Para a história do chocolate – Manjar dos deuses!

A descoberta do chocolate

Se as crianças soubessem que o chocolate começou por ser considerado na Europa como um remédio, talvez lhe perdessem o gosto…

De facto, quando no século XVII o nosso Zacuto Lusitano se lhe refere, é para salientar as suas virtudes no tratamento da dispepsia. E outro tanto sucede com o Cardeal de Lyon, o primeiro francês que lhe experimentou as vantagens, que não eram ainda as do sabor.

Ao que parece, foi Fernando Cortez quem, de regresso do Novo Mundo, introduziu em Espanha o chocolate, no ano de 1528.

Aquando da conquista do México, os espanhóis tiveram curiosidade de experimentar uma papa escura que parecia fazer as delícias dos indígenas.

A desilusão foi tremenda. Essa burundanga tinha um sabor amargo e os espanhóis concluíram que era boa para alimentar os presos. Por isso quiseram saber qual era a sua composição.

Os Mexicanos mostraram-lhes depois uma espécie de fava muito comum naquela região e que servia, normalmente, de moeda.

Os tributos dos mexicanos eram pagos em cacau, explicando-se assim que do tesouro de Montezuma, apreendido por Cortez, fizessem parte 1.200.000 quilos daquele produto!

Os mexicanos obtinham um chocolate misturando o cacau com milho e pimenta.

Os Espanhóis acabaram por tirar os dois últimos ingredientes e juntaram açúcar ao cacau.

O chocolate, tal como depois veio a difundir-se na Europa, estava praticamente inventado.

Auxiliar da digestão

E bem cedo o vemos entrar na literatura.

M.me de Sévigné refere-se-lhe várias vezes: «Ontem tomei um pouco de chocolate para me auxiliar a digestão..

É que, não o esqueçamos, o chocolate era considerado como uma droga, um remédio para curar certas maleitas.

Aconteceu o que geralmente acontece com estas coisas: o «remédio» era saboroso e os homens (e sobretudo as mulheres) abusaram.

A própria M.me de Sévigné, que tanto louvara e recomendara o uso de tal medicamento, acaba por desaconselhá-lo: «o chocolate, de princípio, ajuda-nos, mas depois desenvolve em nós uma febre cuja consequência fatal é a morte».

A morte… Não só a morte.

Maria Teresa, a esposa do Rei Sol, tinha os dentes estragados por causa do chocolate…

Apesar disso e das vozes que se erguiam contra o uso e abuso do tal «remédio», o chocolate era servido em Versalhes, nos dias de festa. E a despesa era tal, que em 1693, o rei se viu na obrigação de o suprimir.

Alimento dos deuses

Desde 1661 que a Faculdade de Medicina de Paris dera a sua aprovação oficial ao chocolate.

Deve dizer-se mesmo que o chocolate teve logo a simpatia dos médicos, uma simpatia que eles sempre recusaram ao café.

Diziam eles que o chocolate era um alimento de primeira ordem e, além do mais, dissipava os humores da bílis.

Foi talvez por isso que o dr. Bachot apresentou à Faculdade de Medicina uma comunicação em que defendia a tese de que «o chocolate era uma invenção tão nobre que só por um lamentável erro histórico se havia suposto ser a ambrósia o alimento dos deuses.

Tudo leva a crer – continuava o notável investigador – que o alimento dos deuses era o chocolate».

Mas, nessa mesma época, Lister – um famoso médico inglês – dizia depreciativamente que o chocolate era comida para índios!

Difícil questão era a de saber se o chocolate, tomado de manhã, quebrava ou não o jejum.

Mas o chocolate líquido era uma simples bebida…

O Padre Brancaccio exprimiu num latim de cozinha o axioma teológico: Liquidum non frangit jejunium. Por outras palavras: os gulosos podiam estar descansados.

Amor de perdição

Mas se o chocolate era comida de deuses, podia ajudar os homens a mais rapidamente tomarem a direcção dos Céus.

M.me d’Aulnoy conta a história de uma famosa aristocrata francesa que, sentindo-se enganada pelo amante, o convenceu a vir a sua casa visitá-la pela última vez.

Depois de o repreender, apresentou-lhe um punhal e uma taça de chocolate envenenado, dando-lhe unicamente a liberdade de escolher o género de morte que preferia.

Ele não hesitou um instante, nem mesmo procurou apiedá-la.

Ali, em casa dela, com a retirada cortada, bem sabia que era o mais fraco. Bebeu friamente o chocolate sem deixar na chávena uma única gota.

Minha senhora – disse-lhe depois -, o chocolate tinha pouco açúcar e o veneno é amargo. Para a próxima vez não vos esqueçais de o açucarar melhor.

Levou ainda uma hora a morrer, no meio de terríveis convulsões. E ela, que afinal continuava a amá-lo, não o abandonou nesses cruéis momentos e deu-lhe todo o seu apoio moral.

O que não se sabe é se, posteriormente, lhe seguiu o conselho.

Mas tratando-se, como se tratava, da última vontade dum moribundo, tudo leva a crer que sim!

“Almanaque” – Março 1960 | Imagem