Fernando Pessoa morreu a 10.11.1935

Fernando Pessoa (13.06.1888, Lisboa | 30.11.1935)

30 de Novembro de 1935. Morreu em Lisboa, Fernando Pessoa, guarda-livros – segundo noticiaram os jornais.

Este guarda-livros, cirrótico e discreto, que desaparecia aos 47 anos entre a indiferença dos seus concidadãos saudáveis, fora certamente, depois de Camões, o mais notável poeta português.

Nascido em Lisboa, em 1888, educado na Africa do Sul, fixado depois na sua cidade natal, Fernando Pessoa, pela originalidade da sua obra, que escreveu sob vários nomes cada um deles com personalidade poética própria (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Fernando Pessoa) e pela clarificação que operou na linguagem poética portuguesa, exerceu sobre a sua geração e as seguintes (em Portugal e no Brasil) uma influência raramente encontrada na história da nossa literatura.

Praticante de ocultismo, astrólogo, racionalista nos processos, devem-se-lhe algumas das mais belas páginas da poesia mundial.

A sua «Arte Poética» pode sintetizar-se na famosa quadra:

«O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
».

Este homem genial viveu só. Os seus afectos foram, sem dúvida, mais intelectuais que sentimentais – a sua profunda descrença na felicidade e no progresso marcou de irremediável diletantismo grande parte da· sua obra.

A lição que dele se recolhe pode ser utilíssima ou perniciosa e dele se pode dizer que viu tão bem como ninguém – o muito pouco que viu.

É dele, na boca de Alberto Caeiro, esta elucidativa frase:

«Ser poeta é a minha
maneira de estar sozinho
».

Fonte: “Almanaque” – Novembro de 1959 (texto editado e adaptado) | Imagem