O Divino Senhor da Serra

O mês de Agosto nasce num berço de calor e alegria ao som das harmonias musicais que se fazem ouvir por entre os vales e os montes, onde os foguetes anunciam a festa da terra. A paisagem torna-se mais bela aos que tão bem a conhecem e àqueles que regressam às origens que tiveram de largar à força da emigração. As aldeias ganham a vida que sempre desejaram, os adros, os fontenários, as ruas e os terreiros enchem-se de gente numa confraternização de gerações e de tradições. Desde o Minho a terras Algarvias as festas e romarias metem o povo numa alegria inigualável que só o povo lusitano sabe sentir ao som da concertina que se aclama no Minho ou os gaiteiros que se fazem ouvir na Beira, num louvor que entregam ao santo ou à santa padroeira.

O presente mês é o rei das festas e romarias onde se conjugam os atos sagrados e profanos que nos enriquecem intensamente a nossa cultura popular e tradicional. Atos onde se apontam características únicas de terra em terra marcando deste modo a identidade genuína de Portugal. São muitos os que afirmam que o Minho é o coração da alegria lusitana não esquecendo as festas e romarias das Beiras. É no pinhal interior norte que se destaca a grande romaria ao Divino Senhor da Serra onde no alto do monte o céu e a terra se tocam numa bênção a toda a região beirã. Na localidade do Senhor da Serra, na união de freguesias de Semide e Rio de Vide o santuário jubilar apresenta-se como o mais antigo santuário da região centro, sendo até ás aparições de Fátima o maior centro de peregrinação do país. A sua história é secular, remontando à primeira metade do século XVII, abrangendo a cidade Coimbra, e toda a região centro onde se destacam as regiões de Aveiro e o baixo mondego de onde proveem grande parte dos romeiros. Seriam muitas as palavras necessárias para narrar a história deste centro de devoção, estando ela ligada ao mosteiro de Santa Maria de Semide plantado aos pés da serra onde se ergueu o santuário.

Desde cedo que a imagem do Divino Senhor da Serra é venerada. De acordo com várias obras bibliográficas dedicadas ao tema, eram muitos os que corriam a Ceira, nas proximidades de Coimbra a casa do casal de Martim Avô e sua mulher que detinham a posse de um Cristo que passou a ser salvo de grande devoção. Devido aos conflitos entre os muitos que corriam a sua casa para venerar a imagem, os proprietários resolveram desfazer-se dela e esconderam-na num local ermo. Na vizinhança da zona onde o casal vivia localizava-se o convento de Semide, ocupado por monjas beneditinas que num certo dia, quando os seus criados andavam a apanhar lenha, encontraram a imagem e levaram-na para o cenóbio, a fim de ali ser cultuada. O local onde a imagem foi achada ficava dentro da área do mosteiro e as religiosas fizeram aí erguer uma cruz que passou a ser conhecida pelo nome de “Cruz de longe”, por muitos também conhecida pela “cruz da serra”. A comunidade, para que a cruz pudesse continuar a ser venerada pelos muitos que persistiam em ocorrer ali, a fim de pedir a proteção do Senhor, acabou por mandar construir um pequeno coberto abobadado no cimo do monte. O Santuário e as esmolas dos fiéis foram os fatores que permitiram a sobrevivência das últimas religiosas do mosteiro que apesar disso se viram obrigadas a vender todas as pratas ao Divino Senhor da Serra.

Foi durante o episcopado de D. Manuel Correia de Bastos Pina (bispo de Coimbra) que em 1898 que se construíram as primeiras hospedarias para abrigar os romeiros, ainda antes da romaria desse ano concluíram-se as obras, uma delas tinha capacidade para acomodar 200 pessoas. As palavras descritas são apenas o início da história que se desenvolveu num culto e num património que deu fruto no grande santuário que hoje ali se encontra. Uma obra arquitetónica de grande valor. Quem sobe ao Senhor da Serra pode deslumbrar o belo santuário onde se destaca aos olhos dos visitantes o majestoso altar, o corredor onde se guardam peças centenárias de ex-votos narrativos, os vitrais e os azulejos, uma obra imensa construída de culto que se estende ao carrilhão de sinos que restabelece uma harmonia singular por toda aquela aldeia e terras vizinhas. Um lugar onde o silêncio e o ar puro das serras convidam a decifrar uma paisagem única, um dos miradouros mais bonitos da região de onde se pode avistar em dias limpos, ao nascente a serra da Lousã, a serra da Estrela e outras serranias das Beiras, ao poente assiste-se a cidade de Coimbra e os verdes campos do mondego.

