A Dieta de Worms (1521): Lutero, o Império e a Reforma Protestante

Dieta de Worms

A Dieta de Worms foi uma assembleia imperial convocada pelo imperador Carlos V e realizada na cidade alemã de Worms, em 1521, no seio do Sacro Império Romano-Germânico. O seu principal objectivo era tratar de assuntos políticos e religiosos urgentes, entre os quais se destacou o caso de Martinho Lutero, monge agostinho e professor de teologia, cujas ideias haviam desencadeado um profundo abalo na unidade religiosa da Cristandade ocidental.

Na época, a Europa vivia sob uma forte ligação entre poder político e autoridade religiosa. A Igreja Católica detinha enorme influência espiritual, social e económica, mas era também alvo de críticas crescentes devido a práticas como a venda de indulgências, o luxo do clero e a distância entre a hierarquia e os fiéis. Foi neste contexto que, em 1517, Martinho Lutero afixou as suas 95 Teses em Wittenberg, questionando sobretudo o valor espiritual das indulgências e defendendo que a salvação dependia da fé e da graça divina, e não de obras ou pagamentos.

As ideias de Lutero espalharam-se rapidamente graças à imprensa, provocando um debate intenso. Roma reagiu com firmeza: em 1520, o papa Leão X publicou a bula Exsurge Domine, condenando várias proposições de Lutero e ameaçando-o de excomunhão. Lutero recusou-se a retratar-se e acabou excomungado em Janeiro de 1521. Perante a gravidade da situação, Carlos V decidiu convocar Lutero à Dieta de Worms, garantindo-lhe salvo-conduto, para que pudesse responder publicamente às acusações de heresia.

Aqui estou; não posso agir de outra maneira. Que Deus me ajude. Ámen.

Perante a assembleia, composta por príncipes, nobres e representantes das cidades imperiais, Lutero foi confrontado com os seus escritos e convidado a retratar-se. Após um dia de reflexão, respondeu que não podia renegar as suas obras, a menos que fosse convencido pelo testemunho das Escrituras ou por argumentos racionais claros. A tradição atribui-lhe a célebre afirmação: “Aqui estou; não posso agir de outra maneira. Que Deus me ajude. Ámen.” Esta declaração simboliza a primazia da consciência individual iluminada pela fé, um dos pilares da Reforma Protestante.

A Dieta terminou com o Édito de Worms, que declarou Lutero fora da lei, proibiu a leitura e difusão dos seus escritos e autorizou a sua captura. Contudo, na prática, o édito revelou-se difícil de aplicar. Lutero foi protegido por Frederico, o Sábio, eleitor da Saxónia, que o acolheu no castelo de Wartburg. Aí, Lutero traduziu o Novo Testamento para alemão, contribuindo decisivamente para a difusão da Bíblia em língua vernácula e para a consolidação cultural do alemão moderno.

A Dieta de Worms marcou, assim, um ponto de não retorno. Em vez de silenciar Lutero, acabou por reforçar o movimento reformador e expor as tensões entre autoridade imperial, poder papal e consciência individual.

As suas consequências estenderam-se muito para além da Alemanha, abrindo caminho a profundas transformações religiosas, políticas e culturais na Europa. Mais do que um simples julgamento, a Dieta de Worms tornou-se um símbolo da ruptura da unidade religiosa medieval e do nascimento de uma nova era na história do cristianismo ocidental.