Trafaria: uma terra piscatória em declínio

Trafaria

O estudo da geologia revela-nos que o rio Tejo corria mais a sul indo desaguar aproximadamente no local que actualmente se designa por Lagoa de Albufeira, perto de Sesimbra.

Lentamente, foi alterando o seu percurso até formar um delta e, finalmente, formar a sua foz junto ao Bugio, a pouca distância de Lisboa.

Deveu-se naturalmente tal alteração à falha sísmica aí existente e que, nos começos do século XX, levou à destruição da povoação de Benavente.

Na margem esquerda a que os lisboetas se acostumaram a designar por “outra banda”, entre o Bico da Calha e o Portinho da Costa, surgiu um pequeno núcleo piscatório que desde sempre viveu dos recursos que o mar proporcionava e, sobretudo, da apanha da amêijoa com gadanha e gingarelho.

Com vista para a zona de Belém, é aqui que, no sítio designado por Cova do Vapor, o rio Tejo se junta ao oceano Atlântico.

Com o objectivo de fixar as dunas e enxugar as terras pantanosas, o Estado promoveu há décadas a plantação de um pinhal entre a Trafaria e a Costa da Caparica, levando quase ao fecho da golada do Bugio.

Porém, o prolongamento da zona urbana e a construção de edifícios e equipamentos fizeram desaparecer aquela área florestal, com resultados que foram conhecidos e bastante divulgados através dos órgãos de comunicação social, concretamente o avanço do mar para terra firme, situação que foi remediada com o despejo de toneladas de inertes.

De resto, já na década de cinquenta do século passado se verificaram grandes alterações da linha de costa, tendo os habitantes da Cova do Vapor sido forçados a desmontar as suas habitações em madeira e transferirem-nas para locais mais seguros.

São Pedro é o padroeiro

Apesar da situação privilegiada em que se encontra, a sua população nunca foi além de 7 mil habitantes.

Como é tradição nas povoações piscatórias e à semelhança da generalidade dos pescadores, os trafarienses têm S. Pedro como padroeiro da sua terra.

Porém, tem vindo a entrar em franco declínio, bem patente no acentuado estado de degradação da sua construção, cifrando-se actualmente a sua população em pouco mais de 5 mil habitantes.

Alguns lisboetas conservam ainda o velho hábito de atravessarem o rio de barco para irem almoçar à Trafaria, apreciar as suas caldeiradas nos restaurantes que se apinham junto à praia.

Aninhada junto à praia, a Trafaria encontra-se abrigada pela encosta onde subsiste o pinhal e na Alpena e Raposeira alinhavam as fortificações defensivas da linha de costa entretanto desactivadas.

Nas imediações, também banhadas pelo rio, vamos ainda encontrar o Porto Brandão e o Portinho da Costa com o seu cais militar que serve de apoio aos navios da OTAN.

Uma pequena lota de peixe funciona sem grandes condições junto à praia e os navios atracam junto aos silos que ensombram a pequena vila que já foi um dos mais pitorescos aglomerados piscatórios do rio Tejo.

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História

Trafaria: uma terra piscatória em declínio
Transporte da sardinha, na Trafaria, no início do século XX. (Foto: Arquivo Fotográfico da C.M.L.)
Trafaria: uma terra piscatória em declínio
A actividade piscatória na Trafaria é uma actividade em decadência.
Trafaria: uma terra piscatória em declínio
O mar continua ainda a dar o sustento a muitas famílias de pescadores.
Trafaria: uma terra piscatória em declínio
A poluição marinha tem sido uma das causas da decadência da Trafaria.
Trafaria: uma terra piscatória em declínio
A imagem mostra barcos que são utilizados na apanha da amêijoa.
Trafaria: uma terra piscatória em declínio
Um aspecto do passeio, junto à praia.

Fotos: Carlos Gomes