A Serração da Velha – Tradições da Quaresma

Serração da Velha

A “Serração da Velha” é uma atividade tradicional que se realiza em diversas localidades do nosso país, na quarta-feira da terceira semana da Quaresma.

Vamos apresentar informações sobre esta tradição na Freixianda (Ourém), no Alto Minho, em Carreço (Viana do Castelo) e na localidade de Vestiaria (Alcobaça).

A Serração da Velha em Freixianda – Ourém

Sob uma forma mais ou menos cristianizada, os povos modernos preservam tradições cujas origens pagãs atestam a sua antiguidade.

São disso exemplo as festas equinociais que anunciam a chegada da Primavera como sucede com o Entrudo e a Páscoa, as fogueiras de São João que celebram o solstício do Verão e ainda as saturnais romanas que foram substituídas pela quadra natalícia.

De igual modo, também a Serração da Velha continua a ser celebrada, ainda que por vezes sob a forma cristianizada da “Queima do Judas“, nalgumas regiões.

Na localidade de Freixianda, no concelho de Ourém, fomos encontrar no ano transacto uma curiosa forma de celebração, traduzida na realização de um peditório feito à noitinha, de porta em porta, acompanhado de um cântico, costume esse que apresenta algumas semelhanças com o tradicional cantar das Janeiras.

Através do rito, o ser humano participa na acção criadora dos deuses.

Portanto, através da Serração da Velha – ritual que invariavelmente tem lugar na quarta-feira da terceira semana da Quaresma – mais não se pretende do que celebrar o renascimento da Natureza. Também a expulsão dos demónios do inverno, nomeadamente através de manifestações ruidosas como a utilização de sarroncas, zaquelitraques e outros instrumentos musicais.

Ao invés do cristianismo, a crença antiga unia a vida à morte num ciclo de perpetuo renascimento, tal como ao Inverno sucede a Primavera.

O cristianismo haveria de fazer coincidir a Ressurreição do Senhor com a celebração da Primavera, tal como à data em que ocorriam as saturnais romanas e entre os povos mais antigos tinham lugar os cultos de adoração ao Sol foi atribuído o nascimento de Jesus, sem que no entanto exista qualquer comprovação bíblica.

A Primavera e o nascimento de nova vida!

Nesta quadra, o ovo pascal assume um particular significado por aquilo que simboliza. Tal como o coelho, o ovo representa a fertilidade e o nascimento de uma vida, razão pela qual ele aparece com frequência nos tradicionais folares ou sob a forma de chocolate.

Ainda actualmente, é costume os camponeses da Alemanha enterrarem ovos nos solos agrícolas convencidos de que tal rito é propiciador à fertilidade dos campos. É que os rituais antigos encontram-se intimamente ligados ao ciclo de vida dos vegetais.

Apesar de se tratar de diferentes versões de uma mesma celebração, os ritos da Serração da Velha e da Queima do Judas apresentam extraordinárias semelhanças, a mais importante das quais constitui a leitura do respectivo testamento que, em ambos os casos, é invariavelmente utilizado como arma de crítica social aceite por todos.

Localidades existem em que esta função se apresenta sob a forma e designação de “pulhas”. Tal como o jejum observado por cristãos durante a Quaresma e pelos muçulmanos no Ramadão pretende purificar o corpo e a alma do indivíduo, a crítica subjacente ao “Testamento” lido na Queima do Judas ou na Serração da Velha procura corrigir certos defeitos conhecidos entre a comunidade.

O folclore não compreende unicamente as formas de cantar e bailar do povo mas ainda as suas crenças e costumes mais genuínos. Os grupos folclóricos dignos desse nome devem saber preservar tais tradições, através da sua reconstituição em cenários tão reais quanto possíveis.

E, sobretudo, devem evitar que esses costumes e o respectivo cancioneiro caia no esquecimento, nomeadamente fazendo a recolha e procedendo à respectiva publicação. Quando assim procederem, terão feito um excelente trabalho em prol do folclore da sua região, merecedor do reconhecimento público.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

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