Faróis são sentinelas do mar | Textos

Faróis são sentinelas do mar

Desde tempos imemoriais, a luta pela sobrevivência levou o Homem a trocar a terra firme pelo ambiente hostil do mar, aventurando-se na imensidão desconhecida – o mar é tão rico em alimento como é em perigos!

Disse o sábio grego Platão que “há três espécies de homens: os mortos, os vivos e os que andam no mar”. Com efeito, em relação a estes nunca se sabe realmente o seu destino, tais são os perigos que enfrenta.

É costume frequente, nas povoas de pescadores, as mulheres vestirem-se permanentemente de luto pois existe quase sempre um familiar próximo que não regressou da campanha junto com os seus camaradas: quando não foi o pai, terá sido um irmão, o marido ou o próprio filho.

Na praia, elas aguardam ansiosas pelo seu regresso. E, quando o mar se revolta e sobre ele um manto de nevoeiro cai, a sereia por eles chama e a vila se agita num alvoroço carregado de angústia.

O pescador arrisca a vida para do mar trazer o parco sustento da família – o lucro vai direitinho para os intermediários e para os luxuosos estabelecimentos hoteleiros onde o servem a preços impraticáveis. E, no entanto, quanto custará a vida de um ser humano?

“Ó mar salgado, quanto do teu sal…”

Por vezes, em dia de temporal, é à entrada da barra que a tragédia o aguarda, virando a embarcação ou espatifando-se contra o molhe. Que o digam os pescadores das Caxinas e de Vila Praia de Âncora. Como disse o poeta:

                                         Ó mar salgado, quanto do teu sal
                                         São lágrimas de Portugal!
                                         Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
                                         Quantos filhos em vão rezaram!
                                         Quantas noivas ficaram por casar
                                         Para que fosses nosso, ó mar!

Mas, quando regressavam de noite escura, avistavam geralmente ao longe uma sentinela vigilante que, protectora, os aguardava e conduzia até alcançarem a costa. Era uma luz cintilante que baloiçava, transportado pelas mãos de alguém que surgia como um anjo a indicar o local onde podiam, enfim, ancorar.

Essa luz era um farol que indicava a existência de terra firme e o navegante apenas tinha de seguir no seu enfiamento.

Desde o farol de Alexandria

Os faróis cuja designação provêm do termo grego Faros, em alusão à ilha próxima de Alexandria, onde foi erguido o famoso farol de Alexandria, eram inicialmente constituídos por meras fogueiras ou luzes de azeite destinados a avisar os navegadores da aproximação de terra ou outros perigos para a navegação.

Desde então, a sua evolução não mais se deteve, tendo dado origem a modernos equipamentos electrónicos dotados de curiosos sistemas de óptica, instalados em edifícios que, regra geral, constituem interessantes obras de arquitectura e se erguem nos sítios mais surpreendentes.

Foram estes equipamentos sempre de grande utilidade para os pescadores e navegadores em geral.

À entrada da barra, as luzes verde e vermelha indicam-lhes respectivamente o bombordo e o estibordo da embarcação. Estas noções de orientação foram criadas pelos portugueses durante as navegações que fizeram ao longo da costa africana e que entretanto se universalizaram.

Desde 1924, o funcionamento e manutenção dos faróis é da responsabilidade da Direcção de Faróis, um órgão da Marinha que se dedica nomeadamente à operação e manutenção das ajudas à navegação.

Porém, o aparecimento de novas tecnologias tem levado a que os faróis se tornem espaços museológicos com grande interesse sobretudo para os mais jovens, uma vez que constituem magníficas peças de óptica e relojoaria.

Para além de constituírem um espaço de memória de especial significado para as comunidades piscatórias e que deve ser preservado, pois os faróis foram desde sempre “sentinelas do mar” a vigiar pela segurança dos pescadores e dos navegantes em geral!

Nota: A imagem de destaque mostra o farol do Cabo Mondego, na serra da Boa Viagem, junto à freguesia de Buarcos.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História (texto editado e adaptado)