Natale Solis Invicti ou o Solstício do Inverno

A celebração do Natal

A celebração do nascimento de Jesus constitui, actualmente, uma festa que é vivida com grande grande intensidade pelo povo português. No entanto, apesar da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais.

Não obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente enraizadas no nosso folclore, revelando-se através das mais diversas manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e de um modo geral em todos os aspectos que envolvem tais celebrações.

Apesar de tudo, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns costumes genuínos do nosso povo. É que acontece com a reverência ao “Pai Natal“, agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as festividades decorriam exclusivamente em torno do “menino Jesus”.

Da mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais nevou…

As origens nórdicas do Pai Natal

Odin, rei do Asgard na mitologia nórdica, é para os povos escandinavos o mesmo que Zeus e Júpiter foi respectivamente para os gregos e os romanos.

Odin, ou Woden, quando não habita o seu palácio dourado, o Gladsheim, encontra-se no Valhala que é o “salão dos mortos“, entre os heróis, e onde pontificam as formosas valquírias, a quem compete manter permanentemente cheios os vasos de bebida que são feitos de chifre.

É ainda às valquírias que compete eleger os heróis e decidir a sua sorte no campo de batalha, quem haverá de morrer e, finalmente, conduzir os bravos ao Valhala. “Val” significa morto.

Por seu turno, Odin possui como companheiros inseparáveis dois corvos – Hugin e Munin – que representam respectivamente o Pensamento e a Memória, os quais voam diariamente através do mundo para lhe levarem as notícias acerca dos actos cometidos pelos humanos.

Uma vez convenientemente informado pelos seus corvos, Odin parte num trenó puxado por renas levando consigo presentes com que irá recompensar as boas acções praticadas ao longo do ano.

Eis o mito que verdadeiramente se encontra na origem da fabulosa crença do “Pai Natal“. Séculos mais tarde  foi adaptado pela Igreja Católica a uma versão mais cristianizada com a substituição de Odin por um corpulento bispo que distribuía presentes – São Nicolau.

Em qualquer dos casos, enxertos realizados nas tradições do nosso povo que durante séculos apenas conheceu a veneração ao “Menino Jesus”.

Os deuses da semana

Um dos aspectos que comprova o predomínio de antigas divindades pagãs constitui as designações dos diferentes dias da semana que se conservam nas mais variadas línguas europeias.

A título de exemplo, mencionamos os nomes em língua inglesa:

– Sunday (domingo) é consagrado ao deus Sol;

– Monday (segunda-feira) à Lua;

– Tuesday (terça-feira) a Tiro, deus da Guerra entre os nórdicos;

– Wednesday (quarta-feira) é o dia de Odin ou Woden;

– Thursday (quinta-feira) a Tor, deus do trovão;

 Friday (sexta-feira) a Friga, mulher de Odin,

– e, finalmente, Saturday (sábado) a Saturno.

Os dias da semana para os romanos e para os cristãos

Na senda iniciada pelos babilónicos, também os romanos consagravam os dias da semana aos sete maiores deuses do seu panteão, os quais eram o Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Saturno.

Entretanto, a Igreja veio a substituir as suas designações mitológicas por outras de origem eclesiástica, passando a ordenar os dias de forma sequencial: dies dominica (domingo), feria secunda, feria tertra, feria quarta, feria quinta e feria sexta.

Conservou o dies sabbati, que corresponde ao sabbatum hebraico, não sendo contudo celebrado como dia de descanso entre os cristãos.

Contudo, esta versão apenas prevaleceu na faixa ocidental da Península Ibérica – Portugal e Galiza – devido ao apostolado de S. Martinho de Dume, conservando-se nas demais línguas europeias as designações pagãs.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História