As religiões na Europa no séc. XVI

No século XVI, a Europa viveu profundas transformações religiosas que marcaram de forma decisiva a sua história política, social e cultural.

A unidade cristã do Ocidente, até então centrada na Igreja Católica, foi abalada pelo surgimento de novas confissões resultantes da Reforma Protestante, ao mesmo tempo que o cristianismo ortodoxo e o Islão mantinham a sua presença em várias regiões do continente.

Católicos

A Igreja Católica permaneceu como a principal força religiosa na Europa, sobretudo no sul e no centro (Península Ibérica, Itália, parte do Sacro Império Romano-Germânico).

Reconhecia a autoridade do Papa, com sede em Roma, e defendia a tradição apostólica juntamente com a Sagrada Escritura.

Entre as suas práticas estavam os sete sacramentos, a veneração dos santos e da Virgem Maria e uma estrutura hierárquica bem definida.

O século XVI foi também marcado pela Reforma Católica (ou Contrarreforma), impulsionada pelo Concílio de Trento (1545–1563), que procurou reformar abusos internos, reafirmar doutrinas e combater a expansão protestante.

Luteranos

O luteranismo surgiu a partir das ideias de Martinho Lutero, que em 1517 criticou práticas da Igreja Católica, como a venda de indulgências. Expandiu-se sobretudo na Alemanha e na Escandinávia.

As suas principais características incluem:

  • Justificação pela fé (a salvação alcança-se pela fé, não pelas obras);
  • Autoridade exclusiva da Bíblia (Sola Scriptura);
  • Redução dos sacramentos a dois: Batismo e Eucaristia;
  • Rejeição da autoridade papal.

O luteranismo levou a conflitos religiosos, como as guerras entre príncipes alemães, culminando na Paz de Augsburgo (1555), que permitiu a escolha da religião pelos governantes.

Calvinistas

Inspirado nas ideias de João Calvino, o calvinismo desenvolveu-se principalmente em Genebra, França (huguenotes), Países Baixos e Escócia.

Entre os seus traços principais destacam-se:

  • Doutrina da predestinação (Deus já determinou quem será salvo);
  • Valorização da disciplina moral e da vida austera;
  • Organização eclesiástica mais simples, sem bispos;
  • Forte influência na ética do trabalho e na organização social.

O calvinismo esteve associado a conflitos intensos, como as Guerras de Religião em França.

Anglicanos

A Igreja Anglicana nasceu em Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII, quando este rompeu com o Papa (1534), criando uma igreja nacional sob autoridade do monarca.

As suas características incluem:

  • O rei (ou rainha) como chefe da Igreja;
  • Doutrina intermédia entre catolicismo e protestantismo;
  • Manutenção de alguns rituais e estruturas tradicionais;
  • Uso da língua inglesa na liturgia.

O anglicanismo consolidou-se no reinado de Isabel I, tornando-se a religião dominante em Inglaterra.

Ortodoxos

O cristianismo ortodoxo predominava no leste europeu e nos Balcãs, com centros importantes como Constantinopla (Istambul), Moscovo e outras regiões sob influência bizantina e eslava.

As suas principais características são:

  • Rejeição da autoridade do Papa, reconhecendo apenas concílios e patriarcas;
  • Forte tradição litúrgica e simbólica;
  • Uso de línguas locais (como o grego e o eslavónico);
  • Continuidade com as tradições do cristianismo primitivo.

No século XVI, muitos territórios ortodoxos estavam sob domínio do Império Otomano.

Islâmicos

O Islão estava presente na Europa sobretudo através do Império Otomano, que dominava vastas áreas do sudeste europeu (Balcãs, Grécia, parte da Hungria).

As suas características principais incluem:

  • Crença num único Deus (Alá) e em Maomé como seu profeta;
  • Base religiosa no Alcorão;
  • Prática dos cinco pilares do Islão;
  • Integração entre religião e poder político.

A presença islâmica na Europa esteve associada à expansão otomana, gerando conflitos frequentes com os reinos cristãos, como as guerras contra os Habsburgos.

Conclusão

O século XVI foi um período de fragmentação religiosa e de intensa conflitualidade na Europa.

A coexistência — muitas vezes tensa — entre católicos, protestantes (luteranos, calvinistas e anglicanos), ortodoxos e muçulmanos moldou o mapa político europeu e contribuiu para o surgimento de novas formas de organização do poder, da sociedade e da cultura.

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