A abertura do caminho de ferro na região do Douro

O caminho de ferro no Douro

Os homens do Douro tinham o rio para navegar, e, um dia, vieram abrir outro caminho. E eles riram-se.

Legiões de escravos dinamitaram fragas, cortaram terras e derrubaram casas. Os donos das terras e das casas, acutilados na alma, atingidos na própria vida que haviam construído, odiaram a nova estrada. E muitos, impotentes para vencer a desgraça, balouçaram-se num baraço de corda.

De vez em quando, uma barreira abatia ou uma explosão deflagrava antes do tempo uns tantos homens marcavam com o rasto do seu sangue o novo caminho que se abria. Engenheiros, capatazes, algumas máquinas e muitos e muitos escravos cortavam vinhedos, hortas, pinheirais e soutos.

E continuavam também a derrubar casas. Os seus donos ficavam tristes e muitos achavam que não valia a pena viver sem casa e sem terra.

E os barqueiros riam-se.

Nos rabelos eles ignoravam o que aquilo queria dizer. Eles não sabiam interpretar a mensagem da nova estrada. (…)

O caminho avançava sempre, marcado por sinais de morte. Os escravos, porém, nunca acabavam. Morriam uns e chegavam outros. Esgotavam-se alguns e substituíam-se.

Sem bestas? Pode lá ser, homem. Isso é mesmo uma parvalheira.

Mas um dia …

Um dia, um monstro de ferro, deitando faúlhas e fumo, como se guardasse o inferno nas entranhas, foi capaz de romper sem levar cavalos atrelados. E trazia à frente bandeiras e folhas de palmeira.

Alves Redol, Porto Manso (1946) | Imagem: III – Festejos do caminho de ferro – Chegada do primeiro comboio à estação de Vila Real – 1 de abril de 1906 – Edição da Imprensa Moderna (Cliché de A. Pinheiro)

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