Almanaque – publicação de periodicidade anual

Almanaque – o que é?

Um almanaque é uma

1.- Publicação de periodicidade anual com variável número de páginas – que pode ir desde as dezasseis habituais nos folhetos de cordel até mesmo abranger algumas centenas -, a qual pode caracterizar-se:

a) quanto aos seus objectivos, por ser obra prática, de fácil e permanente consulta;

b) quanto à sua estrutura, por apresentar-se muito variada, embora as diferentes matérias se organizem por referência a uma tábua cronológica ou calendário, em que se fazem anotações religiosas (festas, santos), se indicam as principais feiras e arraiais, se registam as fases da Lua;

c) quanto à natureza dos conhecimentos que veicula, por abranger desde dados astronómicos e meteorológicos, efemérides, ou, ainda, curiosidades, conselhos práticos, mezinhas, pequenas notas sobre acontecimentos, fenómenos ou personagens, até notas astrológicas («juízo do ano», horóscopos), anedotas, adivinhas, adágios, provérbios, quadras e mesmo algumas poesias.

A sua função na vida quotidiana dos vários públicos a que, ao longo dos séculos, veio a dirigir-se deverá ser entendida como correspondente à exercida hoje em dia por três tipos de publicações auxiliares: o calendário, o anuário e a agenda.

As origens do vocábulo “almanaque”

2.- Têm sido aventadas diversas hipóteses para a origem do vocábulo [almanaque] – ou greco-egípcia ou árabe – e significará, segundo alguns autores (Geneviève Bollême), «a conta», «o cômputo», e, segundo outros (J. Pedro Machado), «lugar onde o camelo ajoelha», «estação», «região», «clima», ou, ainda de acordo com outras opiniões, «quadrante solar».

Julgamos que melhor será considerar «almanaque» como designação de uma prática específica, importada para o Ocidente, forma aculturada do conjunto de dados com que, nalgumas cortes orientais, era hábito os astrólogos presentearem os soberanos no início de cada ano.

A preocupação dominante seria o fornecimento de tábuas cronológicas, com a indicação do movimento dos astros, sobretudo do Sol e da Lua. Estas tábuas, que podemos considerar como os antecedentes dos almanaques propriamente ditos, eram conhecidos do Ocidente nos finais da Idade Média. Tinham sido elaboradas por astrólogos árabes e adaptadas depois por judeus ou conversos (segundo Luís de Albuquerque).

Assim, as tábuas preparadas por Al-Kvarismi (século IX) foram adaptadas por Malesma e, no século XII, traduzidas em latim por Adelardo de Bath. Conforme refere ainda Luís de Albuquerque, o primeiro destes almanaques redigido em português foi o Almanaque Perdurável, que, fazendo parte de um códice da Biblioteca Nacional de Madrid, data da primeira metade do Século XIV.

Como designação, «almanaque» veio com o tempo a impor-se a outras que lhe eram equivalentes (mas que isoladamente sobreviveram até ao nosso século), tais como reportório, folhinha, endimião, calendário, lunário, prognóstico, sarrabal ou mesmo diário.

O aparecimento da imprensa permite a difusão dos almanaques

3.- Se, como vimos, os almanaques já existiam sob forma manuscrita, o aparecimento da imprensa permitirá, como é óbvio, que eles comecem a difundir-se, iniciando, assim, a sua progressiva aceitação por um público cada vez mais vasto ou por receptores muitíssimo variados.

Na Alemanha terá aparecido o primeiro almanaque impresso, datado de 1455, ao qual se seguiram, sobretudo após 1464, alguns almanaques corporativos. De 1475 é o almanaque de Regiomontanus, editado em Nuremberga. Em 1491 publica-se, desta feita em França, o célebre Grand calendier compost des bergers, cuja fortuna se há-de prolongar na sua adaptação popular em folhetos de cordel.

