Embarcações tradicionais portuguesas

Desde os primórdios da sua existência, o Homem sentiu a necessidade aproveitar os recursos do mar para garantir a sua própria sobrevivência e, simultaneamente, transpor e utilizar como meio de ligação àquilo que à partida representava um obstáculo a estabelecer separação com outros espaços físicos.

Por conseguinte, acabou por desenvolver as artes da pesca e os métodos de navegar, desde a utilização dos primitivos anzóis e do rudimentar madeiro até às modernas técnicas de arrasto e aos imponentes navios de cruzeiro que sulcam as águas dos oceanos.

Ao longo da costa e nos pequenos cursos de água, os povos souberam construir pequenas barcaças para ligar as margens entre si, para utilizar como meio de transporte ou afoitar-se em mar alto na captura de espécies piscícolas necessárias à sua subsistência.

E, no cruzamento de importantes cursos de água com grande vias de comunicação, construíram-se os aglomerados urbanos que passaram a concentrar as populações.

Abundante de sardinha, as povoas de pescadores que se formaram ao longo da costa portuguesa praticaram durante muito tempo a arte xávega, utilizando para o efeito uma embarcação de proa erguida do tipo saveiro.

Desde o rio Minho até à foz do Guadiana, das serenas águas do Zêzere às agitadas ondas da costa portuguesa, existem por todo o país dezenas de embarcações tradicionais que constituem um verdadeiro património da arte popular.

Algumas delas já apenas constituem lembrança dos mais antigos, apenas preservadas pelo modelismo naval em forma de miniaturas expostas em museus etnográficos. Outras, porém, aventuraram-se para praias distantes onde foram adoptadas pelas populações locais como os caíques algarvios no Brasil e sul de Angola.

Casos houve ainda que, em contacto com culturas que até então lhes eram estranhas, as técnicas navais dos marinheiros portugueses originaram novos modelos náuticos, como se verifica com a lorcha nos mares do oriente

As embarcações tradicionais eram feitas a partir dos materiais existentes na região, a sua construção obedece geralmente à finalidade a que se destinam, atendendo às características dos sítios onde navegam, das condicionantes meteorológicas e de agitação marítima e, em função da dinâmica necessária, aos meios de propulsão de que são dotados.

Desse modo, as embarcações podem variar nas suas dimensões como na fisionomia, apresentando com quilha ou fundo chato, com maior ou menor cavername, à vela e a remos.

Ninguém, naturalmente, imaginará uma característica fragata do rio Tejo a descer o rio Douro até ao chão da Valeira ou o frágil moliceiro da ria de Aveiro – ou de Ovar – a romper a furiosa rebentação das ondas na Praia de Mira e a fazer-se ao alto para espalhar as redes da xávega.

Embarcações tradicionais - Fragatas no Rio Tejo
Fragatas na antiga doca de Santos, no rio Tejo, em 1911, por ocasião de uma greve de fragateiros. (Foto: Arquivo Fotográfico da CML)

As técnicas e artes da construção naval constituem uma das vertentes mais importantes da arquitectura e da engenharia de raiz popular e tradicional.

O seu desenvolvimento deu origem a novas profissões, muitas das quais se encontram consagradas na toponímia de muitas localidades piscatórias como se verifica com os calafates e os carpinteiros de machado.

É que, sem a arte da construção das embarcações seria impensável a navegabilidade, incluindo a que se relaciona com a actividade pesqueira e as tradições que lhe estão associadas.

Em diversos portos de abrigo que no passado serviram gregos e fenícios, criaram-se estaleiros que utilizavam a madeira da floresta que era plantada nos terrenos dunares do litoral.

E, aí, com a mestria de quem domina as técnicas empregues nos mais rigorosos cálculos matemáticos, incluindo a trigonometria esférica e as mais complicadas equações algébricas e integrais, os nossos mestres – na maioria das vezes ignorantes do alfabeto – aplicavam o seu saber e, com recurso ao graminho para efectuar os seus cálculos, concebiam as melhores obras de construção naval que se encontram na base a correspondente engenharia.

Foram eles, aliás, que transformaram as primitivas barcas nas caravelas que levaram Gil Eanes a dobrar o Cabo da Boa Esperança, tal como foi o graminho utilizado pelos navegadores na mítica Escola de Sagres.

Para além da sua funcionalidade, algumas embarcações tradicionais incluem motivos pictóricos de interesse artístico e etnográfico como se verifica com os moliceiros e as fragatas do rio Tejo. Outras testemunham uma migração interna das gentes ovarinas para Lisboa como sucede com os varinos.

Embarcações tradicionais - Barco Varino junto ao cais do Sodré, em Lisboa.
Barco varino junto ao cais do Sodré, em Lisboa, transportando mercadoria. (Foto: Arquivo Fotográfico da CML)

A catraia era a embarcação emblemática de Esposende. Ostentando uma enorme verga que chegava aos oito metros de altura, esta embarcação era habitualmente utilizada na pesca da sardinha. Um pouco mais a sul, temos o característico barco rabelo cujas técnicas de construção remetem para a tradição nórdica, sem quilha e de fundo chato.

Dispõe apenas de um mastro com vela quadrada e, à popa, a espadela que constitui um remo comprido para governo da embarcação. O seu percurso, desde o Pinhão até à Régua, era por vezes feito com o auxílio de juntas de bois que o puxavam a partir das margens ou seja, os chamados caminhos de sirga.