1 de abril – Dia das Mentiras ou Dia dos Enganos
Dia das Mentiras, Dia dos Bobos ou Dia dos Enganos
O Dia das Mentiras, celebrado a 1 de abril, é uma tradição popular amplamente difundida em vários países, caracterizada por partidas, brincadeiras e notícias falsas com intenção humorística. Também conhecido como “Dia dos Bobos” ou, em algumas regiões, “Dia dos Enganos”, este costume revela muito sobre a forma como as sociedades lidam com a sátira, a crítica social e o riso.
Uma das explicações mais conhecidas para a sua origem remonta à França do século XVI. Até então, em muitos locais da Europa, o início do ano era celebrado a 25 de março, coincidindo com o início da primavera — um período simbolicamente associado ao renascimento da natureza e à renovação da vida. As festividades prolongavam-se por vários dias, frequentemente até 1 de abril, e incluíam bailes, trocas de presentes e outras celebrações.
Com a reforma do calendário promovida pelo papa Gregório XIII, que instituiu o chamado calendário gregoriano, o início oficial do ano passou a fixar-se em 1 de janeiro. Esta mudança visava uniformizar o calendário no mundo cristão e corrigir desvios acumulados ao longo dos séculos. Em França, o rei Carlos IX adotou oficialmente esta alteração em 1564, determinando que o ano civil começasse nessa nova data.
Contudo, como frequentemente acontece com tradições profundamente enraizadas, a mudança não foi imediatamente aceite por toda a população. Muitos continuaram a celebrar o Ano Novo segundo o antigo calendário, entre o final de março e o início de abril. Este desfasamento deu origem a um fenómeno curioso: aqueles que mantinham o costume antigo passaram a ser alvo de troça. Eram apelidados de “bobos de abril” e tornaram-se o alvo de brincadeiras, como convites para festas inexistentes ou a oferta de presentes estranhos e sem sentido.
Com o passar do tempo, estas partidas foram-se institucionalizando e transformaram-se numa tradição anual. A prática espalhou-se rapidamente para outros países europeus, como a Inglaterra, e, posteriormente, para várias partes do mundo, assumindo diferentes designações e particularidades culturais.
Em diversos países…
Em França, o dia é conhecido como poisson d’avril (“peixe de abril”), sendo comum colar discretamente um peixe de papel nas costas de alguém sem que este se aperceba.
Em Itália, a expressão equivalente é pesce d’aprile.
Nos países de língua inglesa, a data é celebrada como April Fools’ Day, ou seja, “Dia dos Tolos de Abril”.
Já na Galiza, em Espanha, fala-se do “Dia dos Enganos”, designação que também se encontra em algumas regiões do norte de Portugal.
No contexto lusófono, há episódios curiosos associados a esta tradição. No Brasil, por exemplo, um dos primeiros registos remonta a 1848, quando o jornal “A Mentira” publicou a falsa notícia da morte do imperador D. Pedro II, desmentida apenas no dia seguinte — um exemplo claro do espírito irreverente da data.
Em Portugal, o Dia das Mentiras continua a ser assinalado com entusiasmo. Para além das brincadeiras entre amigos, familiares e colegas, os meios de comunicação social participam frequentemente na tradição, tentando criar a “peta” mais convincente ou original. Estas iniciativas, quando bem-humoradas e responsáveis, contribuem para um momento de descontração coletiva.
Mais do que simples partidas, o Dia das Mentiras reflete a importância do humor na vida social. Funciona como uma espécie de “válvula de escape”, permitindo questionar a realidade, brincar com a credulidade e, por vezes, até criticar de forma subtil certos aspetos da sociedade. No entanto, também levanta questões sobre os limites entre a brincadeira e a desinformação, especialmente num contexto contemporâneo marcado pela rápida disseminação de notícias falsas.
Assim, o Dia das Mentiras mantém-se como uma tradição viva, que atravessou séculos e fronteiras, adaptando-se às diferentes culturas, mas preservando sempre o seu elemento central: o riso partilhado e a arte de enganar — por um dia — sem causar dano.
Carta do Outro Mundo
Carta que se costumava mandar no dia 1 de Abril (conhecido também como 1º de Abril) às raparigas, na freguesia de Veiros:
“Salvé o dia em que te escrevo
Valha-me Nosso Senhor
Nesta data tão lembrada
Escrevo-te meu amor
Eu escrevo-te esta carta
Com sentimento profundo
Venho dar-te a notícia
Que cheguei ao outro Mundo.
Quando eu aqui cheguei
Muita gente cá estava
Só para ver como eu era
Até S. Pedro me esperava
………………………………………………….
É uma vida regalada
Esta vida de ser morto
Não preciso de trabalhar
Nem sequer matar o corpo
………………………………………………..” 1
A propósito do 1º de Abril
Presentemente, tornam-se cada vez mais raras as mentiras do 1º de Abril que tanto divertiam os nossos antepassados. Na verdade, passaram de moda, antes que fosse possível estabelecer, com exatidão, a sua origem.
A hipótese mais plausível é que seja a evocação deformada das prendas distribuídas nesse dia, quando o ano começava a 1 de Abril. Remontariam, assim, ao ano 1564, já que – pensa-se – foi nesse ano que o início do mesmo foi adiantado três meses!
Nesses tempos longínquos, as mais elevadas personalidades não desdenhavam mistificar os mais íntimos.
A Pequena História conserva, particularmente, a recordação de Pedro, o Cruel, rei de Aragão, que mandava instalar nos seus jardins um sistema de canalização clandestina e inúmeros crivos de regador para regar os visitantes de ambos os sexos.
Clássica, também, a farsa de que foi vítima no início do século XVII, o cândido conde de Grammont.
Num dia de Março, os amigos subornaram-lhe o criado de quarto e descoseram, apertaram e tornaram a coser os seus fatos e roupa interior. No dia seguinte, todos rodearam Grammont, sufocando, quase estrangulado e compadeceram-se dele:
– Que te aconteceu? – perguntaram pressurosos. Como estás inchado! Foi certamente alguma mosca que te picou ou, então, alguma aranha venenosa!…
Desvairado, o ingénuo chama o médico – também cúmplice – que submete Grammont a toda a espécie de terríveis tratamentos, até que, no fim do dia, chega um mensageiro que traz ao doente este bilhete: «Pega na tesoura e descose o gibão”»2
1 João Carlos Gonçalves de S. Couto, In «Recolha de Literatura Oral Popular da freguesia de Veiros» | 2 Almanaque Popular 2006