Também em Portugal foi no século XV que apareceram os primeiros almanaques impressos. A eles (almanaques) se refere Gomes Eanes de Zurara na Crónica da Tomada de Ceuta (cap. 58), que, como é sabido, se encontrava terminada em 1450. No entanto, o primeiro de que temos notícia segura é o Almanach Perpetuum, de Abraão Zacuto, impresso em Leiria no ano de 1496: cingia-se ainda a fornecer tábuas astronómicas e indicações para sua utilização. (…)

É no séc. XIX que os almanaques se impõem

Mas é no século XIX, sobretudo na sua segunda metade, que os almanaques se impõem em quantidade e incontestável importância, se bem que já muito distanciados do avanço científico e técnico.

De acordo com os seus públicos, podem ou continuar a ser um pequeno folheto, dirigido à população rural e dos arredores das cidades, ou então aumentar o número de páginas, tornando-se num instrumento de divulgação de conhecimentos, quer para um público geral, mais burguês e citadino, quer junto de algumas camadas sociais diferenciadas por ideários políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos.

Se para a primeira classe de almanaques encontramos as designações (uma delas ainda hoje vigente) de Borda d’Água ou Almanaque Curioso ou Prognóstico (1804) ou também por regiões, os títulos respeitantes ao segundo conjunto aludido elucidam-nos dos respectivos destinatários ou dos seus fins noticiosos, estatísticos, facetos ou recreativos. (…)

Os almanaques atualmente

Hoje em dia, e se exceptuarmos os de feição mais popular, poucos são os almanaques que sobrevivem. Uma ou outra iniciativa tem pretendido ressuscitá-los – por exemplo, a tomada desde o ano de 1981 pela Direcção-Geral da Educação de Adultos.

Também pode acontecer, como no caso do brasileiro Almanaque Abril, que tome a forma de pequeno auxiliar enciclopédico com uma sintética informação actualizada em cada ano nos vários domínios que interessam a um público mais urbano sem tempo para demoradas leituras ou consultas.

4.- Publicação com origens pouco definidas, o almanaque atravessou uns cinco séculos, mantendo-se mais ou menos fiel aos objectivos práticos com que no século XV começou a ser impresso, conservando algumas das suas características que o tornam anacrónico para as nossas exigências contemporâneas, adaptando-se, no entanto, aos seus diferentes públicos.

Por isso mesmo, deve ser tido por instrumento importante na história da cultura: se não o é hoje em dia, em que o substituíram meios mais tradicionais – calendários e agendas – ou mais sofisticados – os dos meios de comunicação social -, o seu lugar não pode ser discutido no que respeita a um passado ainda recente.

Para esse tempo, continuam actuais as palavras de Eça de Queirós: «O almanaque é o livro disciplinar que coloca os marcos, traça as linhas dentro das quais circula, com precisão, toda a nossa vida social.» (1)

Outras informações

A Nova Enciclopédia Portuguesa apresenta esta definição de AlmanaqueLivro ou tabela contendo o calendário dos dias, semanas e meses do ano, fases da Lua, festas religiosas e outras indicações. Os almanaques foram conhecidos dos povos da Antiguidade, tendo aparecido os almanaques anuais com a invenção da imprensa.

Inicialmente, estes catálogos, escritos por médicos e astrólogos, traziam tanto indicações científicas, como prognósticos infundados e conselhos absurdos. O Almanaque Astronómico é uma publicação que contém as posições do Sol, da Lua e planetas para todos os dias do ano, e indicações dos vários fenómenos astronómicos.»

Genealogia dos Almanaques (2)

Decerto não parecerá deslocado ou impróprio falar, dizer, em «Almanaque», alguma coisa acerca de… almanaques: da sua origem, história e evolução.

Começaremos por anotar a derivação da palavra.

Querem uns que venha do grego «Almenachiton» e outros do árabe «Al-mana».

Mas, em qualquer dos casos, o étimo significa «cálculo».

Com efeito, os primeiros almanaques eram fundamentalmente tabelas astronómicas que davam o fruto do estudo e saber desse tempo acerca do Sol, da Lua, das estrelas, dos signos do Zodíaco, prognósticos do tempo ou da temperatura, etc.

