11.01.1890 – O Ultimato de Inglaterra a Portugal

O Ultimato britânico a Portugal

O Ultimato consistiu num lacónico telegrama enviado, em 11 de Janeiro de 1890, pelo governo inglês às autoridades nacionais.

Neste telegrama, exigia a imediata retirada das forças militares portuguesas estacionadas em territórios hoje correspondentes ao Zimbabwe e ao Malawi. No mesmo, ameaçava com uma intervenção militar, na ausência de resposta satisfatória por parte de Portugal.

Mais do que um simples episódio conflitual nas relações luso-britânicas, o Ultimato insere-se num complexo processo, só explicável mediante o seu enquadramento no duplo contexto, nacional e internacional, da época.

A segunda metade do século XIX (especialmente a partir dos finais da década de 70) assistiu a um forte expansionismo europeu em Africa, o qual, em última análise, correspondia às exigências do intenso crescimento das economias capitalistas europeias, no tocante a mercados e a matérias-primas.

Já no quadro do modelo de desenvolvimento socioeconómico (o fontismo) que Portugal vinha seguindo desde 1851, as colónias tinham um papel pouco mais que irrelevante, além de que à economia nacional não se colocavam os mesmos problemas e exigências das suas congéneres europeias.

No entanto, em época de corrida à África, era imperioso não desacertar o passo com os demais e salvaguardar os direitos históricos de Portugal. Multiplicam-se então as chamadas «expedições científicas» ao continente africano, redobram-se os esforços diplomáticos e em 1886 as pretensões coloniais portuguesas adquirem mesmo uma expressão bem definida, sob a forma do «mapa cor-de-rosa» da costa angolana à costa moçambicana, sob a bandeira portuguesa.

Portugal dá então início a várias tentativas de ocupação efectiva de territórios, lançando-se numa disputa colonial aberta com a Inglaterra. Foi a uma dessas tentativas que esta respondeu com o ultimato.

O aproveitamento republicano

A notícia do mesmo e do seu (inevitável) acatamento pelas autoridades portuguesas desencadeou uma enorme onda de indignação e de agitação popular, habilmente explorada pelos círculos republicanos, que levou ao exacerbamento dos sentimentos ideológicos nacionalistas e colonialistas (em progresso desde os anos 70).

Em termos estritamente coloniais, o ultimato não teve, porém, consequências tão desfavoráveis como vulgarmente se julga.

O tratado luso-britânico de 11 de Junho de 1891, se bem que sacrificando, em parte, Moçambique, confirmou a Portugal a soberania sobre extensos territórios (alguns até não reivindicados anteriormente) e significou a estabilização e consolidação das posições territoriais portuguesas no contexto das disputas internacionais pela partilha da África.

A crise desencadeada pelo ultimato e o tratado de 1891 estiveram, além disso, na origem do relançamento vigoroso e convicto de um projecto colonial (ausente desde o princípio do século), encarado então como a «fórmula mágica» do desenvolvimento nacional, em época de crise ideológica, política e económica da sociedade portuguesa finissecular. [J. Vic. S.]

Bibl.: Basílio Teles, Do «Ultimatum » ao 31 de Janeiro, Porto, 1900; Pilar Vasquez Cuesta, A Espanha ante o «Ultimatum», Lisboa, 1975; Valentim Alexandre, Origens do Colonialismo Português Moderno, Lisboa, 1979; Villaverde Cabral, Portugal na Alvorada do Século XX, Lisboa, 1979.

Fonte: Dicionário Enciclopédico da História de Portugal (vol.2) – Texto editado e adaptado

Mapa cor-de-rosa

Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal viu-se obrigado definir as fronteiras dos seus territórios ultramarinos e assegurar a sua ocupação, pelo que incentivou a sua exploração.

Nos acordos celebrados com a França e com a Alemanha, estes comprometiam-se a aceitar as pretensões portuguesas à posse do território que ligava Angola e Moçambique. O mapa do território ia desenhado a cor-de-rosa.

A Inglaterra não o aceitou, alegando que não havia ocupação efectiva desses territórios por parte de Portugal, mas só a zona costeira. Como resultado dessa rejeição, agravou-se o conflito com a Inglaterra, que apresentou um Ultimato a Portugal, em 1890.

Fonte: Dicionário Ilustrado do Conhecimento Essencial (texto editado e adaptado) | Imagem de destaque

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