Com o tempo a sociedade transforma-se, assim como se vão modificando os usos e costumes. A romaria atual é hoje muito diferente do que era em tempos idos. A tradição aliou-se à modernidade dos tempos, traçando assim novos modos de viver a romagem que se descrevia com outras palavras nos inícios do século XX. Nesse tempo não havia nenhum jornal que deixasse passar a romaria sem escrever um artigo sobre esta. O Despertar, a Gazeta de Coimbra, assim como o periódico Resistência descreviam em 1902 uma romaria viva e pitoresca:

Anda a Cidade (Coimbra) desde o dia 15, cheia dos ranchos dos romeiros, que vão ou voltam do Senhor da Serra, cuja romaria anual acaba hoje. A estrada da Beira anda animada daqueles grupos, que vão de merendas à cabeça, ou voltam com a imagem do Senhor, cuidadosamente metida na fita do chapéu. Quando chegam à portela, se levam animais, atravessam o rio a vau, sem se importarem com os risos e os ditos, que lhes gritam de cima os que vão pela ponte, ao verem as mulheres levantarem cuidadosamente, e bem alto, as saias para não lhas molhar o rio. Depois lá vai tudo até às vendas de Ceira, e daí ladeira acima, até ao alto do monte, donde se avista o telhado alegre da hospedaria da capela, e começa a sentir-se a caricia do vento fresco. Parão a ouvir um sermão, depois outro. (…) O céu límpido e azul, o Sol claro e abrasador, e a planura do cômoro apinhado de homens, suando dentro nos grossos jaquetões de briche, e de mulheres com saias de seriguilha pela cabeça deixando cair sobre as testas deprimidas as farripas de um cabelo empastado como linho antes de ser cardado. Aqui no púlpito do adro o pregador confundindo a sua voz com o eco de outra que lhe vem lá de dentro de junto do altar. (…) E todas estas vozes já roucas procurando dominar o ruído confuso dos descantes, das guitarras, das algazarras dos beberrões, das alterações das rivalidades estimuladas pelo álcool e até das injúrias e grosseiras das rixas travadas pela posse de uma mulher, ou pela liquidação de velhas contas que vieram abertas lá desde as aldeias. E o Sol de Agosto dardejando inclemente sobre os largos chapéus e tornando escuros os rostos luzidios e afogueados e ainda mais negros os beiços enegrecidos pelo vinho e pelo pó. Como comentário às palavras dos padres quase áfonos, que clamam pela justiça e misericórdia divinas, as vozes vibrantes das tricanas de Coimbra, menos devotas e mais alegres, bailando e cantando ao som das violas o Manuel Ceguinho ou o Oh ladrão! Ladrão! Por fim entram na capela onde Cristo agoniza numa cruz de pedra, deixando cair a cabeça para mostrar o cabelo negro que cresce, como diz a lenda todos os anos. Pelas paredes pregadas em ripas de madeira, vêem-se tranças de cabelo de todas as cores, votos que fazem os doentes, por saberem que é este o sacrifício que mais gosto dá ao Senhor da Serra”.

Como previmos foi no domingo extraordinariamente concorrida a romaria do Senhor da Serra, tendo o comboio, automóveis e camionetas transportado de Coimbra muitas centenas de pessoas, na sua maioria gente moça, que ali foi expandir toda a alegria dos seus verdes anos e gozar em plenos pulmões o ar sadio de tão aprazível passeio. O efeito que apresentava o planalto do Senhor da Serra, coalhado de gente, era de um efeito maravilhoso, movimentando-se ali mais de dez mil pessoas sem que se registasse qualquer ocorrência de maior vulto. O terreiro do convento de Semide esteve também repleto de povo, formando-se em todo ele muitas danças compostas por elegantes raparigas da nossa terra, cujos bailados e canções têm um ritmo especial, só próprio da lendária rainha do Mondego. Foi um dia de franca alegria cheio de entusiasmo e gratas recordações que só a mocidade sabe arquitetar e que tão saudosamente se registam no livro da vida que nunca mais volta.” (Gazeta de Coimbra,20/8/1930)

Estes relatos são a memória de uma verdadeira romaria que até aos dias de hoje mudou ao sabor do tempo. Atualmente as recriações dos grupos folclóricos da região que ali rumam durante a romaria tentam nos transportar a esses tempos que os mais velhos recordam à força da saudade. Hoje a romaria mantém um sagrado muito participativo e de grande culto, o profano mudou muito, as tendas são hoje como as outras romarias onde a modernidade dos produtos tenta abafar as vendedeiras dos barros, as tremoceiras e lá pelo meio um pregão recriado de uma aguadeira.

Muitas seriam as frases para descrever as festividades, por isso aconselho vivamente que venha ao Senhor da Serra de 15 a 23 de Agosto (21/8 – Domingo principal) à famosa romaria onde o culto ao Divino ainda é o mesmo.

Viver as festas e romarias do nosso país é participar e dignificar a nossa cultura popular. Festejam os filhos da terra e todos aqueles que vêm como romeiros de todas as partes, fortalecendo a fé no santuário e alimentando as raízes ao sabor do cancioneiro e das danças populares onde todos os grupos de folclore que o visitam lhe entregam um vira ao senhor da serra. As festividades de cada terra são também momentos de convívio entre amizades que se preservam e outras que se criam em ambiente de festa, a referida não é exceção aproveitando a frescura da serra. Cumpridas as promessas os romeiros despedem-se numa fraternidade e numa perspetiva de lá voltar, descendo a serra com a pagela do santo venerado.

As festas e romarias são o reflexo da grande alegria do nosso povo, e quando elas acabarem o povo perderá grande parte da essência da sua alma.

Divino Senhor da Serra

Mandai agosto mais cedo,

Que eu quero ir passear

Pro areais do mondego.

Quem vai ao Senhor da Serra

E não vai ao corredor

É como quem vai ao céu

E não vê nosso Senhor.

Divino Senhor da Serra

Tens um filho serrador

Para serrar a madeira

Para o altar do Senhor.”

Vasco Francisco (vascormf@sapo.pt)

Semide, Agosto de 2016

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