Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto – 27 de Janeiro
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, assinalado anualmente a 27 de Janeiro, constitui um momento solene de reflexão, homenagem e compromisso com a memória histórica da Humanidade.
Esta data foi oficialmente proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2005, escolhendo-se o dia em que, em 1945, o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polónia ocupada pelos nazis, foi libertado pelo Exército Vermelho. Auschwitz tornou-se o símbolo máximo da barbárie, do sofrimento humano e da capacidade de destruição resultante do ódio, do racismo e da desumanização.
Holocausto
O Holocausto — também designado pelo termo hebraico Shoah, que significa “catástrofe” — foi o genocídio sistemático de cerca de seis milhões de judeus, perpetrado pelo regime nazi e pelos seus colaboradores durante a Segunda Guerra Mundial.
Contudo, as vítimas do Holocausto não se limitaram ao povo judeu. Milhões de outras pessoas foram perseguidas, deportadas, escravizadas e assassinadas, incluindo ciganos (Roma e Sinti), pessoas com deficiência, prisioneiros de guerra soviéticos, opositores políticos, homossexuais, testemunhas de Jeová e outras minorias consideradas “indesejáveis” pelo regime nazi.
A ideologia nazi baseava-se numa visão distorcida e pseudocientífica da supremacia racial, que defendia a existência de uma suposta “raça ariana” superior. Este pensamento, alimentado por um antissemitismo profundamente enraizado na Europa, conduziu à exclusão progressiva dos judeus da vida social, económica e cultural, culminando na chamada “Solução Final”, um plano meticulosamente organizado para o extermínio total do povo judeu europeu.
Antes de chegar aos campos de extermínio, a perseguição fez-se sentir através de leis discriminatórias, como as Leis de Nuremberga de 1935, que retiraram aos judeus a cidadania alemã e lhes proibiram o exercício de diversas profissões.
Seguiram-se boicotes, confiscações de bens, violência física e psicológica, pogroms como a Noite de Cristal (1938), e a criação de guetos em cidades ocupadas, onde as condições de vida eram desumanas, marcadas pela fome, pela doença e pelo medo constante.
Os campos de concentração e extermínio
Os campos de concentração e extermínio — entre os quais Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Belzec, Majdanek e Chelmno — tornaram-se máquinas de morte industrializada. Milhões de pessoas foram assassinadas em câmaras de gás, executadas sumariamente, submetidas a trabalhos forçados até à exaustão ou utilizadas em experiências médicas cruéis. A dimensão do horror ultrapassa a capacidade de compreensão humana, deixando uma marca indelével na história contemporânea.
Recordar o Holocausto não é apenas um exercício de memória do passado; é um imperativo moral para o presente e para o futuro. O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto serve para honrar as vítimas, dar voz aos sobreviventes e reafirmar o valor da dignidade humana. À medida que o tempo passa e o número de sobreviventes diminui, torna-se cada vez mais urgente preservar os seus testemunhos, documentos e histórias, para que as gerações futuras compreendam o que aconteceu e porquê.
A negação e a distorção do Holocausto representam uma ameaça séria à verdade histórica e à convivência democrática. Negar o Holocausto não é apenas um ataque à memória das vítimas; é também uma forma de reavivar o ódio e o extremismo. Por essa razão, a educação desempenha um papel central na prevenção de crimes contra a Humanidade. Ensinar o Holocausto nas escolas, universidades e espaços públicos é essencial para promover o pensamento crítico, combater o racismo, o antissemitismo e todas as formas de discriminação.
Portugal
Portugal, embora não tenha participado directamente no conflito, não esteve completamente alheado dos acontecimentos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o país acolheu milhares de refugiados que fugiam da perseguição nazi, muitos deles judeus.
Figuras como Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, destacaram-se pelo seu humanismo ao conceder vistos que salvaram milhares de vidas, desobedecendo às ordens do regime de então. O seu exemplo recorda que, mesmo nos períodos mais sombrios da história, a coragem individual e a consciência moral podem fazer a diferença.
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto convida também a reflectir sobre a responsabilidade colectiva. O genocídio não ocorreu de forma súbita nem isolada; foi o resultado de um processo gradual de normalização do ódio, da indiferença perante a injustiça e da cumplicidade silenciosa de muitos. Como afirmou o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem recordar o passado estão condenados a repeti-lo”. A memória é, assim, uma forma de resistência.
Lembrar o Holocausto
Num mundo onde continuam a existir conflitos armados, perseguições étnicas e religiosas, discursos de ódio e exclusão social, a lembrança do Holocausto assume uma relevância renovada. O genocídio nazi demonstra até onde pode chegar a desumanização do “outro” quando os direitos humanos são ignorados e quando o Estado se transforma num instrumento de opressão e morte.
As cerimónias realizadas a 27 de Janeiro em todo o mundo — em escolas, parlamentos, museus e memoriais — são momentos de silêncio, leitura de nomes, acendimento de velas e partilha de testemunhos. Estes gestos simbólicos reforçam a ideia de que cada vítima teve um nome, uma vida, uma história interrompida. O Holocausto não foi apenas um número estatístico; foi a destruição de famílias, comunidades, culturas e sonhos.
Mais do que um dia de luto, esta data é também um apelo à acção. Recordar implica agir para que atrocidades semelhantes nunca mais voltem a acontecer. Significa defender os valores da democracia, da tolerância, da justiça e do respeito pela diversidade humana. Significa denunciar o antissemitismo, o racismo e todas as formas de ódio sempre que se manifestem, seja de forma explícita ou subtil.
O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto lembra-nos que a Humanidade é capaz do pior, mas também do melhor. Se o Holocausto revela os abismos da crueldade humana, revela igualmente a importância da empatia, da solidariedade e da coragem moral. Preservar a memória é honrar as vítimas e assumir um compromisso ético com o futuro.
Que o silêncio de Auschwitz continue a ecoar como um aviso permanente. Que a memória das vítimas seja uma luz contra a escuridão da intolerância. E que o “Nunca Mais” não seja apenas uma expressão simbólica, mas uma responsabilidade partilhada por todos.

