Península de Setúbal: o tesouro perdido

Entre a margem esquerda do rio Tejo e o estuário do rio Sado situa-se uma extensa península que é vulgarmente designada por Península de Setúbal.

De acordo com os vestígios paleontológicos e evidências geológicas, há alguns milhões de anos, as águas do rio Tejo atravessavam aqueles campos para irem desaguar provavelmente na Lagoa de Albufeira, até formarem posteriormente um delta e, por efeito das deslocações das placas tectónicas, vir a formar-se a foz no sítio onde actualmente a encontramos.

Com efeito, o rio Tejo é percorrido por uma falha sísmica que, além dos sismos que de forma cíclica atingem Lisboa, foi também responsável pela destruição da vila de Benavente, no início do século passado.

Defronte de Lisboa ergue-se o Pragal, onde o Cristo-Rei parece abraçar o rio Tejo e, rente às suas águas, os cais de Cacilhas e os estaleiros navais da Margueira que já foram os maiores do mundo.

Quem segue pelo cais do Ginjal em direcção à foz é invadido por um sentimento misto de espanto e tristeza ao contemplar a magnífica vista que dali se desfruta, a partir de um local onde a degradação e o abandono se sobrepõem a velhas memórias de pescadores e fragateiros.

Mais adiante, a Trafaria, a Cova do Vapor, o Porto Brandão e o Bico da Calha, onde as pequenas barcaças ainda largam para a apanha da amêijoa. A partir dali, a costa prolonga-se para sul, ao longo de muitos quilómetros de praias doiradas e areia fina, desde a Costa da Caparica até à Mata dos Medos, para além da Fonte da Telha.

Da Península de Setúbal fazem parte, nomeadamente, os concelhos da Moita, Alcochete, Montijo, Seixal, Sesimbra, Setúbal e Palmela. Nestes, podem-se encontrar praias acolhedoras, magníficas paisagens, excelente gastronomia, áreas florestais, zonas dunares e arribas fósseis, óptimas condições para a prática de desportos náuticos, a Reserva Natural do Tejo e do Sado, património edificado e tradições populares.

Paisagens lindíssimas na Península de Setúbal

A paisagem alterna entre a encosta verdejante da serra da Arrábida e o estuário do rio Sado, os sapais do rio Coina e as praias da Arrábida e da Costa da Caparica.

Recortam-se no azul luminoso do horizonte os castelos de Sesimbra e Palmela e o Convento dos Capuchinhos da Arrábida, o Santuário do Cabo Espichel e os moinhos de maré dos rios Tejo e Coina.

E não faltam os vestígios da presença romana em Setúbal, a magnífica vista panorâmica a partir do Forte de São Filipe e o encanto do Portinho da Arrábida.

A Mata dos Medos é caracterizada pelas suas arribas fósseis enquanto na zona do Cabo Espichel se preservam pegadas de dinossáurios.

Junto ao sopé aninha-se a graciosa vila piscatória e turística de Sesimbra e, um pouco mais a norte, a Lagoa de Albufeira surpreende-nos quando se fecha ao mar.

Em Alcochete pode admirar-se as pirâmides de sal que os marnotos formam entre as salinas. Ainda nadam golfinhos no estuário do rio Sado e nidificam os flamingos no rio Tejo, constituindo duas reservas naturais devidamente oficializadas.

Por altura das festas dos pescadores, na maior parte das vezes dedicadas a S. Pedro, como manda a tradição, largam-se toiros na Moita e em Alcochete. Para a Nossa Senhora do Cabo, no Cabo Espichel, e sobretudo para a Senhora da Atalaia, no Montijo, continuam a dirigir-se os círios que outrora levavam imensa gente proveniente de Lisboa.

Em Sesimbra, os pescadores enfeitam os barcos para saírem ao mar em procissão religiosa. Em muitas destas localidades, preservam-se velhas embarcações como as fragatas, agora empregues em passeios no rio Tejo.

São daqui as tortas e os famosos queijos de Azeitão, os vinhos moscatéis de Palmela, o choco frito e a sardinha de Setúbal, as caldeiradas à fragateira e a amêijoa à Bulhão Pato.

A calmaria das águas, na Moita, convida à prática desportiva, principalmente ao remo e à pesca.

Grande riqueza cultural

Também a actividade associativa e cultural é notável, registando-se um número considerável de colectividades, incluindo bastantes ranchos folclóricos que procuram preservar as tradições locais que incluem as que se encontram ligadas à agricultura e à pesca, os campinos, a extracção do sal e ainda os caramelos constituídos por uma comunidade que migrou das Beiras para os campos a sul do Tejo.

Porém, a extraordinária riqueza cultural, paisagística e patrimonial de toda a região que forma a Península de Setúbal não tem merecido a devida atenção, sendo tratada com o descuido que nos torna ainda mais pobres, de mão estendida pelo mundo, qual velho avarento que desbaratou as riquezas que na Índia e no Brasil um dia o fizeram na mais rica e poderosa das nações!

Na página seguinte, pode ver diversas imagens da região.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História