O Minho visto por José Malhoa | Textos e opiniões

O Minho visto por José Malhoa

Desde sempre, muitos foram os escritores, compositores e artistas plásticos que se inspiraram nas tradições populares para produzirem as suas obras, muitas das quais se tornaram célebres nos mais variados domínios da criação artística e literária.

Um desses artistas notáveis foi sem dúvida alguma o mestre José Malhoa. Com o seu estilo inconfundível, deixou-nos excelentes quadros da vivência campesina, alguns dos quais verdadeiros testemunhos de um época.

Entre as suas obras-primas saliento duas telas a óleo de grandes dimensões que foram produzidas por encomenda e que foram levadas para o Rio de Janeiro, tendo lá ficado até meados dos anos oitenta.

Trata-se dos quadros magníficos que dão pelo nome “As Vindimas” e “A Caminho da Romaria” cujas fotos aqui reproduzimos.

O Minho visto por José Malhoa | Textos e opiniões

A vida quotidiana no Entre-Douro-e-Minho

Ambas as telas reproduzem aspectos da vida quotidiana na região de Entre-o-Douro-e-Minho uma vez que apresentam elementos característicos inconfundíveis que a identificam como os trajes domingueiros de lavradeira que as moças levam a caminho da festa, os gaiteiros, o gado barrosão e a vinha de enforcado.

Revelam-nos ainda aspectos que um olhar menos atento poderão passar despercebidos, como alguns pormenores que se relacionam com o traje.

Afinal de contas, o artista conta o que viu, podendo o seu testemunho revelar-se precioso para quem pesquisa, ressalvando naturalmente a sua componente artística que pode levar o autor a acrescentar algo com a finalidade de enriquecer a obra que produz.

Com seis metros de altura, as duas telas foram pintadas a pedido do Comendador Seabra. Pessoa abastada da região de Aveiro, o qual as levou para o Brasil. Destinaram-se então a serem expostas na escadaria interior do seu palacete, sito no bairro Flamengo, razão pela qual os dois quadros são cortados em diagonal na parte inferior.

Venda em hasta pública

Há cerca de vinte anos foi o referido palacete demolido para dar lugar a uma nova edificação com numerosos andares mais ao gosto das cidades modernas e o seu recheio foi a leilão em praça pública.

O representante do Estado português que esteve presente, talvez por insuficiente preparação no domínio das artes plásticas, não se revelou grandemente interessado na sua aquisição. As referidas obras foram arrematadas por um conceituado antiquário de Lisboa, o Sr. Jaime Afra, entretanto já falecido, o qual gentilmente nos facultou as fotos que aqui divulgamos.

Durante muitos anos estiveram expostas no seu estabelecimento, nas proximidades do Príncipe Real. Atraindo os olhares curiosos sobretudo de quem se identificava de alguma forma com as imagens que ali se encontravam representadas, como é o caso do autor destas linhas.

Uma vez encerrada a referida loja de antiquário, desconhecemos o paradeiro das referidas telas. Uma visita relativamente recente ao Museu José Malhoa existente em Caldas da Rainha não nos revelou ali a sua existência. Resta-nos a esperança de que ainda se encontre em mãos portuguesas!