Monarquia do Norte proclamada no Porto – 19.01.1919

A Monarquia do Norte

“Em 14 de Dezembro de 1918, Sidónio Pais, ainda no auge do seu mito, cai assassinado ao entrar para a Estação do Rossio.

Aproveitando este facto, que vinha agravar uma situação já de si instável e agitada, os monárquicos redobram de actividade no sentido de restaurar o regime derrubado em 5 de Outubro de 1910, não obstante a resistência de D. Manuel II, no exílio, em os apoiar.

As juntas militares, que entretanto haviam surgido com objectivos autoritários e anti-republicanos – cujas actividades motivaram a viagem frustrada do «Presidente-Rei» ao Porto -, redobram de actividade.

Apesar de não se oporem à eleição para presidente da República, pelas duas Câmaras do Parlamento, do contra-almirante Canto e Castro, procuram influenciar a constituição e a acção do novo Governo, presidido por Tamagnini Barbosa, ameaçando «assumir toda a acção governativa com todas as responsabilidades que lhe são inerentes».

Ainda em Dezembro, principiam confrontos entre tropas ao serviço da Junta do Norte e outras fiéis ao Governo, vindo as primeiras a controlar progressivamente toda a região, incluindo Trás-os-Montes, com excepção de Chaves, que permanecerá sempre sob domínio republicano.

Perante estes acontecimentos, em 10 e 12 de Janeiro de 1919, ocorrem em Lisboa, Santarém e Covilhã revoltas militares exigindo o regresso à Constituição de 1911, rapidamente neutralizadas pelo Governo, que procura afirmar a sua autoridade.

A restauração da Monarquia no Norte

Em 19 de Janeiro, a Junta do Norte proclama no Porto a restauração da Monarquia e anuncia, à varanda do Governo Civil, a constituição de uma Junta Governativa, assim constituída:

– Presidência, Fazenda e Subsistências – Henrique de Paiva Couceiro;

– Reino – Solari Alegro;

– Negócios Eclesiásticos, Justiça e Instrução – o visconde do Banho;

– Guerra, Marinha e Comunicações – João de Almeida;

– Negócios Estrangeiros – Luís de Magalhães;

– Obras Públicas, Correios e Telégrafos – Artur da Silva Ramos;

– Agricultura, Comércio e Indústria e Trabalho – o conde de Azevedo.

Em todo o Norte, os republicanos são presos e perseguidos, tornando-se famoso o Eden-Teatro do Porto, utilizado como centro de interrogatórios. Na capital chama-se às armas pela defesa da República; esquecendo-se as divergências entre facções, soltam-se os presos políticos, ao mesmo tempo que acorrem milhares de voluntários.

Os Monárquicos em Lisboa

Em 23 de Janeiro, secundando os revoltosos do Norte, os monárquicos de Lisboa concentram-se em Monsanto. São tropas de algumas unidades da capital, que, juntamente com civis e sob o comando do lugar-tenente do rei, Aires de Ornelas, bombardeiam a cidade com o fogo de várias peças, exigindo a rendição do Governo.

Mas no dia seguinte, e apesar de certas unidades se recusarem a combater, considerando-se neutrais, forças da Guarda Republicana, da Marinha, da Guarda Fiscal, de Infantaria e muitos civis, comandados pelo coronel Vieira da Rocha, tomam de assalto Monsanto, vencendo as forças monárquicas (trinta e nove mortos e cerca de trezentos feridos).

A 28 de Janeiro cai o Governo de Tamagnini Barbosa e é formado um outro de unidade republicana, encabeçado por José Relvas (durará até 30 de Março).

Entretanto, as tropas republicanas avançam para o Porto, conquistando posições sem grande oposição, até que, a 13 de Fevereiro, o capitão Sarmento Pimentel comandará o levantamento da Guarda Real (como fora baptizada a Guarda Republicana) e de civis que decidirá o fim da fugaz Monarquia do Norte, também conhecida pelo «Reino da Traulitânia», em alusão aos maus tratos infligidos aos presos políticos e às perseguições movidas.

Dias mais tarde, e com o exílio de Paiva Couceiro, cessará toda a resistência monárquica. [F. P. M.]

Bibliografia sumária: Rocha Martins, A Monarquia do Norte, Lisboa, 1922. A. Ilharco, general, Memórias, Porto, 1926; Sousa Costa, Páginas de Sangue, vol. II, Lisboa, s/d.; Mauricio de Oliveira, O Drama de Canto e Castro, Lisboa, 1944; Carlos Ferrão, Em Defesa da Republica, vol.I, Lisboa, 1980.”

Fonte: Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Vol.1 | Imagem: “Em Viana do Castelo. – Nos Paços do Concelho, anunciando a restauração da monarquia, na tarde de 23 de Janeiro último.” (Hemeroteca Municipal de Lisboa)