Os três Santos de Junho – Religiosidade popular

Santos de Junho

O mês de Junho põe Portugal em festa: a 13 é Santo António, a 24 São João e a 29 São Pedro. A denominação de santos “populares” é tradicional e exacta: os Santos de Junho são, com S. Sebastião, os mais festejados em Portugal.

É o que resulta do recenseamento das festas populares, terminado em 1989 em todo o país, a que responderam 74% das paróquias. Sem contar com as festas de Natal e de Páscoa, realizavam-se, no ano de 1987, nas paróquias respondentes, 6597 festas.

As festas de S. António e S. João são, segundo os estudiosos, “festejos da existência“. Por isso eles são casamenteiros.

De resto, na forma como o povo os festeja, sobretudo S. João, designadamente no Porto e em Lamego, por exemplo, não se sabe, muitas vezes, o que há ali de especificamente cristão.

Mas o facto possivelmente não resulta de que os tempos estão mudados, ou de que a fé é pusilânime, mas de que, antes de serem cristãs, estas festas celebravam os ciclos da vida, evocando e propiciando os seus princípios.

Independentemente dos conteúdos especificamente cristãos que lhe estão associados, as festas dos santos populares são o pretexto para evocar e exaltar a vida que o sol, no solstício, traz consigo. Esta é efectivamente a conotação primeira da celebração, aquela que, de resto, tem mais ressonâncias antropológicas.

Basta recordar que, pelo S. João, se fazia em muitas localidades do país uma fogueira que impedia o sol de esmorecer no seu esplendor.

O natalis solis invicti

Operação cósmica semelhante tinha sido levada a cabo por ocasião do solstício de inverno em que se celebrava o “natalis solis invicti“, transformada posteriormente na celebração do nascimento de Cristo, com a única diferença de que, então, se tentava aviventar o sol.

E é interessante notar que a fogueira de S. João nem sempre era feita com os grandes cepos que se costumavam colocar na fogueira de Natal.

Pelo menos em Armamar, esse grande lumaréu era feito de ervas aromáticas – alecrim, bela-luz, esteva, rosmano, giesta e manjerona – possivelmente para dar ao sol os aromas que o Verão depositava nos frutos.

O culto a Santo António, estimulado pela fama de inúmeros milagres, tem sido ao longo dos séculos objecto de grande devoção popular por todo o mundo. É um dos santos de maior devoção de todos os povos e, sem dúvida, o primeiro português com projecção universal.

De Lisboa ou de Pádua, é para o mundo católico o santo “milagreiro“, “casamenteiro“, do “responso” e do Menino Jesus.

As festas populares de S. António, S. João e S. Pedro, estão, pois, enquadradas por um vasto mundo de referências que as relacionam com significados que, pouco tendo de cristão, são certamente tradicionais.