As perseguições aos cristãos nos primeiros séculos

As perseguições desde Décio a Aureliano

Uma outra vaga de perseguição se desencadeia na época do valoroso Décio (249-251), preocupado em fazer o envelhecido Império retornar às virtudes e ao culto da antiga Roma.

No ano de 250, todos aqueles que, no território do Império, gozam do direito de cidadania romana são obrigados a manifestar expressamente (através de um sacrifício, uma libação ou a participação numa ceia sagrada) sua adesão à religião oficial; certificados (os libelli) atestarão o fato; os contraventores poderão sofrer a pena de morte.

A aplicação desse édito provoca não poucas renegações, mas também encontrava resistências que dão origem a numerosos martírios em Roma, na Ásia, no Egito e na África.

Valeriano (253-260), através de dois editos, agrava essa legislacão, visando sobretudo a cabeça do corpo cristão: bispos, padres, diáconos. A Igreja da África é dizimada.

Sobrevêm oito anos de paz sob o reinado de Galieno (260-268), inimigo das desordens policiais.

Aureliano (268-275) não tem tempo de impor ao Império o seu sincretismo solar.

No tempo de Diocleciano

Quando, depois de dez anos de anarquia, Diocleciano assume as rédeas do Império (284), o mundo conhece um mestre cujas profundas reformas permitiriam a Roma uma última explosão de brilho.

Mas a vontade imperial de unificação administrativa e religiosa, a impossibilidade para os cristãos de associar o culto de Jesus ao rito da adoratio – essencial aos olhos de Diocleciano e de seu associado Maximiano – e o papel sempre mais importante desenvolvido pelo cristianismo na sociedade romana explicam suficientemente a duração (303-313) e a violência da última perseguição, à qual o nome de Diocleciano permaneceu definitivamente ligado.

Houve muitos martírios, ainda que, em muitos lugares, as ordens vindas de cima tenham sido amortecidas pelo enfraquecimento das posições pagãs ou pela coabitação fraternal entre pagãos e cristãos.

Seria ilusório querer enumerar os mártires dos três primeiros séculos, assim como os apóstatas, os lapsi, particularmente numerosos, parece, na Africa do Norte. Aqui, a severa hagiografia deve sobrepujar as mais belas lendas.

Os Atos e as Paixões dos mártires

Os Atos e as Paixões dos mártires – as mais antigas peças hagiográficas – foram por vezes retocados, num sentido edificante, a ponto de se transformarem em verdadeiras canções de gesta cíclicas, nas quais aparecem invariavelmente – tal como nos filmes de faroeste – os elementos da epopeia:

– o imperador malvado ou o procônsul dissoluto,

– o carrasco cuja mão treme,

– pretensas testemunhas oculares,

– interrogatórios prolixos e estereotipados,

– o terrífico arsenal de torturas,

marchas fúnebres…

Assim,

– os Atos de santa Cecília,

– de santa Tecla,

– de são Sebastião,

– a Paixão de são Juliano…

encontram-se entre os mais célebres desses pios romances

Mas nós contamos com suficientes testemunhos de primeira mão, cuja brevidade é garantia de autenticidade, para nos convencer que muitos cristãos mostraram-se corajosos diante da morte e que as Gesta Martyrum têm valor de apologia.

Em 177, por exemplo, uma carta-circular dirigida pelas igrejas de Lião e de Viena às igrejas da Ásia, relativa à morte do bispo Fotino e de seus companheiros – entre os quais a escrava Blandina -, fornece um relato sem ênfase mas individualizado dos sofrimentos dos cristãos.

Os Atos dos mártires de Cili – levados de Cili a Cartago em 180 – são um breve diálogo, provavelmente estenografado, entre o procônsul Saturnino e Speratus, porta-voz de seus humildes companheiros.

O mesmo tom de autenticidade pode ser encontrado nos Atos proconsulares de

– são Cipriano, bispo de Cartago (258),

– de são Frutuoso, bispo de Tarragona, e seus diáconos (259),

– de são Maximiliano, o conscrito de Tebessa (295),

– e de são Marcelo, o centurião, em Tingi (Tanger) (296),

– de são Filéas de Túnis (305), etc.

“Sangue de mártires é semente de cristãos”

Frequentemente se repete que o sangue dos mártires foi uma semente de cristãos.

Incontestavelmente, do ponto de vista etimológico, um mártir é uma testemunha: e o seu testemunho – por vezes voluntário – tem um valor apologético; tem também valor redentor, sendo uma vitória sobre o mundo e sobre Satã.

Considerado como o grau culminante da santidade, o martírio cerca seus eleitos de uma veneração de que é testemunho o fato de que a Eucaristia era – e ainda é – celebrada sobre seus túmulos.

Mas era a um testemunho perpétuo que cada um dos membros da Igreja cristã era chamado.

Fonte: “História da Igreja”, Pierre Pierrard (texto editado e adaptado)| Imagem