“Reflexos e reflexões” de Ana Sofia Vieira Ribeiro
Excerto 1
Não faço contas, nunca fui dedicada à matemática. Deixei-a para os menos lógicos do que eu! A minha mente, muito presa sempre à lógica, levou-me para outros caminhos, os do pensamento, do questionamento, da razão, do coração.
Por isso questiono as horas que o dia tem.
Para mim a lógica é outra coisa. É o pensamento descontrolado, que insiste em pensar e pensar. Que procura respostas, que quer entender melhor o que cada ato significa. Não me perco especificamente em filosofias transcendentais ou em questões utópicas. Prendo-me às atitudes humanas, questiono as minhas ações e, acima de tudo, procuro, sempre, o meu reflexo na vida dos outros.
Dessas vinte e quatro horas que dizem o dia ter, num dia bom, oito são desperdiçadas a dormir. Dezasseis horas são as que me sobram para viver. Tão pouco… tão fugaz… tão curto o meu tempo para tudo o que quero, almejo, desejo, pretendo, planeio, procuro…
Mas eu sou mulher! Felizmente, sou mulher!
Apenas outra mulher pode saber
A força que uma como ela
Dentro de si, pode ter!
Apenas um homem pode reconhecer
A força que uma mulher motivada
Pode, diariamente, empreender!
Apenas um filho agradecido pode alcançar
A força e o sacrifício
Que uma mãe pode dedicar!
A capacidade de fazer tudo ao mesmo tempo,
Sem um gemido, um lamento.
Capacidade de acompanhar,
Capacidade de trabalhar,
Capacidade de escutar,
Lutar, falar, procurar, desvendar,
Capacidade de amar!
Força para enfrentar,
Força para continuar!
Força para revolucionar!
A força de uma mulher
Esconde-se na fragilidade de um malmequer!
A força de uma mulher
Não é uma força qualquer…
Excerto 2
Hão de compreender que tenho mais o que fazer, não é?
Pois é, tenho mais que fazer, e faço. O problema é que faço tudo sempre com este grilinho a sussurrar-me ao ouvido o quanto me sinto mal com a roupa que escolhi hoje. Porque é que somos assim? Reflito! Porque é que, normalmente, em casa, me arranjo e me sinto tão fantástica, como se estivesse pronta para a gala onde me vão entregar o Óscar ou o Globo de Ouro que tanto mereço e, assim que chego à rua, a qualquer lado, e me cruzo com outras mulheres, sinto sempre que escolhi o vestido errado, que sou a menos elegante, a menos interessante? Maldito complexo de inferioridade! Apetece-me gritar tantas vezes, tantas, tantas. Parece que ando sempre ao contrário das outras. Digam-me, por favor, que se sentem como eu… pelo menos às vezes…
Excerto 3
Traduzir em palavras e gestos aquilo que se sente é uma capacidade que o ser humano tem. O problema é que temos que a desenvolver, pôr em prática… caso contrário, começamos a ficar perros e, a dada altura, já não sabemos usar essa ferramenta. Muitas vezes, atribuímos esta falta de capacidade de se expressar aos homens, mas, a verdade, por mais que nos custe admitir, é que nós, mulheres cansadas dos afazeres do dia-a-dia, também temos uma tendência fulminante e silenciosa de calar o coração que quase nos salta da boca. Queríamos dizer que estamos zangadas, mas não dizemos! Eles é que tinham a obrigação de perceber isso… Não tinham?
Não, não tinham!!! Ninguém tem a obrigação de nada! Quando passamos à fase em que achamos que os outros é que têm a obrigação de alguma coisa em relação a nós, então as coisas já estão a descambar velozmente. Ninguém tem obrigações para connosco a não ser nós mesmos. Se algo nos é feito por obrigação, que felicidade podemos espremer desse gesto ou dessas palavras?

