A identidade do povo nos adornos e insígnias militares

Desde a mais remota antiguidade, o Homem criou uma associação com outras forças da natureza para se dotar de poderes de invencibilidade, a fim de se defender e, ao mesmo tempo, impressionar qualquer intruso ou elemento ameaçador. O recurso à imagem de força ou de astúcia dos animais representa apenas um desses aspectos, ainda recorrente.

Em consequência, também as forças militares de todos os países utilizam uma série de adornos e distintivos e cumprem um conjunto de rituais que remetem para tradições guerreiras do povo a que pertencem, os seus sucessos históricos ou batalhas que partilharam com outros povos.

A típica boina basca foi adoptada, sob diferentes cores, pelas forças militares de muitos países, como forma de homenagear a heroicidade de um povo que infligiu uma derrota aos exércitos de Carlos Magno quando estes atravessavam os Pirenéus.

As três listas na alcaxa dos marinheiros evoca as três batalhas que Lord Nelson travou contra a armada de Napoleão, e o óculo usado pelos oficiais de marinha de vários países, em alusão aos Descobrimentos iniciados pelos portugueses e nos quais vieram também a participar.

E ainda os kilt usados pelos soldados escoceses ou os gorros e as botas dos cossacos constituem apenas alguns adornos que aludem à sua própria identidade ou seja, ao povo a que pertencem.

Também os jogos tradicionais são aproveitados como exercício físico e forma de treino dos soldados como sucede com o levantamento de pesos, os quais são bastante populares no País Basco e na Europa Central.

Do mesmo modo, o emprego da gaita-de-foles, bombos e outros instrumentos de percussão nos permitem associar aos costumes pastoris entre nós representados nomeadamente pelos gaiteiros e zés pereiras minhotos ou ainda, pela sua cadência marcial, aos bombos de Lavacolhos, do Fundão.

O espírito guerreiro atinge porventura o seu apogeu na representação das danças dos pauliteiros de Mogadouro e de Miranda do Douro.

A organização social durante a Idade Média assentava na existência de três classes distintas – o Clero, a Nobreza e o Povo.

Assim, enquanto uns combatiam e outros rezavam, cabia ao povo trabalhar e providenciar o sustento para os que, encontrando-se investidos noutras funções, não podiam dedicar-se a essa tarefa.

A participação na guerra não se encontrava, pois, ao alcance de um qualquer, constituindo, por assim dizer, uma actividade nobre por excelência e que exigia, não apenas o conhecimento das artes militares, como ainda estar imbuído dos ideais da cavalaria.

Apenas com a implantação do regime republicano e a difusão dos direitos e deverem de cidadania, o serviço militar se tornou extensível a todos os cidadãos independentemente da sua origem social.

Convém sublinhar que até então a noção de povo apenas contemplava uma determinada classe social e não abrangia o conjunto da população de um determinado país.

A guerra revestia-se, então, de um cerimonial que levava os que comandavam as hostes em confronto a apresentarem-se no campo de batalha com toda a sua dignidade, envergando as suas melhores vestes de forma a, desse modo, se entregarem à morte ou à glória.

Tratava-se sempre de um momento particularmente elevado nas suas vidas e, em circunstância alguma poderiam ser apanhados desprevenidos, qualquer que fosse o desfecho da contenda.

Apesar do número de vítimas mortais que frequentemente fazia, a guerra ao tempo da Idade Média não possuía ainda o carácter industrial e desprovido de ideais que a sociedade moderna veio a estabelecer, sendo por vezes resolvido através de um mero torneio como sucedeu junto ao vale do rio Vez, de onde originou a alusão a Valdevez e à vila aí situada.

Porém, ao longo da História, nem sempre assim sucedeu e também o povo era por vezes chamado a combater, constituindo-se em milícias que convocadas pelos concelhos.

Não sendo experimentado no manejo de outras armas, cabia-lhe geralmente a formação de regimentos de lanças, muitas das vezes com recurso a chuços e outras alfaias agrícolas que podiam servir como armas de guerra.

A imagem da padeira de Aljubarrota é, aliás, ilustrativa da participação do povo nos combates então travados contra os castelhanos.

Também, por ocasião das invasões francesas, coube ao 4º Conde da Feira, D. Miguel Pereira Forjaz, organizar as milícias populares armadas de lanças para fazer frente às tropas invasoras. E assim temos, por vezes, uma utilização diferenciada de ferramentas em princípio destinadas ao trabalho.

Quando, no contexto da Primeira Guerra Mundial foi para os campos entrincheirados da Flandres enviado o Corpo Expedicionário Português, ficou célebre a malograda Brigada do Minho pela sua tenacidade ao resistir ao ataque das tropas alemãs, entretanto reforçadas com as que na Frente Oriental combatiam o exército russo até à sua capitulação, por ocasião da revolução dos sovietes.

Os soldados que a integravam eram quase exclusivamente minhotos e o estandarte que levaram consigo havia sido bordado por hábeis mãos de senhoras daquela região. E os característicos casacos feitos de lã de ovelha que os protegiam do áspero frio levavam-nos a serem motivo de chacota por parte dos soldados alemães.

O desenvolvimento tecnológico e industrial veio, no entanto, tornar o soldado numa espécie de operário da guerra, reduzindo-lhe os adornos e distintivos de modo a acrescentar-lhe eficácia e poder obter melhores resultados no campo de batalha.

Mas, nos momentos solenes em que é convocado a desfilar em público, eis que aparece de novo ostentando toda a sua simbologia castrense, invocando qualidades pessoais e de combate, a sua identidade étnica e os feitos gloriosos do seu povo.

Em síntese, também nos adornos e insígnias militares encontramos elementos distintivos da nossa cultura tradicional a explicar uma identidade de pertença a um povo ou, para ser mais preciso, a uma Nação!

(Na página seguinte pode ver fotos ilustrativas do texto.)

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História | Imagem de Anthony Scanlon