São Tomás de Aquino: vida, pensamento e legado de um Doutor da Igreja

São Tomás de Aquino é uma das figuras mais luminosas da história do pensamento cristão e da filosofia ocidental. Teólogo, filósofo e frade dominicano, foi proclamado Doutor da Igreja pelo seu contributo excecional para a sistematização da teologia católica e pela harmonização entre fé e razão. O seu pensamento continua, séculos depois, a influenciar a Igreja, a filosofia e o diálogo entre ciência, metafísica e teologia.

Vida e formação

São Tomás de Aquino nasceu por volta de 1224 ou 1225, no castelo de Roccasecca, no Reino da Sicília (atual Itália), numa família nobre ligada ao Sacro Império Romano-Germânico. Ainda criança, foi enviado para a abadia beneditina de Monte Cassino, onde recebeu a sua primeira formação intelectual e espiritual. Mais tarde, prosseguiu os estudos na Universidade de Nápoles, onde entrou em contacto com as obras de Aristóteles, recentemente redescobertas na Europa latina através de traduções árabes e gregas.

Contra a vontade da família, Tomás ingressou na Ordem dos Pregadores (Dominicanos), atraído pelo ideal de pobreza, estudo e pregação. A decisão provocou forte oposição familiar, chegando mesmo a ser mantido em cativeiro durante cerca de um ano. Contudo, a sua determinação manteve-se firme, revelando desde cedo uma personalidade serena, perseverante e profundamente orientada para a busca da verdade.

Estudou em Paris e Colónia, onde foi discípulo de Santo Alberto Magno, que cedo reconheceu o génio do seu aluno. É célebre a frase atribuída a Alberto Magno: “Chamam-no boi mudo, mas o mugido da sua doutrina ecoará por todo o mundo.”

Tomás lecionou em Paris e noutras cidades, escreveu de forma incansável e participou em importantes debates teológicos do seu tempo, num contexto marcado por tensões entre tradição cristã e filosofia aristotélica.

Obras principais

A produção intelectual de São Tomás de Aquino é vastíssima e notável pela clareza, rigor e profundidade. Entre as suas obras mais importantes destacam-se:

  • Summa Theologiae, a sua obra-prima, concebida como um manual sistemático de teologia para estudantes. Nela aborda Deus, a criação, o ser humano, a moral, Cristo e os sacramentos.
  • Summa contra Gentiles, escrita sobretudo para dialogar com judeus e muçulmanos, defendendo racionalmente a fé cristã.
  • Comentários às obras de Aristóteles, como a Metafísica, a Ética a Nicómaco e o De Anima.
  • Questões disputadas e opúsculos sobre temas específicos como a verdade, o mal, a alma e a lei.

Na Summa Theologiae, São Tomás afirma claramente o papel complementar da razão e da fé: “A graça não destrói a natureza, mas aperfeiçoa-a.” (Summa Theologiae, I, q.1, a.8)

Esta frase tornou-se um dos pilares do pensamento tomista e da teologia católica, sublinhando que a fé cristã não se opõe à razão humana, mas eleva-a.

Fé e razão: o coração do pensamento tomista

Um dos contributos mais duradouros de São Tomás de Aquino é a sua síntese entre filosofia aristotélica e teologia cristã. Para ele, a razão humana é capaz de alcançar verdades fundamentais sobre o mundo e sobre Deus, embora certas verdades — como o mistério da Trindade — só possam ser conhecidas pela revelação.

São célebres as “cinco vias” pelas quais São Tomás procura demonstrar racionalmente a existência de Deus, partindo da observação do movimento, da causalidade, da contingência, dos graus de perfeição e da ordem do mundo.

O próprio São Tomás escreve: “É necessário chegar a algum ser que seja causa de todas as coisas, e a esse chamamos Deus.” (Summa Theologiae, I, q.2, a.3)

Para Tomás, a verdade é una e tem origem em Deus, razão pela qual não pode existir contradição real entre fé e razão quando ambas são corretamente compreendidas.

Pensamento moral e político

Na moral, São Tomás desenvolve uma ética das virtudes, profundamente inspirada em Aristóteles, mas iluminada pela fé cristã. A felicidade humana consiste, em última instância, na visão de Deus, embora já nesta vida o ser humano possa orientar-se para o bem através da razão e da lei natural.

Segundo ele: “O bem é aquilo que todas as coisas desejam.” (Summa Theologiae, I-II, q.1, a.1)

No campo político, Tomás defende a importância do bem comum e considera que a autoridade política deve estar ao serviço da justiça e da dignidade humana, subordinada à lei moral.

Últimos anos e morte

Nos últimos anos de vida, São Tomás viveu uma experiência mística profunda que marcou decisivamente o seu percurso. Após uma visão ocorrida em 1273, deixou praticamente de escrever, afirmando: “Tudo o que escrevi me parece palha, em comparação com o que me foi revelado.”

Morreu a 7 de março de 1274, no mosteiro de Fossanova, quando se dirigia ao Concílio de Lião. Tinha cerca de 49 anos.

Foi canonizado em 1323 pelo Papa João XXII e declarado Doutor da Igreja em 1567 por São Pio V. Em 1879, o Papa Leão XIII recomendou oficialmente o seu pensamento como base da formação filosófica e teológica da Igreja.

A Igreja Católica celebra a sua memória litúrgica no dia 28 de janeiro.

Avaliações e citações sobre São Tomás de Aquino

Ao longo dos séculos, muitos autores reconheceram a grandeza do seu pensamento. Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca São Tomás no Paraíso, entre os grandes sábios da Igreja.

O Papa São João Paulo II, na encíclica Fides et Ratio, escreveu: “A Igreja vê em São Tomás um mestre de pensamento e um modelo do modo correto de fazer teologia.”

Também o filósofo Étienne Gilson, um dos grandes estudiosos do tomismo, afirmou: “São Tomás de Aquino é o maior génio filosófico que o cristianismo produziu.”

Por sua vez, G. K. Chesterton descreveu-o de forma paradoxal e sugestiva: “São Tomás não foi um pensador árido, mas um amante apaixonado da verdade.”

Legado e actualidade

O legado de São Tomás de Aquino permanece extraordinariamente atual. Num mundo frequentemente dividido entre racionalismo e fideísmo, o seu pensamento oferece uma via equilibrada, em que a fé ilumina a razão e a razão prepara o caminho para a fé.

A sua obra continua a ser estudada em universidades, seminários e centros de investigação, sendo uma referência incontornável para quem procura compreender a relação entre Deus, o ser humano e o sentido último da existência.

São Tomás de Aquino permanece, assim, não apenas como um Doutor da Igreja, mas como um mestre perene da verdade, cuja voz continua a ecoar no pensamento contemporâneo.