Os primeiros almanaques (como tal os devemos ou podemos considerar) eram… de pedra, pois consistiam em inscrições, nas fachadas dos templos, indicando as principais festas litúrgicas e as preces adequadas a cada uma delas.

Foram estes os mais remotos antepassados do «Almanaque».

O Egipto dos Faraós já tinha almanaques, como os tinha a China dos Mings.

Qualquer deles resumia-se a uma simples colecção de conselhos astronómicos: uma espécie de calendário.

O mais antigo «Almanaque» de que temos notícia deve ter mais de 3.000 anos, pois foi encontrado junto de uma múmia egípcia.

Escrito em papiro, evidentemente, com os nomes dos dias a letra vermelha e diversos sinais, que eram prognósticos do tempo.

Encontra-se agora no Museu Britânico, em Londres.

Após a Idade Média

Durante a Idade Média o «Almanaque» (manuscrito, é claro) era de duas espécies: o das catedrais e o dos particulares (raros) – grandes senhoras feudais ou burgueses ricos.

A função do «Almanaque» era, por então, meramente calendarial – se me é permitida a expressão – dado que o princípio do ano não era estável ou não estava claramente fixado: tanto podia ser a 25 de Dezembro (Natal) como a 1 de Janeiro (Dia da Circuncisão de Cristo).

Carlos Magno determinara que o ano começasse em Março, mas esta determinação nunca foi estritamente cumprida, pois (nos «Almanaques» das catedrais, por exemplo) o começo do ano era fixado em Janeiro, pois os signos do Zodíaco, segundo o estudo da ciência do tempo, «dão a marcha do Sol, elevando-se, com ele, de Janeiro a Junho e descendo de Julho a Dezembro».

Crê-se que o primeiro «Almanaque» impresso conhecido seria o de Jorge de Pembach, impresso em Viena de Áustria no remoto ano de 1456.

Mas logo em 1476 apareceria o calendário-almanaque de Juan de Monteregio, edição da casa Pictor, Loslein & Ratdol – o primeiro que se publicou com título, sumário, local e data da impressão, etc.

Os primeiros almanaques impressos eram ilustrados com uma gravura simbólica do sucesso ou figura mais importante do ano anterior e abriam com o retrato do rei, obra, sempre, dos melhores gravadores do tempo.

Rabelais apresentou, em 1535, um «Almanaque» «calculado sobre o meridiano da nobre cidade de Lyon».

O célebre «Almanaque dos Pobres» fornecia todos os anos, desde o início do séc. XV, ensinamentos agrícolas, de higiene e… de moral.

Este «Almanaque» imprimiu-se até meados do séc. XVII.

O almanaque foi popularizado no século XVIII

No séc. XVIII, o «Almanaque» foi verdadeiramente popularizado, adaptando nomes tão variados como bizarros: «Almanaque das Musas», «O Amigo das Formosas», «O Divertimento das Coquettes», «O Passatempo das Mulheres Formosas», «O Pequeno Almanaque dos grandes homens» (1788), de Rivarol e Chapenitz, «Almanaque dos Jogos de Engenho» (1762), de Chevrier, etc.

Foi ainda durante o séc. XVIII que o «Almanaque» começou a ser utilizado para efeitos de propaganda política, aparecendo então vários: o «Almanaque das Pessoas Honradas», o «Almanach du Bonhomme Richard», o «Almanach des Sans-Cullotes», o «Almanach du Pére Gerard», o «Almanaque de Callot d’Herbois», o «Almanaquede Sylvain Marechal», o «Almanach d’Abbé Mulot», etc. – todos de propaganda e inspirados pela Convenção francesa.

Um dos mais afamados e duradouros almanaques deve ser o «Almanaque de Gotha», que se publica desde 1763, editado em francês e alemão e primitivamente com o título de «Calendário da Corte».

Em Portugal

Entre nós, alguns almanaques marcaram posição destacada ou historicamente notável.

