A primeira travessia aérea do Atlântico Sul – 30-03-1922

O início das travessias aéreas

Em 1920, Sacadura Cabral e Azevedo da Silva ligam a Inglaterra a Portugal, enquanto Brito Pais e Sarmento Beires voam de Lisboa para a Madeira, percorrendo 850 quilómetros sem atingir o objectivo. O percurso é cumprido no ano seguinte, ao fim de mais de sete horas e meia, por Sacadura Cabral, Gago Coutinho, Ortins de Bettencourt e Roger Soubiran.

O sucesso do segundo voo para a Madeira deve-se a um novo meio de orientação: um sextante adaptado por Coutinho à navegação aérea. No regresso, em Porto Santo, o avião incendeia-se, mas os aeronautas ficam com uma certeza: o sextante de Coutinho pode levá-los a paragens bem mais longínquas.

A ida à Madeira, na verdade, serve apenas de teste para uma incursão muito mais ambiciosa: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro, projecto no qual Cabral e Coutinho, membros do incipiente corpo aeronáutico da Armada, trabalham há já algum tempo.

A travessia do Atlântico Sul

Nesta mesma década, quando em Portugal se vivia um clima de tumulto e de total ausência de poder e de ordem, dois aviadores portugueses lançam-se num feito inédito que vai correr mundo: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral partem de Lisboa a 30 de Março de 1922, a bordo do hidroavião Lusitânia. A viagem deveria ser feita em quatro etapas e no mesmo avião, mas diversos percalços quase deitavam tudo a perder.

Um acidente, já no Brasil, terminaria com os pilotos portugueses a amarar de emergência. O Lusitânia acabaria por se afundar, mas a viagem prosseguiu com outro hidroavião exactamente igual ao primeiro.

Mesmo assim, seria preciso um terceiro, o Santa Cruz, para concluir a viagem. A travessia aérea tinha sido feita em 62 horas e 26 minutos. Os métodos e instrumentos de navegação eram genuinamente portugueses.

No Rio de Janeiro, Sacadura Cabral e Gago Coutinho são recebidos em festa. Em Portugal são heróis recebidos em apoteose.

Dois anos depois, a 15 de Novembro de 1924, Sacadura Cabral viria a morrer vítima de um acidente de avião. Ao ir buscar outro avião a Amesterdão, para fazer um voo à volta da Terra, o aviador desaparece no mar, causando um inconsolável desgosto nacional.

Ainda antes da sua consagração com a travessia do Atlântico, Sacadura Cabral já se tinha distinguido quando, a 17 de Maio de 1920, fez a ligação aérea Inglaterra-Lisboa com duas escalas, em Brest, na França, e em Ferrol, na Galiza.

Outros feitos aéreos

A travessia do Atlântico por Gago Coutinho e Sacadura Cabral não foram os únicos feitos aéreos portugueses da década, Logo em 1920, Sarmento de Beires, do Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República, torna-se no primeiro piloto a realizar uma missão de voo nocturno.

Quatro anos depois, o mesmo piloto acompanhado por Brito Pais e Manuel Gouveia realizam a primeira viagem aérea até Macau.

Entram na moda os voos inaugurais para as colónias: Guiné em 1925, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique num único raid três anos depois. Beires participa na primeira viagem nocturna ao Rio em 1927, cumprida em menos de 40 dias.

Para lá da exploração, a conquista do ar apresenta benefícios sociais. Constitui-se em 1927 uma primeira companhia transportadora nacional – os Serviços Aéreos Portugueses – que inaugura a carreira Lisboa-Sevilha-Madrid, com um monomotor Junkers para seis passageiros. A linha fecha, porém, por falta de clientes e a empresa desaparece.

Fontes: “Anos 1920-1929 – Loucos tempos dourados” | “Portugal século XX – Crónica em imagens – 1920-1930″ (textos editados e adaptados)