A galinhola vem de muito longe até Portugal

A galinhola

Entre as espécies que se caçam, neste mês de «vacas gordas», a galinhola merece sem dúvida um lugar de destaque.

De medíocre aspecto e peso se a comprarmos com uma abetarda, um faisão, um cisão, qualquer palmípede ou até mesmo com uma perdiz, no entanto a todos supera, pela delicada qualidade da sua carne, pelas dificuldades que a sua caça oferece e pela grande variedade de tiros que permite.

Durante largos anos bem pouco se soube acerca da grande viajeira. Um véu de mistério envolvia as suas tão curiosas migrações, desafiando a argúcia dos estudiosos e chamando a terreiro uma larga falange de investigadores.

Pouco a pouco esse véu foi-se levantando, e se bem que com algumas breves limitações, já quase tudo se sabe acerca de tão singular passaroco.

Características físicas da galinhola

Fisicamente, a galinhola é uma ave cuja estatura se aproxima da da perdiz.

Quase sem pescoço, tem uma cabeça comprida no sentido lateral, a fronte elevada, um bico forte e comprido com a mandíbula superior cobrindo a inferior.

Os olhos são grandes e vivos, as pernas, grossas e cobertas de penas até aos tarsos.

A característica mais saliente dos seus pés é o grande comprimento do dedo médio.

A cauda é arredondada nas pontas, larga e formada por 12 rectrizes.

As asas, de tamanho mediano, são subobturadas, fortes, nelas se destacando a pena primária, pequena e rija, que o vulgo designa por «pena de pintar», nome que lhe ficou da sua utilização noutros tempos na confecção de pincéis.

O colorido das suas penas, à base do pardo e do ruivo, distribui-se da seguinte maneira:

– a região frontal é parda,

– e a parte superior do corpo, ruiva e escura às riscas transversais.

– o peito e o ventre são malhados de pardo amarelado e trigueiro,

– a garganta é esbranquiçada

– e as rectrizes e remiges malhadas de castanho muito carregado, num fundo escuro.

Finalmente, os olhos são escuros e o bico e os pés, amarelados.

Tal como sucede com vários outros passarocos, a fêmea e o macho não têm, por assim dizer, nada de especial que nos permita diferençá-los à primeira vista.

Origem, criação e migrações

Durante muito tempo, a sua origem foi mais ou menos misteriosa. Hoje, porém, sabe-se que se cria numa vasta região que abrange todo o Norte da Europa e da Ásia desde as costas da Islândia até à montanhosa e vulcânica península de Kamtchatka entre o mar de Bering e de Okhotsk.

Quando começam os grandes frios, descem aos países temperados do Sul da Europa e do Norte de África, entrando em Portugal em dois bandos migratórios:

– Um, originário da Rússia, atravessando a Europa Central, transpostos os Pirenéus, cruza a Espanha e entra no luso torrão «por terra».

– O outro, vindo da Islândia e seguindo a orla marítima do Continente Europeu, depois de contornar as costas da França e da Espanha entra em Portugal «vindo do mar».

É, pois, em Novembro, em pleno Outono, quando os primeiros frios rigorosos se fazem sentir nas regiões do Norte, que o magnífico emigrante vem fixar-se, temporariamente no nosso país.

E caso curioso de assinalar: a sua abundância é sempre proporcional à intensidade dos frios nas regiões de onde é originária.

Por onde anda durante o dia

Se bem que seja difícil observar-se uma galinhola, pois esta ave passa a maior parte do dia escondida, disfarçando-se com o terreno, numa prodigiosa manifestação de mimetismo, sabe-se que a sua vida activa começa pouco antes do crepúsculo, alturas em que, correndo por prados, caminhos ou terrenos pantanosos, procura os vermes, larvas, insectos e resíduos de que se alimenta, só deixando estes lugares um pouco antes do romper do dia.

Os seus locais predilectos são sempre os mesmos, não só durante uma emigração, como de ano para ano.

Geralmente, fixa-se num terreno abrigado dos ventos do quadrante Norte, com o chão atapetado de musgo, folhas mortas ou agulhas de pinheiro, que lhe ofereça as condições ideais de segurança e suficiência alimentar.

Esses terrenos quadram-se a matar com a sua índole prudente e astuciosa.

Agachada e imóvel, confunde-se de tal maneira com a folhagem, que o observador mais perspicaz é incapaz de a localizar.

Quando levanta voo, fá-lo precipitadamente com um ruído característico que um caçador medianamente prático poderá assinalar com relativa facilidade.