O castanheiro dá frutos muito nutritivos: as castanhas!

O castanheiro

Estamos a 11 de Novembro, dia de S. Martinho, o grande dia dos magustos, regados com o primeiro vinho novo.

«Pelo S. Martinho, castanhas e vinho». E, efetivamente, é nesta altura do ano que coincide a abundancia do delicioso fruto do castanheiro com o sumo ainda espumoso da uva.

O castanheiro é a árvore da minha paixão, em que pese aos apologistas da videira. Por isso o celebro hoje.

É formosíssimo de ramificações e de folhagem, soberbo e gigantesco de porte, exuberante de frutos, que substituem perfeitamente o pão e a batata, estando hoje a matar a fome em muitos pontos do país, onde não há este ano cereais, batatas e legumes.

Com a sua sombra saudável, sob que se repousa e medita horas esquecidas, só pretende rivalizar a do pinheiro e do eucalipto; mas prefiro a do castanheiro, que nos resguarda melhor, que nos conchega mais amoravelmente com os seus braços ramalhudos, descendo quási à terra e formando um dossel de uma frescura inigualável.

Há anos o vandalismo indígena matou-me um. Pareceu-me que a Primavera nunca mais enfolhara com garridice, que o Verão já não tinha sombras, que os frutos do Outono haviam perdido o seu sabor.

Plantar um castanheiro

Plantei outro pequeno e gracioso, vindo por sinal dos inesgotáveis viveiros dos srs. Moreira da Silva & Filhos.

E, enquanto não lhe vi despontar os primeiros ouriços como flocos macios de penugem, que chovessem mansamente sobre as suas folhas largas, lustrosas, artisticamente recortadas, não descansei.

Agora, lá o tenho a desafiar a eternidade como o castanheiro dos Cem cavalos, sobre o Etna, perto de Acireale, que tem mais de quatro mil anos, segundo os melhores cálculos, e que na cavidade do seu tronco, medindo de circunferência 50 metros, aloja um pastor com o seu rebanho.

E não lhe dão mais anos, talvez para não o tornarem coevo da criação do mundo, o que comprometeria a sisudez de tamanha longevidade.

Comparando, pois, com o nosso pinheiro, que tem a vida média de 2 séculos, o castanheiro é uma árvore imortal, o que para mim representa ainda mais um título de simpatia e de admiração.

Ouriços com castanhas
«Os ouriços, vendo-se as castanhas por eles entreabertos»

Mais antigos do que as oliveiras?

No histórico monte sobranceiro ao Cédron e que esta torrente separa de Jerusalém, ainda se apontam oliveira velhíssimas que se afirma terem sido testemunhas da agonia de Cristo;

mas poderão ter dois mil anos, isto é, metade do que já viveu o castanheiro do Etna, mais velho do que o seu vulcão, tendo-o visto apagado e aceso vezes sem conta, alimentando um sem numero de gerações que viveriam só dos seus frutos, como vivem as povoações pobres do Auvergne, dos Cevennes, da Córsega e, para apontar exemplos da casa, da região da Régua, onde o nosso distinto e dedicado colaborador sr. António Teixeira colheu estes lindos aspectos, dando-nos a nota sentida de que famílias inteiras morreriam de fome, se os castanheiros não lhes valessem com a sua providencial abundância.

Se por cada 100 habitantes de Portugal, tivéssemos plantado um castanheiro, não haveria ano de seca nem crise de subsistências, que se fizessem sentir tão horrorosamente pela pobreza por esse país fora, como está sucedendo.

Abençoada árvore!

A. M. de F.

Mulheres a colher ouriços de um castanheiro

Mulher a assar castanhas na Régua
Numa rua da Régua: assando as castanhas
A apanhar castanhas
Um aspecto interessante da apanha da castanha na freguesia de Loureiro, da Régua
O castanheiro dá frutos muito nutritivos: as castanhas!
Entre os ouriços
O castanheiro dá frutos muito nutritivos: as castanhas!
Apanhando a castanha
O castanheiro dá frutos muito nutritivos: as castanhas!
Um copado castanheiro na freguesia de Loureiro, da Régua

(Clichés do distinto colaborador artístico da Ilustração Portugueza, sr. António Teixeira, da Régua)

Fonte: “Ilustração Portuguesa” – II série – nº 664 – 11 de Novembro de 1918 (texto editado e adaptado)| Imagem de destaque: “Um magusto”