Pequeno Dicionário do Teatro de Revista

O Teatro de Revista

O teatro de revista surgiu em Paris, França, em finais do século XVIII, quando apareceu, inserido no vaudeville, um género de espetáculo chamado “revue de fin d’année” (revista de fim de ano).

Com o passar do tempo, essa revista do ano começou a adquirir tons mais humorísticos, fazendo do espetáculo uma comédia com recurso frequente a piadas brejeiras. O alvo das piadas era a burguesia e a sociedade capitalista.

O teatro de revista chegou a Portugal em meados do século XIX, estimando-se que a primeira “revista” tenha sido estreada em 1850, em Lisboa. Este género de teatro acabou por se tornar num dos mais populares do país durante mais de cem anos. O humor misturado com a música, a cor e a fantasia cativaram o público português.

O teatro de revista em Portugal criou duas figuras obrigatórias, o compadre e a comadre. Enquanto ela tinha de ser elegante e bonita, ele devia ser cómico e popular.

No século XX, o Parque Mayer, em Lisboa, tornou-se na sede do teatro de revista, mesmo durante os tempos da ditadura em que havia censura. (Infopédia, editado)

Breve dicionário

Revista

Espectáculo alegre em duas sessões; armações de cartão e contraplacado; «jóias» falsas que brilham como se fossem verdadeiras; ironia e sarcasmo ao alcance de toda a gente; pernas e raparigas bonitas; luzes e mais luzes; crítica maliciosa de costumes.

Para os tristes deste mundo – Espectáculo colorido que faz esquecer a conta do gás, a chuva miudinha e o 5º andar esquerdo.

E para os mal-intencionados deste mundo – Exposição de pernas e de corpos, venda a dinheiro e a prestações.

Já para os ricos deste mundo – Espectáculo «ordinário» onde se vai ouvir «boas piadas».

Para os intelectuais deste mundo – Vergonha. Miséria intelectual. Demonstração da crise a que chegou o teatro.

Revista da «nova bossa»

Revista do nosso tempo. É da «nova bossa» por obrigação. Actualmente tudo tem de ser da «nova bossa» para triunfar. Há o samba da «nova bossa», o teatro da nouvelle vague, a revista da vaga nova. De novo não tem nada. Talvez se caracterize por ter raparigas mais bonitas, mais música e menos graça.

A crítica dos costumes tende a desaparecer ou é tão subtil que só os actores compreendem. A graça ordinária está menos ordinária. A revista pretende transformar-se em «show» de Broadway de Paris.

Os «compères» já não servem para fazer rir – limitam-se a entreter o público enquanto se mudam os cenários.

Quadro

Cenas subordinadas a uma ideia principal ou a uma graça que é proferida no fim. Conjunto de raparigas levantando as pernas ao mesmo tempo. À medida que a revista se torna conhecida vão-se eliminando quadros.

«Girl»

Há! Há! Há! Rapariga que antigamente se exibia bem e representava mal. A «pequena» do 3º andar meia despida. Jovem que desejaria ter sido bailarina mas que ficou pelo caminho.

Antigamente as «girls» não conseguiam dançar todas em uníssono e, por esse motivo, entretinham-se a piscar o olho aos espectadores e a dar beliscões umas às outras.

Actualmente já conseguem levantar as pernas ao mesmo tempo. Antigamente muitas das coristas eram entradotas. Era um dos encantos da revista. Os espectadores entretinham-se a reconhecê-las: Olha a Maria! Olha a Leonarda!

Tudo isso acabou. As «girls» do nosso tempo são novas. Não piscam o olho. Não dão beliscões. Ninguém as conhece senão os espectadores das primeiras filas…

Raul Solnado, Humberto Madeira e Carlos Coelho – Três novos que resolveram revolucionar o teatro de revista. Três actores cómicos de primeira qualidade. Três jovens que jogaram na lotaria e que ganharam.

Bastidores

O mundo que o público não vê. O mundo dos actores, das «girls», dos bombeiros, dos cenários, dos camarins e do rapaz do café do lado que transporta permanentemente, tabuleiros com cafés. É um mundo dirigido por um ditador: o director de cena.

Camarins

Pequeníssimos compartimentos onde os actores mudam de fato, conversam, descansam e fumam. Na parede do camarim do Solnado está um boneco feito a lápis, com objectos diversos, que representa o artista.

É nos camarins que se caracterizam os actores e é, também, nos camarins, que discutem uns com os outros e que vão alterando a revista consoante as reacções do público.

Vedeta

Estrela. Grande atracção feminina. Distingue-se das outras, logo à primeira vista, porque vem mais vestida. Por vezes canta e, por vezes, seria melhor que não cantasse.

É a galinha da capoeira. O seu vestuário brilha mais e tem mais bocados de vidro do que o vestuário das outras.

Varia de nacionalidade consoante a moda: umas vezes é espanhola e outras vezes é brasileira. Raras vezes é inglesa ou alemã. Quando é francesa canta sempre uma canção em português.

Essa canção é sempre muito aplaudida porque o público interpreta o gesto da vedeta como sendo uma homenagem à nação e, como todas as homenagens prestadas à nação são, por natureza, justas, o público comove-se e aplaude. (Coisas do público…).

As vedetas de revista são, na sua própria opinião, grandes artistas, muito embora o público nem sempre o compreenda. Decoram os camarins com ramos de flores enviados pelos admiradores.

Estes admiradores, evidentemente, ao enviar os ramos a que a1udimos, prestam homenagem ao talento e às qualidades da vedeta. Seria injusto pensar que homenagear a ARTE (com maiúsculas) não é o único objectivo desses indivíduos.

Por vezes surge uma vedeta com graça, frescura e alegria. É o caso da Milú que, na revista do Solnado, dá animação a muitos quadros e enche o palco com a sua presença cheia de vida e alegria.

Primeiras filas

As que ficam mais próximas do palco. São aquelas em que os lugares são mais caros. É nas primeiras filas que se arquivam os «interessados», os senhores com mais barriga do que cabelo, os casais burgueses que não dispensam o «teatro» uma vez por semana e certos jovens da «jeunesse dorée» que…

Intervalos entre as cenas

Espaço de tempo que decorre entre as cenas. Mudam-se os cenários. Os actores e as actrizes aguardam o momento da sua entrada em cena. Fumam, discutem, conversam.

Apoteose final

Fim da festa. A companhia junta-se toda no palco para se despedir do público. Os apressados levantam-se e incomodam os restantes. Ouve-se o bater das cadeiras.

Portas dos artistas

Portas por onde saem (e entram) os figurantes. Muito frequentada por uns cidadãos em que o corte do fato compensa as deficiências da natureza…

Fim

É o fim.

Fonte: “Almanaque” – Novembro de 1960 (texto editado e adaptado) | Imagem