A ceia à portuguesa – Eça de Queirós

“Na sala do Gago, ao cimo da escada esguia e íngreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa alumiada por dois candeeiros de petróleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada.

Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos Bravais e pelas emoções do voltarete, em que ganhara dezanove tostões ao Manuel Duarte – começou por uma pratada de ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu “frango de doente”, clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmelada: e através deste nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do “Titó”, amaldiçoara o vinho novo do abade.

À sobremesa apareceu o Videirinha, “o Videirinha do violão”, tocador afamado de Vila-Clara, ajudante de farmácia, e poeta com versos de amor e de patriotismo já impressos no “Independente de Oliveira”.

Jantara nessa tarde, com o violão, em casa do comendador Barros, que celebrava o aniversário da sua comenda: e só aceitou um copo de Alvaralhão em que esmagou um ladrilho de marmelada “para adocicar a goela”.

Depois, à meia-noite, Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um café “muito forte, um café terrível, Gago amigo!, um café capaz de abrir talento no senhor comendador Barros!”

Era essa a hora divina do violão e do “fadinho”.

E já o Videirinha recuara para a sombra da sala, pigarreando, afinando os bordões, pousado com melancolia à borda de um banco alto.

– A “Soledad”, Videirinha! – pediu o bom “Titó”, pensativo, enrolando um grosso cigarro.

Videirinha gemeu deliciosamente a “Soledad”:

Quando fores ao cemitério
Ai Soledad, Soledad! …

Depois, apenas ele findou, aclamado, e enquanto acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovelos na mesa, os charutos fumegando conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos ingleses, preparada sorrateiramente (conforme clamavam, arrepiados de horror, os jornais da Oposição) pelo Governo do S. Fulgêncio.”

EÇA DE QUEIRÓS

(in “A Ilustre Casa de Ramires”) Texto editado | Imagem