Destes apontarei tão somente três, os três mais notáveis de que tenho conhecimento:

– «A Folhinha da Terceira para o ano de 1832»,

– o «Almanaque de Camões» (1880)

– e o «Almanaque Encyclopedico», sonho-realidade de Eça de Queiroz.

«A Folhinha da Terceira» é uma publicação hoje raríssima, editada na ilha Terceira, durante a ocupação liberal, por Simão José da Luz Sariano.

A colaboração histórica era de José António Guerreiro (um dos membros da Regência) e a geográfica de Bernardo de Sá Nogueira.

Consta de 143 páginas e uma de índex, impressa em corpo 6.

Diz-se que foi por este almanaque que a rainha D. Maria II pessoalmente ensinou a ler os seus filhos.

Afirmou-o o próprio Sá da Bandeira, observando com prazer esta prova de atenção ou reconhecimento da rainha por quem tanto tinha trabalhado e tanto se sacrificara para lhe conquistar e dar o trono.

Tipo de artigos

Já agora, visto o seu valor e raridade, sempre darei um apontado do seu conteúdo: depois do calendário segue-se a parte histórica, que consta dos seguintes artigos:

– Do reino de Portugal e seus domínios;

– Estado da Nobreza; Estado do Clero; Estado do Povo;

– Causas do prodigioso engrandecimento da realeza;

– Decadência do estado da Nobreza;

– Decadência do estado do Clero;

– Decadência do estado do Povo;

– Leis e Diplomas fundamentais da monarquia portuguesa;

– Tratamento dos reis de Portugal;

– Títulos do filho primogénito d’ el-rei de Portugal;

– Catálogo dos reis de Portugal.

A parte geográfica consta dos seguintes artigos:

– Notícia geográfica portuguesa;

– Arquipélago dos Açores; Arquipélago da Madeira; Arquipélago de Cabo Verde; Bissau e Cacheu; Costa da Mina; Arquipélago da Guiné; Costa de Loango; Angola a Benguela; Governo de Moçambique; Estado da Índia; Costa da China; Timor e Solor.

Seguem-se ainda estes artigos:

– Épocas mais notáveis do regime constitucional em Portugal desde 1826;

– Extracto dos principais actos da regência de Portugal e Algarves, instalada na ilha Terceira em nome de S. M. a Sr.ª D. Maria II;

– Vitórias principais das tropas constitucionais sobre os rebeldes até 1829;

– Campanha dos Açores.

No ano anterior ( 1831) havia sido já publicada «A Folhinha da Terceira», de que se fizeram duas edições, mas esta não tem o merecimento nem a raridade daquela.

O «Almanaque de Camões» foi posto à venda no dia 3 de Junho de 1880.

Era colaborado por Pinheiro Chagas, Gervásio Lobato e António Feliciano de Castilho.

Publicou-se apenas nesse ano comemorativo do centenário de Camões, só a ele se referindo.

E … custava 200 réis!

Finalmente…

Para fecharmos esta tripla referência, duas palavras acerca do «Almanaque Enciclopédico», que Eça de Queiroz organizou e apresentou em 1896 e para o qual escreveu uma Introdução (a abrir o I volume) que seria depois arquivada em «Notas Contemporâneas».

Lá encontrará essa maravilha de graça, que não destoa das melhores páginas do Mestre, quem quiser saber algo mais ou mais fundamente acerca de «Almanaques».

Nos séculos XIX e XX o «Almanaque» proliferou e criou raízes.

Serão centenas (se não milhares) os almanaques publicados nestes dois últimos séculos, até entre nós, desde os popularíssimos «Seringador» e «Borda d’Água» até a esse magnífico «Almanaque Bertrand», verdadeira enciclopédia que foi a última obra do operoso e ilustre homem de letras o general Fernandes Costa.

Brandão de Melo

Fontes:

(1) Texto retirado Dicionário Enciclopédico da História de Portugal – vol.2

(2) “Almanaque” – Agosto de 1960