Seia – Beira Alta)

Todos os Sábados durante a Quaresma, a partir da meia-noite, em cada encruzilhada de São Romão, em Seia – Beira Alta, pessoas de vestes negras e de caras tapadas percorrem a vila entoando cânticos da “Amenta das Almas” e recolhendo esmolas.

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A Quaresma, antigamente, no Alto Douro

A tradição repete-se anualmente, sem se perder a essência do costume. Diz quem se lembra, que antigamente havia um maior respeito, mas o importante é que estas tradições não se esbatam com o tempo e se mantenham enraizadas nas suas origens. Entre as tradições cristãs dos meios rurais em vias de extinção situa-se a “Amentação das Amas”, que significa «lembrar os nomes dos mortos e encomendá-los a Deus», uma tarefa que ocupa grupos de pessoas na Quaresma, cantando e rezando pelas ruas da vila, em sufrágio dos familiares ou vizinhos falecidos.

Durante a Semana Santa, os populares cânticos são entoados todos os Sábados à noite, sem música e só com a voz a ecoar por toda a vila. Em cada encruzilhada aparecem homens e mulheres de vestes pretas, xailes compridos e capas serranas, em tons escuros. Quanto mais escuro, maior o luto pela morte. Conta a tradição que todos devem andar com a cara tapada, tanto os que entoam os cânticos, como os habitantes que atiram as esmolas desde as suas casas. É que se mostrarem o rosto podem ser julgados pelo «peso da mão de Deus», pese embora esta regra da cara tapada hoje já não ser levada tão a sério como antigamente. Mas as vestes negras e os rostos cobertos simbolizam também o tempo a que se reporta esta tradição, quando ainda não havia luz eléctrica, e significam ainda o respeito ao próprio cântico. A tradição diz também que nos primeiros quatro sábados devia cantar-se o “Grito das Almas” e nos seguintes, até ao oitavo sábado, canta-se a “Amenta das Almas”, apesar de ambos os cânticos terem o mesmo significado. No intervalo de cada quadra, há uma campainha que impõe o silêncio e exige a oração do Pai-Nosso e assim sucessivamente.

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