Uma história do bobo da corte de Luís XII, rei da França

Triboulet era o bobo da corte de Luís XII, rei da França entre 1498 e 1515. Ficou famoso por um ato ousado: deu uma palmada no traseiro do próprio rei. A afronta enfureceu profundamente Luís XII, que ameaçou executá-lo imediatamente.

Quando o rei se acalmou, decidiu poupá-lo — mas só se Triboulet oferecesse uma desculpa ainda mais insultuosa que a anterior. Então o bobo se curvou e disse: “Perdoe-me, Majestade. Não o reconheci… pensei que fosse a rainha!

A resposta era espirituosa, mas violava a ordem real que proibia qualquer piada envolvendo a rainha. Revoltado, o rei voltou a decretar a execução, embora permitisse a Triboulet escolher como queria morrer.

Foi então que o bobo, com a perspicácia que o tornara famoso, respondeu: “Bom rei, pelo amor de São Nitouche e São Pansard, padroeiros da loucura… escolho morrer de velhice.

O rei não conteve o riso. Em vez de executá-lo, decidiu bani-lo do reino.

Quem eram os bobos da corte?

Os bobos da corte eram personagens presentes nas cortes europeias, sobretudo durante a Idade Média e o Renascimento. A sua função principal era entreter o rei, a nobreza e a corte, mas o seu papel ia muito além do simples humor.

Os bobos usavam piadas, música, dança, malabarismo, sátira e histórias para divertir. Muitos vestiam roupas coloridas, com chapéus de guizos, símbolo do seu estatuto singular. No entanto, nem todos os bobos eram caricatos: alguns eram pessoas muito inteligentes, cultas e observadoras, capazes de usar o humor como uma forma subtil de crítica social e política.

Uma das características mais importantes dos bobos da corte era a liberdade de expressão. Ao contrário de outros membros da corte, podiam dizer verdades incómodas ao rei sem sofrer punições, desde que o fizessem de forma humorística. Por isso, eram por vezes considerados a “consciência” do poder, usando a ironia para alertar sobre erros, abusos ou excessos.

Existiam diferentes tipos de bobos. Alguns eram profissionais do entretenimento, enquanto outros eram pessoas com deficiências físicas ou intelectuais, exploradas pela corte — um aspeto hoje reconhecido como injusto e cruel. Também havia bobos que serviam como conselheiros informais, próximos do monarca.

Com o declínio das monarquias absolutas, a figura do bobo da corte desapareceu, mas o seu legado permanece. Ele influenciou o teatro, a literatura e a cultura popular, surgindo em obras como as de Shakespeare, onde o bobo é frequentemente a personagem que diz as maiores verdades sob a máscara do riso.

Em essência, o bobo da corte representava o paradoxo de parecer louco para poder ser sábio, usando o humor como arma e proteção num mundo dominado pelo poder e pela hierarquia.

Imagem: Chat GPT